Sábado, 10 de Outubro de 2009
publicado por JN em 10/10/09

Juro-vos: eu não queria escrever esta crónica. Não agora. Malhar nos vegetarianos é tão fácil que chega a ser cobardia – e um homem precisa de ter uma ou duas crónicas cobardes de molho para a eventualidade de, em semana de maior aflição, todas as demais falharem. Mas não resisto. Jornais e televisões, rádios e sites, redes sociais e spamming: toda a gente se esforçou, nos últimos dias, por recordar-me a passagem de mais uma Semana Mundial Vegetariana, incluindo o Dia Mundial do Vegetarianismo. E, portanto, aqui vai. Quem vier atrás que feche a porta. Na verdade, eu estava desertinho.


Assim por alto, devo dizer que acho o vegetarianismo (qual é aquela palavra?) uma idiotice. Tanto quanto sei, a maior parte dos vegetarianos aderiu à moda por razões de natureza (passe a redundância) naturalista. Ora, Deus (ou o Big Bang, ou o demónio, que sei eu?) fez-nos omnívoros, com necessidade de comer um tanto de tudo – e um vegetariano, para poder sobreviver, tem de andar a tomar comprimidos (chamam-lhes “suplementos”, ao que sei) com doses cavalares de ferro, zinco, magnésio, sódio e potássio, entre outros nutrientes em que a carne é rica. Não me parece lá muito (como é que se diz agora?) biológico. Quer dizer: um comprimido com uma dose de vitaminas do complexo B equivalente à de 37 bifes do lombo – parece-lhe natural, isso?

Entretanto, e a acreditar no triunfalismo com que foi assinalado mais um dia mundial da dita religiãozinha, “há cada vez mais portugueses” (é o que leio por todo lado, ipsis verbis) vegetarianos. Vegetarianos ou semi-vegetarianos (também ditos pixo-vegetarianos), que são aqueles que admitem o consumo esporádico de peixe ou marisco – mas que também contam para o campeonato. Acho bem que contem: para mim, não fica ninguém de fora. Não vale a pena sermos fundamentalistas. Sei-o por experiência própria: não é por ter deixado de fumar que me furto a um ou outro bafinho em dia de festa, a uma ou outra cigarrilha em momento de maior loucura – e, no entanto, faço questão de continuar a contar como não fumador (ou, vá lá, pixo-não fumador).

De qualquer maneira, não é apenas por dedução que se diz que os vegetarianos têm aumentado entre nós. De facto, Portugal está um rectangulozinho cada vez mais tonto – e, portanto, o mais natural é que tenha mais vegetarianos também. Mas há igualmente dados estatísticos. Segundo um inquérito online conduzido pelo insuspeito Centro Vegetariano, aliás, os devoradores de vegetal podem mesmo atingir, por esta altura, cerca de 40% da população portuguesa. Pronto, pronto, não devemos acreditar em todas os inquéritos online. Da última vez que levámos em linha de conta um inquérito online, já andávamos a apregoar que a taróloga Maya (que saudades eu tinha de citar a taróloga Maya) era a portuguesa mais sexy, esquecendo-nos de que ainda existe a senhora dona Júlia Pinheiro. Mas, quer dizer, sempre hão-de querer dizer alguma coisa, estes inquéritos.

E os resultados, apoiados em 589 respostas de portugueses e portuguesas, trazem-nos algumas conclusões expectáveis e outras tantas (rufem os tambores) impressionantes. Motivos ético-filosóficos, motivos de saúde, mesmo simples motivos económicos – as razões que levam as pessoas ao vegetarianismo são da mais diversa ordem. Mas eu permito-me destacar um dado: aquele que diz que, em cada 100 portugueses vegetarianos, 26 são-no por “razões espirituais”. É um número inesperado – e que, tanto quanto sei, surpreendeu o próprio Centro Vegetariano. Mas, enfim, talvez não tenha sido muito sensato despachar o inquérito quase todo nas lojas de mobiliário da Almirante Reis (sobretudo sem o cuidado de sublinhar que estavam em causa todos os tipos de carne, não apenas a de vaca).

E, pronto, assim se passou mais um dia mundial: o dia mundial que recordarei para sempre como aquele em que descobri que até para gatos já há comida vegetariana. Entretanto, porém, fiquei com uma dúvida. Perdão, duas. Primeira: se ninguém comesse carne, será que continuaríamos a criar vacas, ou deixaríamos simplesmente extinguir a espécie? Segunda: e, se ninguém comesse carne e a criação continuasse, não se tornariam as vacas tantas (e, aliás, tão pouca a relva, ainda por cima disputada connosco) que não lhes restaria outra solução senão tornarem-se carnívoras, acabando, então sim, por serem elas a devorarem-nos a nós? Bom, nesse caso, não será boa ideia deixar amaricar os gatos: vamos precisar de tantos aliados quanto pudermos arranjar , que a guerra prevê-se dura.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Outubro de 2009

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55 comentários:
De Izabel Armas a 3 de Outubro de 2015 às 23:21
Esqueci-me de dizer que nunca precisei tomar quaisquer suplementos ou vitaminas porque sou vegetariana. Penso que isso depende de pessoa para pessoa.
Não se devem generalizar esses casos.
De Patricia a 7 de Outubro de 2015 às 01:11
Deixe-me utilizar suas próprias palavras: quanta idiotice! Pelo visto você não tem a menor ideia do tema que se propos a falar. Sou vegana e minha saúde vai muito bem, obrigada! Nunca tomei nenhum suplemento e nem preciso. A questão do especismo é muito mais profunda do que esse texto infundado que você escreveu. Vá pesquisar sobre o assunto e visitar alguns abatedouros antes de tentar falar sobre um tema do qual não entende absolutamente nada. Volte para sua caverna!
De Mirkos a 7 de Outubro de 2015 às 02:56
Seu anus deve sentir ciúmes de sua boca...
De Francisco a 24 de Março de 2016 às 20:02
Francamente, nunca li tanta merda. Em primeiro lugar, o veganismo está longe de ser algo idiota, porque nós conseguimos pensar em alguma coisa mais para além de nós próprios. Ao contrário de vocês, nós conseguimos pôr o bem estar e a senciência de animais inocentes à frente do nosso ego, paladar e caprichos. Os animais, tal como o ser "humano" (entre aspas porque de humano não tem nada) têm um sistema nervoso central, o qual é responsável pelos sentimentos, emoções e dor física e psicológica.

Nós não somos omnívoros. Lá porque temos a capacidade de digerir cadáveres em decomposição e as suas secreções, isso não significa que tenhamos sido feitos para os consumir. Aliás, isso vai completamente contra a nossa natureza biológica.

“A nossa anatomia, fisiologia, psicologia e os nossos processos bioquímicos indicam-nos que nós não fomos feitos para comer carne.” - Dr. Douglas Graham. https://www.youtube.com/watch?v=HqVOUJjvtUw

E por favor, Joel, faça um pouco mais de pesquisa antes de escrever sobre o que quer que seja. Você está a implorar para passar vergonha na internet. Suplementos de sódio?! O sódio é encontrado no SAL, e basta uma pitada de sal nos alimentos para alcançar as DDR (doses diárias recomendadas) de sódio. Em relação aos outros nutrientes que referiu, o Concelho Regional de Nutricionistas já proferiu num documento que "TODOS os tipos de dietas vegetarianas, incluindo a dieta vegetariana estrita (utilizada por veganos e que exclui todos os produtos de origem animal) são viáveis sobre o ponto de vista nutricional".

E a carne não tem quaisquer hidratos de carbono. A carne é composta por 50% de proteína e 50% de lípidos (gordura). Mais uma vez, informe-se mais, de modo a evitar passar vergonhas na internet. Tenha um bom dia.
De Francisco a 24 de Março de 2016 às 20:05
Verdadeiros carnívoros e omnívoros produzem uma enzima - a uricase - que é utilizada para metabolizar o ácido úrico na carne, enquanto os humanos produzem zero uricase. Verdadeiros carnívoros e omnívoros comem a carne CRUA, e não precisam de disfarçar o seu sabor com PLANTAS (especiarias) e com cozedura.

Coisas deste tipo são indicadores de que nós não fomos feitos nem estamos biologicamente preparados para comer cadáveres.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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