Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
publicado por JN em 24/1/12

O Esperança não é bom em tudo, mas tem a melhor piza Quatro Queijos a Norte do Pólo Sul. Pois aproveite agora, antes que o Verão volte a lançar o caos no Bairro Alto. Há coisas para que já não temos idade

 

Não vale a pena mistificar: provavelmente, é da idade. Ao fim de vinte anos, incluindo sete de trabalho e quase outro tanto de residência, o Bairro Alto perdeu o encanto que tinha para mim. No momento em que regresso ao Esperança, acabo de assinar o contrato que me levará dali para fora, não sei se de vez, se apenas por muitos anos – e, à medida que vou percorrendo as ruas e as ruelas que amei e cumprimentando os velhos e os junkies que me conhecem pelo nome, já não é a arquitectura que me salta à vista, nem sequer a dimensão humana da malha citadina, nem tampouco o fado e os fadistas, os jornais e os jornalistas, ícones do Bairro de que de resto há cada vez menos exemplos. O que me salta à vista é a sujidade, o mau cheiro, os gritos histéricos das adolescentes, ainda sem idade para ir à mercearia quanto mais para sair à noite – e, naturalmente, as multas, as muitas multas, as muito mais multas do que aquelas com que era suposto uma cidade soalheira castigar os seus amados habitantes pelo simples facto de a habitarem.

E, no entanto, entro no Esperança e não tardo a perceber por que se transformou ele num dos meus lugares de regresso. Primeiro, é o espaço, a delicada recuperação que dele foi feita, incluindo a preservação cuidada de alguns dos mais belos elementos da taberna/mercearia que antes o ocupava. Depois, é a iluminação, aquele cuidado jogo de pontos de luz que ao mesmo tempo blinda cada mesa numa intimidade hermética e favorece uma atmosfera geral de quase clandestinidade. E, depois ainda, são as empregadas, giras e simpáticas, a proximidade do forno, que nos afaga com os seus calores e o seu vago bulício, e a frequência um tanto babilónica, às vezes assertiva e outras vez apenas arrivista, mas sempre propiciadora de matéria-prima cronística. No dia em que regresso, fico ao lado de uma mesa com quatro jovens portugueses, três rapazes e uma rapariga, todos bonitos – e é tal o afã de se evidenciarem que não se limitam a dizer palavras em línguas estrangeiras, como tantos de nós, mas frases inteiras. Sinal dos tempos ou epifenómeno tonto?

Enfim, começa a chegar a refeição – e, embora me chateie beber o vinho em copos rasos, tipo Ikea, tudo o resto é quase perfeito. A certa altura tiro do prato em frente um ravioli fresco e confirmo que, efectivamente, o forte do Esperança não são as pastas, mas aquilo que se cozinha no forno de lenha. De resto, as minhas escolhas são outras. Primeiro, sfizio di asiago, uma encantadora entrada de queijos grelhados, presunto e doce de mirtilho, simplesmente irrepreensível. Depois, piza Quatro Queijos, uma finíssima cama de massa quase crocante, com uma generosa combinação de cinco queijos por cima (na verdade são cinco: mozzarela, provola, asiago, gorgonzola e parmesão), cujos cambiantes se vão deixando descobrir ao longo da noite e a que há muito tempo gosto de chamar a melhor quatro-queijos de Lisboa. E, finalmente, um gelado da Santini, que, com ou sem fenómenos de moda, continua sem rival nos sabores de fruta.

Conta final: € 24,20. Mais barato, com a oferta em causa, é difícil. E o melhor é aproveitar agora, porque assim que o calor regressar o Bairro Alto volta a transformar-se num grande WC ao ar livre.

 

RESTAURANTE ESPERANÇA

Rua do Norte, nº 95, 1200-283 Lisboa

 

Tel: 213432027

 

Cozinha italiana e internacional. Estilo/atmosfera: informal. Vinho a copo. Não fumadores. Reserva aconselhável. Aberto de segunda a sexta-feira, das 20:00 às 02:00; sábados e domingo, das 13:00 às 16:00 e das 20:00 às 02:00. Não fecha. Preço médio: € 25

O LUGAR

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Vista {#emotions_dlg.star}

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O SERVIÇO

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Know-how {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

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Aperitivos e digestivos {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

A COMIDA

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Quantidade {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

Qualidade/preço {#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}{#emotions_dlg.star}

 

Crónica gastronómica ("Restaurantes"), Notícias Magazine, 15 de Janeiro de 2012

Domingo, 8 de Janeiro de 2012
publicado por JN em 8/1/12

A continuação temporária de Júlio Magalhães no Jornal das 8, agora como colaborador, é uma prova do peso que Marcelo Rebelo de Sousa tem na TVI e, aliás, na TV portuguesa em geral. Mas a conjuntura não é favorável ao professor – e a demissão de Magalhães, assim como o término do seu actual contrato com Queluz, são apenas parte do problema. Marcelo é líder incontestado entre os comentadores, mas talvez não seja um comentador para um tempo de crise. Os seus comentários são espirituosos e divertidos, sim. Só que também são redondos e fundamentalmente lúdicos. Na verdade, só são “especializados” quando se trata do jogo político puro e duro. Ora, em regra, isso é uma virtude, sobretudo tendo em conta o perfil da TV em sinal aberto. Chegamos, porém, a um momento em que a recessão não é apenas uma coisa dos telejornais, mas uma realidade comprovável na vida das famílias, incluindo menos trabalho e menos rendimento, mais impostos e mais desespero. A partir daqui, pois, não serão o espírito e a retórica a fazer a diferença: serão a assertividade e as soluções concretas. E Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi melhor a problematizar do que a resolver. Para além de tudo, o calendário eleitoral começa a impor-se. Se o antigo presidente do PSD efectivamente acalenta alguma ambição de chegar à Presidência da República, em algum momento terá de sair de cena, de forma a readquirir o consenso que apenas a obscuridade permite. Tendo em conta que as eleições são em 2015, o ideal seria talvez desaparecer em 2013. Mas Maio, data em que termina o actual contrato com a TVI, também pode ser uma boa solução.

 

CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 6 de Janeiro de 2012

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012
publicado por JN em 6/1/12

Como uma bofetada numa criança faz desmoronar um grupo de amigos. Retrato de um subúrbio australiano que se pretende também de um tempo. É o quarto romance do australiano Christos Tsiolkas e ganhou o Commonwealth Writers’ Prize 2009

 

No momento em que Harry espanca Hugo, já todos nós, leitores, o espancámos várias vezes em pensamento. “Espancar”, na verdade, é um verbo demasiado forte para Harry, que se limita a dar-lhe uma bofetada. Mas não para nós: nós preferíamos tê-lo visto espancado mesmo, tão irritante é o miúdo, tão agressivo é o seu pai alcoólico, tão autoritária e ridícula e insuportável a sua mãe new age. E, contudo, no instante em que é perpetrada, aquela bofetada não apenas se faz ouvir em cada recanto do jardim onde Hector e Aisha recebem os amigos para um churrasco de sábado à tarde, acabando abruptamente com a festa, mas como que ecoa pelos subúrbios de Melbourne, pela Austrália, pelo mundo todo. Hugo não é filho de Harry, e o primeiro drama é esse. E, porém, o desmoronamento daquele grupo de amigos, de imediato dividido entre os que também teriam esbofeteado Hugo, que naquele instante ameaçava outra criança (precisamente o filho de Harry) com um taco de críquete, os que jamais esbofeteariam uma criança, indefesa mesmo quando de trato difícil, e os que agora querem é distância, tão óbvia é a folia colectiva em que os contendores mergulharam, não parece tão resultante da bofetada em si como do desconhecido mas irreprimível desejo de provocá-lo ao primeiro pretexto. E então vem ao de cima tudo o que cada um deles tem de mau, incluindo o classismo, o sexismo, o racismo e todos os demais preconceitos fundamentais, que efectivamente se vem a verificar concentrarem-se todos em Harry, mas na verdade se dispersam pelos amigos em diferentes combinações. Cada um dos oito capítulos tem como centro de consciência um dos convivas presentes no churrasco, o que faz derivar a narrativa para os dilemas pessoais de cada um, que por outro lado passam a funcionar em tensão com as ponderações sobre se Harry é pouco menos do que um assassino ou o mais inesperado dos justiceiros. O pano de fundo é a prosperidade económica do início do século. Ao longe, no entanto, já se fazem ouvir os trovões que anunciam a crise, como Auden dizia que anunciavam a morte em dia de piquenique – e, se o colapso estiver determinado a demorar-se, aqueles gregos, indianos, árabes, aborígenes, latinos e britânicos que ali se reúnem, no churrasco com que o livro começa e a que todos regressam diariamente, inquietos, estão mais do que dispostos a apressá-lo. O romance é de 2008 e chega-nos já com o carimbo de vencedor do Commonwealth Writers’ Prize, que se sucedeu a uma nomeação para o Man Booker. Nem todas as oito narrativas têm a mesma força, nem seria de esperar tal coisa. Há diálogos menos inspirados, imagens pouco conseguidas, figurantes banais, uma certa perda de fôlego com o avançar das páginas – e depois uma perda quase definitiva dele, a seguir ao capítulo centrado no velho Manolis. De resto, o lirismo está muito mais na interioridade das personagens, nos abismos e comoções que vão escorrendo dos seus mal controlados silêncios, do que propriamente naquilo que é expresso, por elas ou pelo narrador. Mas a sátira a uma certa contemporaneidade, incluindo as suas convenções e as suas armadilhas, a sua cultura pop e o seu mainstream, a sua escassa capacidade de amar e a sua imensa culpa – a sátira a um certo tempo, no fundo –, é implacável. E os tipos sociais, embora às vezes forçados, servem-na com diligência. Escasseiam, é verdade, os momentos de contemplação do belo. Mas Christos Tsiolkas, de que este “A Bofetada” é o quarto romance, esforça-se por não ir além daquilo que as pessoas sobre que escreve conseguiriam decifrar – e talvez isso não seja um completo absurdo.

Crítica Literária, Ler, Dezembro de 2011

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
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"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
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"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
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outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
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"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
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"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
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"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
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"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
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"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
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