Sábado, 20 de Novembro de 2010
publicado por JN em 20/11/10

A primeira coisa que sentiu foi frio. Acordou com os pés da cama batendo nas portas que delimitavam os corredores, dois estrondos enormes, em catadupa, separados apenas alguns segundos dos dois estrondos seguintes – e, por cima do seu, julgou identificar o rosto fechado de um homem de bigode, empurrando a cama. Tentou dizer: “Tenho frio”, mas nada. Tentou de novo: “Estou a morrer de frio. Por favor, estou a morrer de frio” – e, ainda assim, as palavras não lhe saíam da boca.


Imagens misturavam-se agora à sua frente: noite escura, luzes, rapazes e raparigas, gente dançando, o Pedro. Tentou uma última vez dizer: “Tenho frio. Pelo amor de Deus, tenho frio” – e, no entanto, já apenas o Pedro, no meio das luzes, copo ao alto: “Só mais este, miúdo! Ainda te aguentas?” O Pedro e o Francisco. E a Cátia, sim – a Cátia também, ou então a Andreia, ou as duas, ambas aos gritos entre a gritaria. “Não sejas menino. Aguenta-te!” Era o Pedro ou o Francisco, afinal?


Depois, as têmporas novamente a latejar. Nenhuma luz agora, como se adormecesse.


Tornou a acordar mais tarde, a cabeça muito pesada ainda – e ao fundo tinha, desta vez, uma mulher. Nem sinais do homem de bigode. Era um homem de bigode, há bocado, não era? E antipático, contrariado – não era? De qualquer forma, nenhum sinal dele. E, todavia, antipática a mulher também, a gritar para um telefone. Lá em cima, uma garrafa de plástico, pingando devagar. Tentou mexer a mão direita – doeu-lhe, como se nela tivessem espetado uma agulha. E tinham.


“Como assim, só de manhã?!”, continuava a gritar a mulher. “A senhora não está a perceber. O seu filho bebeu de mais, mas já só tem de dormir. E eu preciso da cama. Faça o favor de vir buscá-lo depressa!” Pausa. “Minha senhora, eu não tenho nada com isso. Tenho a Urgência cheia de gente e preciso das camas! Portanto, ou vem buscar já o seu filho, ou ponho-o a dormir na sala de espera!” E atirou com o telefone.


Ficou quieto. Mais clara, agora, a cronologia. Noite de copos combinada há dias. Sessão de PlayStation lá em casa. Duas da manhã, a hora dos veteranos – e, enfim, eles rodeados de música. Copos. Shots. Mais copos. Mais shots ainda. E o WC – várias vezes o WC. Primeiro o corredor escuro, o Pedro aos melos a um canto. Com a Cátia. Era a Cátia ou a Andreia? Aos melos ou a foder mesmo? Risos, em todo o caso: risos altíssimos, gargalhadas, Pedro gritando agora na sua direcção: “Estás todo escafiado, bebé. Vais ao greg? Tu não me digas que vais ao greg, pá. Menino!”


De novo as têmporas a latejar. Nenhuma luz já, como se adormecesse. E, porém, a mulher sacudindo-lhe agora o braço. “Não, não, não. Nem pensar em dormir na caminha quentinha. Toca a levantar, que vai para a sala de espera como gente grande!” Tentou responder-lhe: “Tenho frio – e desta vez conseguiu-o mesmo: “Tenho frio.” Então, ela estacou. Respirou fundo. Era bonita. Morena, jovem ainda, cabelos aos caracóis. Respirou fundo de novo. Cabelos longos, sim: longuíssimos, encaracoladíssimos.


“Desculpe. Bebi de mais.” Tentou sorrir, mas a sua boca não sorria. “Pois bebeu – e agora estou eu aqui, à espera que os paizinhos venham buscar o querido, enquanto os velhos e os doentes e os estropiados ficam no corredor, a ver se o querido cura a bebedeira e vaga a cama.” Nova pausa. “Mas como é que eu vim aqui parar? Os meus amigos? O Pedro?” Silêncio de novo. E os olhos dela. “Veio de ambulância, claro – e os seus amiguinhos, como fazem os amiguinhos, puseram-lhe um papel no bolso, com o telefone lá de casa.”


Até que se abriu a porta à esquerda, uma voz de homem irrompendo: “Doutora, doutora, a velhota do AVC está em assistolia!” Deixou-se ficar ali um instante, no meio de rebuliço, a cabeça pesada, doendo ainda, os enfermeiros correndo num frenesim. Esticou a mão para o telefone, marcou 1 e tecla verde, viu o nome de Pedro aparecer no visor – e do outro lado: “O número que marcou não está disponível.” Depois, as têmporas de novo a latejar. E, enfim, nenhuma luz, como se adormecesse ainda.


“Amigo não empata amigo” – quem disse que o século XXI não ia ser capaz de criar uma doutrina?






CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 20 de Novembro de 2010


(imagem: © www.taeseah.blogspot.com)





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4 comentários:
De jorge espinha a 21 de Novembro de 2010 às 18:47
Caro Joel


Era assim tão diferente quando tínhamos a idade (tenho 38) deles?


PS: onde é que posso ir para trocar consigo umas impressões fatalistas sobre o Sporting?
De Manuel Carvalho a 22 de Novembro de 2010 às 00:04
Por mais que a pessoa beba socialmente, via de regra, o indivíduo é considerado alcoolizado após ingerir 2 ou mais boas doses de bebidas destiladas, ou até mesmo 3 latas de cerveja. Segundo pesquisas, no nosso país, a crise está a fazer disparar recaídas com álcool e droga e a aparecer inúmeros novos casos. Um homem do Norte e outro do Centro do País podem ter em comum meses ou anos de abstinência de álcool. Batalhas vencidas há meses e que agora caem por terra perante as dificuldades económicas ou a falta de pagamento pelo trabalho prestado. A conjuntura de crise está a levar mais portugueses a pedirem ajuda nos centros de tratamento de álcool e droga, a maior parte dos quais por recaída. A procura já subiu em 2009, com dez mil novos doentes a serem tratados na rede do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT). Um cenário que se agrava este ano porque há mais acesso a tratamento mas também devido à crise económica.
O alcoólico pode não beber com prazer, e sim para que o efeito (a moca) comece o mais rápido possível. Prefere comer um pouco enquanto bebe, para não diminuir o efeito da bebida. Se comer, a oxidação do álcool será maior, a sua eliminação da corrente sanguínea mais rápida e o efeito menor.
O alcoolismo pode tornar-se numa doença incurável de determinação fatal e progressiva até mesmo em período de abstinência se, entretanto, abandonar os tratamentos para interromper o crescimento da doença.
De Maria Lino a 26 de Novembro de 2010 às 10:24
Tenho esperança que a geração dos nossos filhos, atingida profundamente pela crise económica, de valores e da dimensão do tempo, seja melhor!

Maria Lino
De Jbls a 11 de Dezembro de 2010 às 14:55
Acabo de ler a sua crónica NS257.
Aquele último parágrafo é magnífico.
Delicioso na forma.
Exacto no conteúdo.
Gostei!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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