Domingo, 14 de Novembro de 2010
publicado por JN em 14/11/10

Encontram-se na rua, à esquina de um passeio movimentado – e a primeira impressão que deixam é a de que se esforçam ambos por não cruzar o olhar. Ela vem com um fato cinzento, calças a pouco mais de meia canela (eu ia dizer “à pirata”, mas talvez não se aplique), e ele também, mas de perneira comprida. As camisas, brancas, parecem iguais, embora de tamanhos diferentes. Há entre eles uma espécie de intimidade antiga – uma história remota, talvez amor, provavelmente ódio (ou então apenas raiva, demoro a apurá-lo).


Não chego a perceber o que fazem exactamente, mas depressa descubro que ambos mandam em gente. Dois minutos apenas, aliás, e já sei mais ainda: são ambos casados, ambos pais, ambos automobilistas, ambos desinteressados da coisa pública, ambos viajantes. Primeiro fico impressionado com a quantidade de novidades que conseguem debitar em tão pouco tempo, depois frustrado quando a informação começa a andar em círculos. Ainda não passaram cinco minutos e já torço por que toque um telemóvel. E, no entanto, aí vão eles, impotentes, como que levados ao colo pelo acaso que os cruzou.


Ela: “Claro, claro. Claro, claro.” Parece querer calá-lo depressa – e, porém, não consegue. Ele fala agora de “chatices” (sic): viagens que tem de fazer, jantares onde tem de estar, lugares a que não pode deixar de ir, pessoas que não pode evitar. O trabalho, o trabalho, o trabalho. E ela: “Claro, claro. Claro, claro.” O seu rosto é como que o de uma mulher em vias de afogamento, tipo tortura japonesa dos tempos da perseguição aos cristãos: a maré subindo devagar, inundando-lhe o peito, vencendo-lhe o colarinho.


Está imparável, ele – ela como que com o coração aos pulos. Os miúdos, o director europeu e o mestrado. “Claro, claro. Claro, claro.” A viagem ao Vietname, o iPad e a reunião em Turim. “Claro, claro, claro. Claro, claro.” A revisão do Mercedes e o apartamento na Expo, a tese em vias de publicação e a sabática – a artilharia pesada toda de uma vez, e ainda assim ela naquilo: “Claro, claro. Claro, claro.” Até que, inevitavelmente, ele se cansa. Hesita. Então, ela respira fundo – não há tempo a perder, ou agarra esta oportunidade ou está feita.


Não esteve no Vietnam, mas esteve em Bali, o que é muito parecido. As reuniões que tem são em Frankfurt, talvez menos exótico, mas ainda assim central – e de mestrados sabe tanto quanto é possível saber-se, até porque está agora a acabar o segundo. Os miúdos ficam com os avós – por isso mesmo continua a viver em Queijas, mais perto destes, em vez de na Expo. Sempre preferiu o Kindle, o que em todo o caso vai dar ao mesmo. Passa os fins-de-semana em pousadas. E yoga (diz-se “iôga”, atenção): ele faz yoga? Faz algum desporto que seja?


Agora está ela a perguntar-lho mesmo, à espera de uma resposta: afinal, ele faz yoga ou não? Já descobriu a verdadeira qualidade de vida ou não? É apenas mais um sedentário que vai passar por este mundo sem história ou, pelo contrário, um ser comprometido que libertará as suas energias e deixará uma marca no planeta?  E, no entanto, ele ali continua: “Pois, pois. Pois, pois.” “Pois, pois. Pois, pois.” “Pois, pois. Pois, pois.” Tem os olhos no telefone – e o seu olhar está como que distante, lá no fundo do aparelho.


Não têm história remota nenhuma, afinal, aqueles dois: foram apenas colegas de faculdade, porque a certa altura ela lhe pergunta se continua “a ver o Pedro Góis, aquele loiro” e ele lhe responde, sem mágoa: “O Pedro Góis sou eu. Deves estar a falar do André.”


Tenho pena deles, mas passa-me depressa: ao longo desse mesmo dia hei-de surpreender uma série de conversas iguaizinhas – entre operários ao almoço, entre uma manicure e uma cliente, entre dois gravatas que se cruzam no quiosque, entre várias miúdas de esquerda que bebem copos no Agito. Ninguém se ouve – e talvez a explicação até esteja na escola, que ensinou a participação (mesmo a alarve), quando a inteligência, mais provavelmente, se encontra no silêncio. Em todo o caso, não se pode entender este mundo sem considerar a solidão. E essa é que é a tragédia.






CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 13 de Novembro de 2010


(imagem: © www.sweetspotmktg.blogspot.com)





1 comentário:
De Manuel Carvalho a 14 de Novembro de 2010 às 23:21
Portanto estamos perante uma conversa "bla , bla, bla, bla" que ouviu entre dois , penso que ainda jovens de sexo diferente, o cronista enganou-se em qual era , de facto, a intimidade ou grau de parentesco entre ambos. Primeiro pensou serem casados, mas afinal eram apenas dois colegas de faculdade.
No entanto, o "bla, bla, bla, bla," era de alto gabarito de viandantes. Viagens de sonho, Vietnam, Bali, Frankfurt ou fins de semana em pousadas. Mestrados, yoga, o Kindle, etc. Arranjar Mercedes.
"Claro, claro, claro, claro", "Pois, pois, pois, pois", ter um alto estatuto, e com aplicação efectiva, sempre faz um jeitão, principalmente nestes tempos de grande crise a nível mundial. Mas sempre vamos dizendo e recordando, que quer bolota que trepe!


















nos tempos de crisr que vamos atravessando

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui