Sábado, 6 de Novembro de 2010
publicado por JN em 6/11/10



Não sei se é depressão, se é ternura, o que me provocam os anúncios de apartamentos para arrendar e vender dispersos pelos portais de Internet. São “magníficos” T1 em zonas nobres de Lisboa, com muita luz, soalho em tábua corrida e respeito pela traça antiga; são os T2 e T3 dos Anjos e do Lumiar, muito práticos, cheios de acessos e janelas em alumínio; é o loft na Expo, já velho na sua modernice – são casas de vários géneros, todas fantásticas, imperdíveis, pedaços de biografias, projectos de vida.


Deprimem-me, é verdade, os “mobilados e prontos a habitar”, porque tanto há uma generosidade tirânica em quem impõe a sua mobília – uma intimidade forçada, se quiserem ir por aí, mas talvez mais do que isso – como, inevitavelmente, um quê de desespero em quem chega sem nada. Que diabo, quem é esta que agora se põe a conferir a oferta: gente que não tem nada ou que deixou para trás o que tinha? E porquê? Que abismo os apanhou desprevenidos, a que precipício voluntariamente se lançaram, que vazio se afigurava ainda pior do que este?


Por outro lado, enternecem-me os bibelôs de estilo pecando por excesso. Esse excesso de pequenas coisas de quem não tem dinheiro para comprar as grandes. De quem não tem dinheiro para ser um verdadeiro barroco ou um assumido minimalista. De quem, na ausência de um estilo, se diz portador de um estilo próprio. O seu estilo. Eu sou assim. Eu sou isto. Ama-me ou odeia-me, é contigo: eu sou assim. Mas ama-me, em todo o caso. Por favor. Por favor. Por favor.


Sim, sobretudo enternece-me isso. As casinhas onde não sobra um canto de parede. Onde se ponderaram todas as cores e texturas. Onde se passaram horas de lazer em bricolage urbana – feitos de uma classe média a trabalhar para aquele empréstimo, para aquela decoração, para aquela maquilhagem de estilo e de bom gosto (e que, afinal, vai ter de pôr à venda, vai ter de alugar, vai ter de legar depressa aos filhos ou aos netos ou aos sobrinhos, porque nem para a contribuição autárquica entretanto sobra).


Num resto de orgulho, não apaga o passado, essa gente. Não fotografa a casa vazia, não: o sonho vai à montra por inteiro, com todos os seus pormenores, as suas pequenas impotências, os seus castigos em forma de papel de parede, candelabros do IKEA e, suprema tortura, uma peça isolada de outra marca, mais rica, mais inacessível, a que se chegou em bicos de pés – ou mesmo mais pobre, mais comprometida e deslocada, tragicamente aceite para compor o ramalhete que não se conseguiu completo.


Enternece-me, mais do que o belo em si, o que as pessoas têm por belo. O seu belo. As suas coisinhas. As que encaixam com demasiada perfeição na decoração geral, tudo combinadinho, equilibrado, concluído – e mais ainda as que não encaixam, em que ela insiste apesar dos protestos do marido e das visitas, em que ele faz finca-pé e que a mulher respeita silenciosamente, de que nenhum dos dois gosta verdadeiramente mas também não tem coragem para livrar-se, que as crianças recordarão com um esgar de riso e isso tudo e isso tudo e isso tudo.


São o retrato de um tempo, os portais imobiliários. E, nos ângulos estrambólicos das fotografias, a apontar para os cantos do chão, para o enfiamento do corredor, para a orquídea no fundo lilás da parede, tentando in extremis ampliar os quinze metros quadrados da sala de estar, há qualquer coisa dentro de nós que estala. Uma espécie de ilusão de óptica não cumprida. Uma espécie de mão lançada subitamente ao bolso de trás: “Roubaram-me a carteira, caramba, roubaram-me a carteira.” E, nas entrelinhas, sempre essa libertadora e final palavra: “Cabrões!”


Virou uma enorme feira da ladra, este tempo. Há já a funcionar no mercado, ao que parece, empresas dispostas a comprar tudo o que for casa de cento e cinquenta mil euros, tudo o que for T1 e T2, tudo o que for na Estefânia e em Telheiras, tudo o que for de classe média, tudo o que estiver desesperado, tudo o que houver ao preço da chuva. E, como o hipocondríaco que finalmente atinge a paz ao descobrir uma doença, damos agora por nós próprios como que felizes. O que, não sendo a melhor das felicidades, é apesar de tudo uma felicidade.


O mundo é uma valsa, com o seu compasso ternário – e esta crise faz-me de esquerda novamente. Alguma coisa teria de ser. Estou oficialmente velho – tão velho como o velho que volta a ser criança. Venha a mim o Orçamento, que de bom grado o pago: devo-lhe agora quase tudo. Já não tenho medo da crise.





CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 6 de Novembro de 2010


(imagem: © www.dphotojournal.com)




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1 comentário:
De Manuel Carvalho a 6 de Novembro de 2010 às 23:05
A construção de casas em Portugal está a cair a pique. No segmento residencial, nos primeiros sete meses do ano, licenciaram-se cerca de 15 500 novos fogos, registando-se uma quebra de 49 por cento relativamente a igual período do ano passado. Esta situação tem reflexo, também nas vendas de imóveis, que caíram dez por cento. A dificuldade de acesso ao crédito é apontada como a principal causa desta crise no sector. As casas de gama média e baixa não se vendem. Ninguém empresta dinheiro. A crise de muitas famílias desempregadas é um enorme drama.
A única excepção a este fenómeno são as casas de luxo, em que os preços mínimos podem variar entre os 150 mil euros para um T1 e os 400 mil num T4 (dependendo das zonas). Neste contexto, não há dificuldade dos bancos, em emprestar. Para esse segmento nunca há crise. O problema, em grande parte, também é nascer, ou não, em berço de ouro e com o rabinho virado, ou não, para a Lua!


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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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