Sábado, 9 de Outubro de 2010
publicado por JN em 9/10/10

No momento em que vos escrevo, estou fartinho de golfe. É sábado à noite. Cheguei há instantes da SportTV, onde faço comentários sobre golfe e tive esta tarde um directo de três horas. Entretanto, já negociei o espaço para amanhã n’O Jogo, no qual, entre outras coisas, sou aquilo a que na gíria se chama um golf writer. Agora estou a escrever esta crónica (sobre golfe, por sinal), mas daqui pouco tenho uma página sobre a Ryder Cup para articular – e amanhã será parecido, incluindo mais uma página sobre a dita Ryder Cup, os últimos quatro planos do Especial que se encerra com este texto e, por volta da uma da manhã (e durante mais duas horas em directo), um comentário sobre o Viking Classic, torneio realizado no Mississippi com jogadores de terceira linha. Basicamente, já não posso ver uma bola e um buraquinho, que me apetece vomitar.


E, no entanto, é fatal: amanhã, quando às cinco da manhã estiver a revolver-me na cama depois de mais um fim-de-semana a correr como uma barata tonta, não serão carneirinhos que contarei. Nem será um livro que abrirei. Nem será uma série de televisão tonta que verei. Com a cabeça sobre a almofada, na expectativa de que enfim se me desacelere o coração, imaginar-me-ei no tee do buraco 1, batendo “um glorioso, navegante, entrelaçado drive” (para usar as palavras de John Betjeman) – e então irei por aí fora, birdie no 1, par no 2, par no 3, birdie no 4: uma sucessão de pars e de birdies (incluindo um eagle, este no 15), até que, enfim, se conclua a ronda de golfe perfeita. Ainda há dois dias, fartinho disto, cheio de shanks no jogo longo e de yips no putting, voltei a decidir parar uns meses, a ver se recupero o gosto de jogar este esquizofrénico jogo. E, todavia, sei-o bem: segunda-feira de manhã, já não desejarei outra coisa senão voltar a pisar o verde.


Louco, eu? Estou, sim. Por outro lado, não conheço uma só alma que um dia tenha empunhado um ferro 7, sentido no corpo um swing que de repente lhe pareceu um poema de harmonia e apanhado a bola pelo coração, fazendo-a pingar verdadeiramente ao lado da bandeira, a 140 metros de distância, que não tenha enlouquecido também. Porque não há outra modalidade desportiva – que digo eu: não há outro jogo, com tudo o que de mágico e abissal essa palavra comporta – assim, tão repleta de desafio e de carisma, de camaradagem e de comunhão com a natureza, de exigência técnica e de pathos psicológico. Dizem que é “um jogo de ricos, velhos e gordos”. Não lhes liguem. Para usar uma metáfora à mão, jogar 18 buracos de golfe é como fazer um desempate por penáltis na final da Liga dos Campeões, com a diferença de que temos de marcá-los durante quatro longas horas: 72 penáltis (ou 80, ou 90, ou 100), batidos cada um deles com a adrenalina e o assombro de quem, se falhar, cairá num poço sem fundo – e, acertando-o, não conseguirá mais do que o direito a chutar o penálti seguinte.


Se hoje me perguntam o que sinto pelo golfe, não tenho dúvidas: amo-o e odeio-o em iguais proporções. Amo-o quando ele me deixa manter a cabeça à tona de água – e, naturalmente, odeio-o quando ele ma segura lá em baixo, impotente, com o ego destruído e a vontade imensa de dedicar-me à literatura. Mas não posso nunca esquecer-me de que, no dia em que o encontrei, passava por uma fase difícil, a meio do mais intenso tropel de emoções por que tive o azar e a sorte de experimentar – e que, desde então, não tem sido outra coisa senão ele a manter este coração batendo, enquanto o excesso de trabalho e de compromissos e de expectativas e de ambições e de post’its em geral me enchem de medo de vir a ser obrigado a fazer check out a meio da esperança média de vida para um português sem ligações ao narcotráfico. Para além de tudo, o golfe é o exercício perfeito – e hoje, quando me dá para a hipocondria, já nunca é numa doença podre que penso, mas apenas numa dor nas costas que me deixe incapaz de fazer uma rotação completa, um release preciso, um finish seguro.


O meu sonho de vida, para reduzi-los a um só, é agora poder um dia dizer como disse Ted Ray, décadas depois de vencer British Open: “O golfe é um jogo fascinante. Demorei cerca de quarenta anos a perceber que não consigo jogá-lo.” Tudo o resto virá por acréscimo.



CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")


NS', 9 de Outubro de 2010


(imagem: © www.dn.pt)


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1 comentário:
De Manuel da Silva Carvalho a 10 de Outubro de 2010 às 11:51
"Porquê o golfe atrai tantos executivos? "O green é um óptimo canal de relacionamento com os clientes", diz um conhecido executivo banqueiro muito assíduo nos campos verdes. Um número cada vez maior de empresas e executivos está a descobrir precisamente isso. A bolinha branca começa a ocupar o espaço que pertencia às quadras de saibro do ténis. O golfe tornou-se um estilo de vida, misto de desporto e conforto ao ar livre, num processo natural que nasceu na Europa, invadiu os Estados Unidos e agora desembarca com força em diversos países de vários continentes.
Golfe é sinónimo de Tiger Woods. Aos 21 anos, em 1997, conquistou o mais importante torneio dos Estados Unidos, o Master. Desde então, vem sendo apontado como o melhor do mundo. Ele praticamente reinventou o desporto, com um swing único e precisão inédita no green. Agora, Tiger começa a mostrar o seu talento também num outro campo: o milionário universo das celebridades desportivas. É um negro que venceu num desporto elitista, atavicamente dominado por brancos.
Eh pá! com toda essa correria o cronista pode-se esfalfar. Começa a ser muita areia para a sua camioneta. Já certamente ouviu dizer que quem toca muitos burros algum(s) pode(m) ficar para trás! Pense bem nesta história que já começa a ser desusada, pelo simples facto de que os burros estão em vias de extensão.
Mas também digo, para a frante é que é camimho!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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