Sábado, 18 de Setembro de 2010
publicado por JN em 18/9/10



Não sou eu que o digo, é o calendário que o determina: está de volta o Outono – e com ele, muito em breve, o frio (o que é mau), a chuva (o que é péssimo) e a trovoada (o que é pior ainda). Sou contra, principalmente num ano com quase onze por cento de desemprego. Mas já me conformei – e, entretanto, vou tentando celebrar as pequenas coisas. Por um lado, vai tornar a chover-me em casa. Pelo outro, posso voltar a usar casacos, que é talvez a única razão plausível por detrás da invenção das estações frias – e, ainda por cima, ficarei por um meses a salvo das barrigas de grávida nuas.


Não sei se é da meia idade, se apenas da melancolia: o facto é que hei-de para sempre recordar o ano de 2010 como aquele em que vi mais mulheres bonitas dispersas por Lisboa. Altas e baixas, magras e até gordinhas, portuguesas e estrangeiras, sofisticadas e até sopeirinhas: cruzei-me com mulheres bonitas de todos os géneros, de todas as idades e a todas as horas do dia – e em quase todas elas pude desfrutar de um determinado grau de nudez, quase sempre maior do que eu gostaria um dia de ver em filha minha, mas em todo o caso um tanto consoladora para alguém que, tendo vivido a pós-adolescência há pouco mais de uma década, ainda a viveu num tempo em que uma mini-saia era notícia.


Basicamente, foi um Verão divertido. A não ser naqueles dias em que me apareceu pela frente uma grávida semi-nua, exibindo obscenamente a enorme barriga por debaixo de um minúsculo top que ainda há meia dúzia de anos consideraríamos menos do que um sutiã. A sério: para além de mulheres bonitas, vi este ano mulheres bonitas fazendo quase tudo aquilo que me repugna numa mulher: urinando entre os automóveis estacionados sem sequer pedirem a uma amiga que as protegesse dos mirones, vomitando as bebedeiras debruçadas sobre bancos de jardim sem sequer fazerem de conta que a rúcula lhes tinha caído mal, dizendo palavrões aos gritos sem sequer se esforçarem por provar-se portadoras do Síndrome de Tourette. Tudo isso fui capaz de relevar. Pelo meio, uma grávida semi-nua fez-me sempre perder as estribeiras.


Cometei-o numa espécie de roda de amigos – e fui acusado de tudo: de machismo e de reaccionarismo, de insegurança e até de inveja (verdade: de inveja). Que nada daquilo é erótico, que a gravidez é apenas um estado de graça, que um biquíni na Costa da Caparica e um top de grávida no Chiado são uma e a mesma coisa, que no fundo sou parvo e pouco mais do que isso. E, no entanto, não sou parvo o suficiente para não perceber o que está em causa. Há duas coisas que uma “mulher do século XXI” faz questão de deixar bem claras: que pode fazer tudo o que lhe apetecer; e que ser mulher é muito mais do que ser homem. Não discuto nem uma nem outra. Mas não deixo de registar que uma barriga de grávida passeando nua pela cidade, como aliás uma mama amamentando nua no metro, afirma as duas ao mesmo tempo.


No mais, peço apenas o mínimo. Acredito no decoro, mas já nem decoro peço. Acredito no pudor, mas até isso já aceito como apenas mais um sinal de que sou, em definitivo, um caso perdido. Só peço, pois, para não ser assaltado pela intimidade de outrem. Dir-me-ão: mas uma barriga de grávida é a coisa mais natural do mundo. Pois também uma vagina. Até para uma vagina, porém, eu começo a estar preparado – afinal, eu vejo-as urinar entre os automóveis (mesmo grávidas, acreditem, mesmo grávidas). Quanto aos seus bebés, pelas almas: protejam a intimidade deles. Protejam a sua intimidade com eles. E, sobretudo, não me obriguem a entrar nessa intimidade, que é como ouvir um pedaço de plástico riscando o vidro: até um arrepio na espinha me provoca.


Entretanto, não me esquecerei desta nova obsessão pelo “naturalismo”, pela “organidade” – pela crueza. Não tarda, e na ausência da prometida Idade do Gelo, haveremos, enfim, de regressar à Idade da Pedra. Voltaremos a andar de quatro, garanto-vos – e em breve até de sapatos para as mãos precisaremos. Ora aí está uma bela ideia de negócio: sapatos para as mãos. Esta crise não durará para sempre.



CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 18 de Setembro de 2010

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3 comentários:
De Suzana Cheong a 18 de Setembro de 2010 às 23:50
Joel,
Podem até chamar-me de anti-feminista, mas então e que dizer das grávidas, que de repente resolvem dar de mamar em público? Nunca mais me esquece o meu ar de horror, quando há alguns anos atrás, e visitando uma mãe-recente, esta resolve à frente de todos os convidados, "sacar" da maminha e zás, dar de mamar ao seu rebento.
Então e a privacidade deste momento? Uma maminha é uma maminha, seja ela de mãe ou não. Eu não me exponho assim por toma lá dá cá. Se querem ver a minha maminha, calma! Por isso revejo-me inteiramente neste texto. Acho que no seu anseio de quererem parecer modernas, certas mulheres, raparigas, se esqueceram de algumas regras de ouro de conduta. Enfim, sinais do tempo!
Estarei a ficar moralista?
Um Abraço
Suzana
De Manuel da Silva Carvalho a 19 de Setembro de 2010 às 23:10
"Vai tornar a chover-me em casa" (?).Tem telhado de vidro... ? Para começar, acho que é mais do que altura de mandar consertar a casa de modo a não meter água. No que toca às miúdas giras que encheram o olho ao cronista, durante o corrente ano, não há qualquer dúvida que se está a aproximar da ternura dos 40, o que começa a resvalar para uma visão ao sexo oposto com outros olhares, óculos e perspectivas.
Agora, sinceramente, não entendo o "alarme" do cronista ao observar o desnudo do ventre de uma grávida ou as maminhas ao léu de uma mãe a amamentar o seu filho em pleno público. São das coisas mais naturais do mundo, como respirar ou obrar! E, então quando no futuro andarmos também com sapatinhos nos membros superiores as situações descritas, serão tão corriqueiras, comuns e tão fáceis como saltar à corda!
De José Capareira a 21 de Setembro de 2010 às 20:43
"não entendo o "alarme" do cronista ao observar o desnudo do ventre de uma grávida ou as maminhas ao léu de uma mãe a amamentar o seu filho em pleno público. São das coisas mais naturais do mundo, como respirar ou obrar!"

Linda analogia, Manuel! Amamentar em público/obrar em público.
Você, sem querer, acaba de dar razão ao autor.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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