Sábado, 23 de Maio de 2009
publicado por JN em 23/5/09

Se me pedissem para eleger os melhores momentos de “Cenas da Vida Real: Sobre 4 Rodas”, documentário sobre tuning emitido aqui há uns dias na RTP2, eu não saberia por onde começar. Talvez por aquele instante em que, na garagem onde se kitam carros na Aldeia do Castelo, Vila Real, um dos durões afaga um cão e, perante a incredulidade dos companheiros, explica: “Então? É um ser humano como nós!” Talvez por aquele em que, já durante a noite, um desses durões vai ao bar da vila e chama uma rapariga mais recalcitrante para vir cá fora ver o seu carro recém-kitado, ficando depois ali a olhar para ela e a ouvir os seus comentários: “Oh, isto não é nada! Quer dizer… Tens luzinhas lá dentro? Ah, tens, tens… Hum… Tá giro, tá…” Talvez por aquele em que, de volta à garagem, e quando os amigos acabam de encetar uma conversa de circunstância sobre o facto de os ailerons, as jantes e os néons serem muito mais baratos em Espanha, outro durão mergulha numa longa dissertação sobre as diferenças entre o custo de vida em Portugal e em Espanha, vomitando estatísticas sobre micro e macro-economia, e, perante novo instante de incredulidade, se vira para o rapaz ao lado: “Que é que foi, chavalo? Quando tiveres 30 anos vais perceber que o Telejornal é bué da fixe...” Ou mesmo por aquele em que três ou quatro desses durões estão a fumar no quintal enquanto falam de “centralinas” e de “hidráulicos”, já de noite, e a certa altura um deles, precisamente aquele que já antes tinha dado sinais de mais espessura, se lembra de que a câmara está ali, olha para ela e faz um trejeito de justificação: “Conversas de quintal…” – e logo a seguir volta às “centralinas” e aos “hidráulicos”, que apesar de tudo ainda lhe é mais cara a pertença do que a liberdade de espírito.

Foi uma das melhores coisas que vi na televisão nos últimos meses. Trazia uma deliciosa aldeia de Trás-Os-Montes, trazia o delicioso sotaque de Trás-Os-Montes – e trazia uma série de durões de Trás-Os-Montes que, se não eram deliciosos, eram pelo menos ternurentos. Ternurentos nos seus subtis gestos de afecto uns para com os outros, ternurentos na forma como se reconhecem (como disse um deles) “insignificantes nesta natureza toda” – e ternurentos, claro, no seu confessado objectivo de atenuar vagamente a sua insignificância conseguindo kitar um carro como nunca ninguém kitou antes. Problema: nada nas suas vidas vai para além desse objectivo. Há uma imagem em que amanhece na Aldeia do Castelo e eles estão no campo a empilhar três fardos. Há outra em que anoitece na Aldeia do Castelo e eles estão a tocar rapidamente bombo num desfile de Carnaval. Tudo o resto, porém, é aquilo: kitar o carro, meter um CD de música tuning no leitor, ligar as colunas e os néons e depois ir passear a “discoteca ambulante” (como disse um dos adultos da aldeia, um tanto contrariado) às ruas vila. E, se vos parece que estou a falar de miúdos de 14, 15 ou 16 anos, desenganem-se já. Miúdos de 16 anos não conduzem. Estou a falar de homens de 20, 25, 30, 35 anos. Estou a falar de homens de 40 anos, até. Homens que recebem os amigos no quarto de cama para os ajudarem a desenhar as letras, a recortar os desenhos e a misturar as cores com que enfeitarão o carro.

Preocupado com as corridas ilegais na Ponte Vasco da Gama, eu? Não: o tuning, como aprendi em “Sobre 4 Rodas”, não é racing. Preocupa-me, sim, esta geração. Esta geração de homens rurais que nos dão uma ideia de como as referências tradicionais da ruralidade portuguesa (os homens mais velhos, as colectividades, a escola) faliram, lançando à vida madraços para quem enfiar quatro ou cinco mil euros de decoração pirosa num Opel Corsa com valor de mercado de quinhentos é proclamado “investir”. Esta geração de homens rurais iguaizinhos aos homens urbanos da mesma idade que, nas noites de sexta-feira e de sábado, recebem os amigos no quarto de cama para jogar PlayStation ou (agora parece que é mais cool) póquer. E indigna-me que tenha sido precisamente a cultura pop a trazê-los para aqui. Tempos houve em que a cultura pop era o jazz, com a sua ginga e a sua sensualidade. Tempos houve em que a cultura pop era o rock, com as suas causas e a sua poesia. Tempos houve em que a cultura pop era o cinema, com a sua estética e a sua transversalidade. Hoje, aparentemente, é isto. Esta ausência absoluta de um caminho que não o de conseguir deslocar dobradiças de forma a que a porta da frente abra para cima e não para o lado. É isso não é um problema estético: é ético mesmo. O que é que se pode esperar destes rapazes?


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 23 de Maio de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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