Sábado, 11 de Setembro de 2010
publicado por JN em 11/9/10



Tirei poucas fotos ao longo da vida, e uma boa parte delas perdeu-se com as derivas geográficas, a má mordomia em geral e a formatação inadvertida de um certo disco de back-up onde eu colocara o coração (e com a qual partiram também livros e cartas de amor, filmes e canções, projectos profissionais e ficheiros com que cultivei a ilusão de ter mão na minha contabilidade pessoal). Não importa: já fiz o meu luto. O facto é que as fotos que me restam, em papel ou em formato digital, chegam para prová-lo: nasci com um problema qualquer nas hormonas (sim, eu também sou um coitadinho), com graves consequências para o comportamento do meu hipotálamo – e percorrer cronologicamente aquelas imagens é como assistir ao percurso de vida de um iô-iô, de um acordeão, gordo aqui e magro acolá, para cima quando cheguei ao liceu e para baixo quando entrei na faculdade, sugando fole quando comprei uma casa e esgotando um restinho dele ao fim de dois ou três anos numa revista semanal, onde sempre se tinha uma vaga aparência de qualidade de vida (coisa que nos jornais diários nunca ninguém teve).


Pelo meio, como qualquer outro homem desta transição de século, andei numa série de ginásios. O último, por acaso, foi o que menos mal tolerei:  regra geral, a companhia era tão tonta como a que os restantes me propiciavam, mas entretanto havia a Mariana, uma académica de Matemática com que eu trocava olhares de delírio sempre que o povo se punha a conversar, aplicando conjugações verbais da primeira pessoa do plural a frases com a terceira pessoa do singular como sujeito – e ainda por cima havia a Sandra, lá em cima no palco ou lá à frente na bicicleta, namorando-nos a todos por detrás dos seus cabelos negríssimos e das suas sardas incertas até ao dia em que apareceu na infra-estrutura um musculoso que a engravidou em três semanas e não houve mais namoricos para ninguém. A esse, abandonei-o por causa das derivas geográficas (embora não me tivessem faltado as ânsias de má mordomia, que as sardas são mesmo assim). Aos restantes, deixei-os quase sempre em resultado de outro factor ainda, de que por acaso ainda não vos falei nesta crónica: a sensação de “para quê?”.


Às vezes, nem chegava a participar numa aula que fosse: ia lá inscrever-me, pagava logo um ano inteiro de quotas – e depois metia-se não sei o quê, um almoço aqui, uma bilharada ali, um depilação ao nariz acolá, e já não havia exercício para ninguém. Alguns, chegava efectivamente a frequentar. Aqui e ali, fazia um banho turco, mas era raro: dois minutos a olhar para ontem deixam-me cheio de fornicoques, com direito a erupção cutânea e tudo – e a presença de um livro sempre provocou nos meus companheiros de cabina notórios desejos de sangue. As mais das vezes, pegava em pesos, o que me parecia narcisista (e, aliás, bastante frustrante para quem não tem o que ver ao espelho), suava como um paquiderme em cima da bicicleta ou ia à aula de uma daquelas modalidades com nomes americanos e que consistiam em dar saltinhos com halteres na mão frente a raparigas desgraçadamente bem menos giras do que a Sandra. Pois ao fim de três semanas já as empregadinhas da Zara sabiam o meu nome, o que me aborrecia. Três meses depois já havia um passeio qualquer a um rio ou a uma montanha, com o fito de promover o entrosamento. E após meio ano já começava eu próprio a chegar eu a casa, fresquinho do banho, pedindo uma bolacha de água-e-sal e suspirando, todo feliz: “Caramba, a aula da professora Andreia, hoje, foi brutaaaaal!” Antes que se me ressequissem os últimos neurónios, pois, vinha-me embora.


Aqui há umas semanas, encontrei um milagroso envelope com fotografias antigas – e, apesar do constrangimento do iô-iô e do acordeão, pareceu-me que irradiava sempre do meu olhar um brilho mais intenso nas fotos em que estava gordo. Estou decidido, pois: em não morrendo de outra coisa, quero morrer disto – e, se o médico continuar a insistir nisso das dietas e do ginásio, como tornou a fazer por estes dias, hei-de deixar de molhar o pão no escabeche, o que já será suplício que chegue.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 11 de Setembro de 2010

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1 comentário:
De Manuel da Silva Carvalho a 12 de Setembro de 2010 às 23:58
São muitas as pessoas que, apesar de uma actividade física regular e de uma dieta saudável, não conseguem vencer a balança. Os motivos podem ser surpreendentes. Quando o Verão se começa a aproximar a passos mais largos, perder peso é o objectivo de muitas de nós. Começam as dietas, os ginásios têm muitos mais movimento, mas há quem, mesmo assim, não consiga ver-se livre dos quilos a mais. Nestes casos, o mais acertado é, sem dúvida, procurar apoio médico.
Pois é, mas pagar quotas de ginásios, banhos turcos ou...portugueses, pegar em pesos ou halteres, suar que nem um hipopótamo em cima de uma bicicleta, pode, mesmo assim, não ser suficiente para se ver ou apalpar os resultados ou efeitos na nossa linha, comparando-a em sucessivas fotografias, durante a nossa vida. E até mesmo se prescindir-mos de molhar o panito no molho da caldeirada, não sei se valerá a pena!. Ficamos a augar, o que faz muito mal à nossa mente!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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