Sábado, 4 de Setembro de 2010
publicado por JN em 4/9/10



Por esta altura, já aprendi tudo o que é preciso.  O menino dá erros ortográficos nos ditados da escola? É disléxico. O adolescente é malcriado como o raio, capaz de partir a cara à professora de Inglês e, provavelmente, à mãezinha também? É hiperactivo. O estudante universitário é um preguiçoso dos diabos, em borga atrás de borga, sem qualquer projecto de vida e com menos vontade ainda de discuti-lo? Padece de depressão. O adulto tem um mau feitio que não se pode? É bipolar, claro. O velho não pára quieto na cama, azedo como sei lá o quê, quase de certeza só para não deixar dormir a desgraçada que há quarenta anos lhe atura as manias (perdão: as idiossincrasias)? Tem aquela doença nova, como é que se chama – ah, “sindroma das pernas inquietas”.


É o triunfo do eufemismo, o século em que vivemos. E não há melhor eufemismo do que representar o papel do coitadinho, assuma que forma assumir a coitadice. Um drogado não é um drogado: é um toxicodependente – precisa de ajuda. Um ladrão não é um ladrão: é um cleptomaníaco – precisa de ajuda. Um ateador de fogos não é um ateador de fogos: é um pirómano – precisa de ajuda. E aí vamos nós, de médico em curandeiro, de psiquiatra em psicólogo, de médium em bruxo encartado – tudo nas mãos da medicina, tudo cheiinho de esperança no doutor Bob Proctor, tudo na expectativa de que os espíritos se condoam de nós, tragam consigo os extraterrestres mais bem-intencionados da galáxia e possamos todos, enfim, ser resgatados na cauda do cometa.


Tudo bem: são as parvoíces (perdão: as disposições) deste tempo. Mas a mim, que por esta altura já nem sequer tento escapar à fama de moralista, chateia-me que ninguém seja já responsável pelas suas acções. E chateia-me ainda mais que, na base dessa desresponsabilização (não, não: dessa irresponsabilidade), esteja quase sempre aquele que é, ao mesmo tempo, o mais humano e o mais irritante dos defeitos (perdão: das condições): a preguiça. Querem mesmo saber qual foi, de todas as sete vítimas de John Doe, o vilão de David Fincher, aquela  cujo martírio menos me custou? O tipo que estava há não sei quantos meses deitado na cama, sem comer e sem beber, transformado numa múmia na qual, apesar de tudo, restava um nadinha de vida.


Perante a preguiça, todos os restantes pecados mortais parecem-me irrelevantes. E, se pensam que se trata apenas de moral protestante, dos velhos ditames calvinistas engolidos na infância e carregados aos ombros, de forma especialmente freudiana, ao longo da vida, pensem melhor. Eu também sou um preguiçoso. Somo-lo todos – está-nos no sangue, na natureza, na embalagem social (está-nos em tudo). A diferença é esta: conscientes de que têm uma só vida, e mesmo que a espaços se convençam das mais mirabolantes vidas póstumas, alguns, de forma um tanto quimérica,  decidem fazer alguma coisa com ela; já outros, de modo especialmente cínico, preferem enterrar o talento e esperar o regresso do amo. E eu, sendo seguramente um moralista chato e cinzentão, estou muito longe de ser tão cínico quanto às vezes me esforço por parecer.


Para mais, o preguiçoso é normalmente um fofinho – e não há nada mais irritante, para alguém que há décadas se empenha em transcender a sua vil condição de preguiçoso, do que um fofinho por todas as razões erradas. É que o preguiçoso militante não se limita a viver o seu ócio à distância: chuta para cima de nós todas as responsabilidades que consegue, a seguir pede-nos dinheiro emprestado – e depois ainda se põe com aquela carinha, que é disléxico, que é hiperactivo, que é bipolar, que está deprimido, que tem o sindroma das pernas inquietas e, por isso, ou são os espíritos ou somos nós, sozinho é que ele não vai lá de certeza. Eis, enfim, a minha suprema tragédia: não consigo tolerar a cigarra. E, depois de mais um mês de Agosto esquizofrenicamente agarrado à máquina e a ouvir falar de atestados e de baixas médicas e de desenfianços e de toda a parafernália de expedientes a que hoje se recorre para recuperar as férias precocemente gozadas, achei que não devia acabar o meu Verão sem um pequeno ajuste de contas.


Escravos do sistema? Nós?!


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 4 de Setembro de 2010

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3 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 6 de Setembro de 2010 às 00:08
Dislexia, hiperactividade, depressão, bipolar, síndrome das pernas inquietas (SPI, ou síndroma de Ekbom), toxicodependência, cleptomania, piromania, um autêntico rol ou catálogo de doenças tipo Raul Solnado.
Segue-se uma discrição de cada uma, qual médico especializado, de que, com os meus parcos conhecimentos de medicina, não concordo totalmente com os sintomas da bipolar. A doença bipolar, tradicionalmente designada Doença Maníaco-Depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor, com crises algo repetidas (pode depender do tratamento) não só de depressão mas igualmente euforia que pode transmitir aos outros, não apenas "um mau feitio", mas até mesmo apresentar-se como um grande compincha (principalmente quando está na mó de cima). O seu tratamento é, normalmente, através dos chamados medicamentos estabilizadores (a olanzapina, valproato ou carbonato de lítio).
Mas neste mundo globalizado há sempre um qualquer Dr. Bob Proctor (segredo) dentro de cada um de nós, por mais terrível que seja o manancial de doenças que nos afecte, mas que não nos impeça de ver em seven, o tal psicopata letrado e metódico que é Jonh Doe.
De tresgues a 7 de Setembro de 2010 às 11:02
Como sempre, excelente.
E "coitadinhos" dos que não são - nem querem ser - coitadinhos.
Não são fofinhos!!!
De SofiaAlexandra@ a 9 de Setembro de 2010 às 14:31
Está demais !
E é verdade ! Na altura dos meus pais, se um aluno levantasse a voz, ou faltasse ao respeito aos professores, era logo reguada, agora a professor nem pode dar um encontrãozinho que leva logo processo disciplinar em cima, e pode nunca mais voltar a lecionar ! O que eu acho completamente errado ! Eu que estou agora a começar o meu 10º ano, acho que, se eu merecesse um chapadão bem dado da professora, assim fosse, nunca na vida a ia processar. Na minha escola vejo cadeiras a voar, palavrões, constantes assédios, e malcriadisses para cima dos professores, e os pobres coitados, indefesos (porque agora a justiça está contra eles, muito injustamente) têm de 'ignora' tudo. E claro, como toda a gente, existem pessoas com menos paciência, e os professores não são uma excepção. Apanhamos um professor menos disposto a aturar as faltas de educação de um engraçadinho, e poderá cometer, o que agora se chama de loucura, com direito a 'JUSTIÇA' justiça dizem eles ! Neste país já não à justiça, vivemos como loucos ! Oh por favor, não sejamos estupidos o suficiente para acreditar que Portugal resolve tudo, pela melhor!
Quanto a essa gente preguiçosa, o meu irmão andava a tornar-se um pouco isso, mas nós (família) caimos-lhe logo em cima, porque se ele quer criados, compre uma.
Nós é que somos os trabalhadores!

Bom post ! Segui-te , se quiseres passa no meu (:
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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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