Sábado, 21 de Agosto de 2010
publicado por JN em 21/8/10



É que eu dei e recebi conselhos ao longo de uma vida, chorão que sempre fui, tanto quanto vampiro das emoções dos outros (e até, talvez, um pouco voyeur) – e isto sei-o bem: dezoito dezanove-avos dos conselhos que trocamos hoje em dia não só não servem para nada de bom como, inclusive, podem ter um alcance especialmente pernicioso na vida do aconselhado. Diz o povo que “Se os conselhos fossem bons, não se davam: vendiam-se” – e a verdade é que, enganando-se em tanta coisa, como não me canso de repetir, também nisto o povo acerta.


Hoje em dia, e de cada vez que vejo duas almas aconselhando-se sobre uma mesa de café, a primeira coisa que procuro despistar é aquilo que venho a encontrar mais depressa: sinais de que, parecendo estar ambos a falar da vida do outro, dos seus problemas e das suas angústias, estão na verdade os dois a falar sobre si próprios. Podia haver aqui algo de sábio, entendendo a vida como um jogo de espelhos com os quais temos todos a aprender, mas infelizmente não é assim: tudo não passa de egocentrismo mesmo.


De resto, ninguém faz perguntas, que é a única forma de colocar os outros a pensar – e, se as faz, a última coisa que quer ouvir é as respostas. No fundo, até as maiores tragédias dos outros são apenas breves trechos da nossa vida pessoal. E com a maior das facilidades dizemos coisas assim: “Parte para outra!”, “Isso já não dá nada, pá!”, “Separa-te, mas é!” E, efectivamente, muitos separam-se. E, as mais das vezes, passam cinco anos à toa na vida. E quase nunca o conselheiro está lá para mais conselhos, porque entretanto tem outras vidas para devorar até que, enfim, satisfaça a sua sede de lágrimas, de sangue e de voueyrismo.


Ao Zé, de aqui vos falei na semana passada (vocês sabem, aquele que tem mais é de partir para outra, porque querer acordar todos os dias abraçado à mulher “não chega”), sei bem o que está a acontecer: está a ser castigado. As mulheres têm prazos muito diferentes dos nossos. Para muitas, e como para Deus, um dia é como mil anos e mil anos como um dia – e as mulheres decentes castigam-nos, às vezes até durante muito tempo, mas não deixam nunca de monitorizar os nossos movimentos, inclusive entendendo o nosso desvario em busca de ternura como parte da pena a cumprir. No fim, o objectivo é quase sempre a reabilitação.


Com o que elas não contam, claro, é com uma “amiga lá de casa” disposta a destruir o plano, na suposta boa-vontade de os libertar aos dois daquele chove-não-molha. “Mas, afinal, o que é que sentes, Zé? Sentes assim uma loucura, um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, de rasgar-lhe as roupas, de possuí-la à bruta?”, pergunta esta. E ele: “Bom, eu só queria ficar ali a dormir abraçado a ela …”, balbucia ele. E ela: “Então não chega, ó Zé. Mas não se está mesmo a ver?”


Parece uma coisa vinda das calendas da revolução sexual, do género: uma mulher tem direito a sexo todos os dias, à bruta quando lhe apetece e aos miminhos quando lhe dá jeito – e, se não o tiver todo à horinha certa, e mais os telefonemas e as flores e os pequenos-almoços na cama e os jantares à luz de velas e tudo o mais que entretanto o senhor Nicholas Sparks escreveu num livro e a senhora Júlia Pinheiro disse numa entrevista, não lhe resta outra opção senão ir bater à porta do vizinho – e o seu descartável amoroso tem mais é de pôr-se a andar depressa, à procura de uma dona de casa horrorosa qualquer que esteja disposta a tolerar a sua presença.


Sobre essa instituição que são as amiguinhas lá de casa, com o seu invariável desejo de se tornarem proprietárias de todos os homens da equação, dos outros tanto quanto do seu próprio – mesmo que sem pecado, sim, mesmo que sem pecado –, ainda hei-de voltar a escrever. Para já, registo apenas que, perante um homem desesperado, logo surjam uma série de vampiros com uma espécie de amorómetro na mão, na ignorância absoluta da imensa multiplicidade de formas que o amor assume e no desejo incontido de colocar o mundo todo a viver segundo as parcas regras que a sua ignorância é capaz de conceber. Esta espécie é um absurdo.



CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 21 de Agosto de 2010


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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 22 de Agosto de 2010 às 11:12
Muitas vezes não sabemos a linha de pensamento de uma pessoa até ouvir-mos um dos os seus conselhos. Ao longo dessas linhas, se quisermos realmente saber o que uma pessoa pensa, devemos pedir um conselho que ele ou ela se vai abrir. Até podemos afirmar que não devemos confiar nas pessoas até ouvir os seus conselhos. Suspeitamos que, em qualquer caso, desejam controlar-nos, e até sabermos o que têm em mente, continuamos desconfiados. Algumas vezes é necessário dar um conselho, mesmo inútil, para se estabelecer um laço de confiança.
Às vezes as pessoas pedem conselhos, mas na verdade só querem a sua atenção. Pessoas gostam de falar, sobre qualquer assunto, e geralmente o que realmente querem é alguém para ouvir o que têm para falar e não, necessariamente, em busca de uma solução. É o chamado desabafo.
Quando damos conselhos, emitimos opiniões ou pistas e deixamos as pessoas escolher o melhor caminho. As pessoas odeiam quem dita o que devem ou não deixar de fazer, mas precisam de sentir-se motivadas e mobilizadas a tomarem decisões por si próprias.
Dizem que se conselho fosse bom não era dado mas vendido. Discordo. Existem poderosos conselhos dados sincera e gratuitamente que têm transformado vidas.
De José P. Silva a 28 de Agosto de 2010 às 12:58
Boa Tarde,



Geralmente não concordo com o que escreve, não partilho e não entendo a sua embirração com sociólogos e ademais cientistas sociais. Mas sou obrigado a dar-lhe os parabéns por esta cronica. Muito boa mesmo.


Cumprimentos,



José Peixoto Silva.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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