Sábado, 14 de Agosto de 2010
publicado por JN em 14/8/10

“Mas o que é que sentes, afinal?”, perguntara-lhe ela. “Sentes assim um estremeção, uma loucura, um inesperado e arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, de rasgar-lhe as roupas e de possuí-la ali mesmo, à bruta, com a praceta toda em choque perante os gemidos que vocês emitem pela janela?”


Isto contou-mo ele depois. Estávamos numa esplanada de Lisboa, com o sol jorrando sobre as nossas nucas – e a conversa, como sempre acontece com os homens atónitos, derivou para a intimidade. Zé está separado há quase um ano. Tem vindo a adiar uma conversa sobre o divórcio, mas sabe que não tarda vai ser preciso andar com a vida para a frente – e é esse o abismo que vem encarando agora, na certeza de que nenhum debate dessa natureza se conclui sem que antes se abram portas e janelas que depois nunca mais se consegue fechar.


Por sua vontade, há que dizê-lo, não tinha havido separação nenhuma. Ainda uns dias antes, ao ir devolver a filha à mulher depois de mais um daqueles fins-de-semana de McDonald’s e Dance Dance Revolution que agora constituíam o momento alto da sua quinzena, ele estendera a miúda à mãe, vira-a fechar a porta atrás de ambas e morrera de novo por dentro. Mas também por isso começava a tornar-se urgente ter “a conversa”, sob pena de dores ainda mais prolongadas. E o que lhe faltava, embora não fosse pouco, era perceber de onde vinha aquele desabamento em que agora redundavam os seus domingos à noite, uma vez a cada quinze dias.


Porque ele tem saudades, sim. Porque, por ele, as coisas teriam continuado iguais a sempre. Porque, se há anos vinha trabalhando de mais, era por não ter alternativa – e porque, mesmo trabalhando de mais, mesmo negligenciando um tanto a relação a dois, mesmo dedicando à miúda todo o pouco tempo livre que tinha, aquele beijo que trocava à noite com a mulher, até escassos onze meses antes, ainda era o selo diário de uma vida pouco menos do que perfeita.


Mas, de facto, nunca se colocara a questão aparentemente essencial: de que sentia agora saudades – da mulher ou apenas da família? Pois para isso mesmo viria a elucidá-lo uma amiga lá de casa, em longo telefonema, determinada a ajudá-lo a pensar na vida. Afinal, Zé, o que é que tu sentes? Isso não será só por causa da cachopa? Não estarás a confundir amor com carências? Não estarás a ser apenas mais um sacana que só quer a sua familiazinha toda no lugar certo, para depois poder andar dezasseis horas por dia a brincar aos consultores, sem atenção às necessidades da mulher?


“Sentes assim um estremeção, uma loucura, um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede?”, resumira ela, em jeito de teste do algodão. “Bom, pondo as coisas assim, acho que não. Eu só queria ficar ali com ela, dormir abraçado a ela, acordar ao lado dela…”, balbuciara ele. E ela: “Não chega.”


Portanto, “Não chega” – eis como as pessoas se aconselham mutuamente, hoje em dia. “Não chega” um homem desabar perante a impossibilidade de voltar a dormir abraçado à mulher com quem viveu quinze anos: é preciso que, ao vê-la, seja possuído ainda por um arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, rasgar-lhe as roupas e possuí-la à bruta. “Não chega” um homem andar há um ano a bater com a cabeça nas paredes, sem Norte nem Sul: é preciso que deseje ainda a sua mulher como a desejou no primeiro dia.


“Não chega” um homem ter saudades da sua família, daquilo que construiu em conjunto com a mulher: é preciso que esqueça as crianças, a casa, as rotinas e os objectos, concentrando-se apenas nos cheiros originais – e, se em algum momento a mulher vacilar perante a sua atarantação, quase disponível para perdoar-lhe o trabalho em excesso e a dar-lhe nova oportunidade de ser um homem a sério, mesmo que no Verão seguinte tenha de ficar tudo a passar férias em casa por causa da dívida do cartão de crédito, rapidamente surgirão duas ou três compinchas prontas a lembrá-la de que era o que faltava, ou há sexo animal, rosas sobre a almofada todos os dias à noite e poemas de Wordsworth lidos em voz alta pela madrugada fora, ou nada feito. Pena tenho eu de que esta coluna seja de quatro mil caracteres apenas. Não chega.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 14 de Agosto de 2010

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3 comentários:
De M. a 14 de Agosto de 2010 às 19:18
Tem razão naquilo que escreve na crónica.
Mas também temos de pensar que as relações entre casais são complexas. E que não basta um dos aspectos estar presente. Não basta uma das pessoas querer uma relação calma e confortável de companheirismo quando a outra pessoa tem outros objectivos para a relação.
Porque a maior falha possivelmente foi a falta de comunicação. Não devem ter falado sobre o que cada um pretendia da relação. E com isso, a única solução aparentemente possível foi a separação. Perante a insatisfação na relação.
E isso acontece em qualquer das áreas da nossa vida.
Se calhar devemos dizer mais o que pensamos uns aos outros, de modo a resolver situações do género.
De Manuel da Silva Carvalho a 14 de Agosto de 2010 às 23:35
São dois os objectivos que os adultos deverão alcançar após um divórcio. O primeiro é a reconstrução das suas vidas pessoais, e o segundo ajudar os filhos a superar o fracasso do matrimónio e dos anos posteriores ao divórcio. Os filhos também deverão alcançar dois objectivos. Em primeiro lugar, devem reconhecer a realidade da separação e aceitá-la, para poder continuar a crescer familiar e individualmente.
A separação é, não só para os pais, mas também para os filhos, uma transição de vida e consequentemente um processo de luto e readaptação a uma nova situação. Nem sempre os pais têm consciência que também os filhos têm de lidar com sentimentos de perda e também eles têm de reconstruir um novo sentido para a vida, tarefa muito dolorosa e por vezes bastante confusa. Fazer do divórcio um momento isento de dor para os filhos é uma missão quase impossível, torná-lo menos doloroso é a missão que só os pais podem e devem levar a cabo. Sentimentos de perda, abandono, incredulidade, negação e dúvida são frequentes face a uma situação de divórcio. Por esta razão, é fundamental criar situações em que todos estes sentimentos possam ser expressos e debatidos em comum.
De FIL a 16 de Agosto de 2010 às 17:38
Leio o post e interpreto-o como algures entre o desabafo angustiado e o humor. Parece muito genuino. "Vá-se lá entendê-las" e "já a minha diz o mesmo, não ligues" é o tipo de conversa que num café, entre umas imperiais e uns tremoços, nos fazem rir a nós, homens e nos dão o conforto das incompreensões comuns face às mulheres.

O problema é que saídos dessa esfera somos confrontados com o mano-a-mano e a coisa dói muito mais. No caso da relação acabada a coisa deixa completamente de ter graça...Pior é quando uma mulher exige ou dá em jeito de conselho a alguem que sinta eternamente "uma loucura, um inesperado e arrebatador desejo de atirá-la contra a parede, de rasgar-lhe as roupas e de possuí-la ali mesmo, à bruta na realidade"...A utopia egocêntrica de uma mulher em crise de confiança não afectará o homem irremediavelmente? Não destruirá uma relação? Desculpem o termo mas, que conselho de m****...Concordo com o post, o que chegará? Caracteres para este tema, certamente, o resto, só elas sabem, por vezes...

Nota: Mas não conseguimos deixar de as adorar e de as querer tratar bem, pois não? Tambem não chega? pronto, ok...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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