Domingo, 8 de Agosto de 2010
publicado por JN em 8/8/10



1.
Gosto de jogar golfe a pares. Gosto de jogar fourball, gosto de jogar foursomes e gosto mesmo de jogar Texas Scramble, modalidade  preguiçosa que, não sendo propriamente golfe, ao menos faz bem ao ego. Tenho jogado a pares com amigos e tenho jogado a pares ao lado de pessoas com quem não me identifico minimamente. A maior parte das vezes, jogo razoavelmente bem – e hoje, depois de ter já percebido que nunca conseguirei disputar um major, que não chegarei a ter cartão do Tour e que a própria oportunidade de continuar a arrancar relva por mais uns anos no meu home club já será um privilégio (foi uma aprendizagem difícil, mas eu já estava treinado: também tinha vindo a aprender que nunca namoraria com Kate Winslet, que Beyoncé jamais me serviria o pequeno-almoço na cama e que, aliás, nem a própria Rita Pereira, que não é mais do que a Rita Pereira, alguma vez aceitaria deixar-se fotografar comigo para uma revista “do coração”), se tenho expectativas de algum dia conseguir meter o meu nome no palmarés de um campeonato nacional, mesmo que meio rasurado, através de um torneio de pares. Pares absolutos, pares mistos, pares seniores (se um dia os houver) – por aí passará, tenho quase a certeza, o meu brilhante futuro como arrancador de relva.


Jogar a pares permite-nos dividir as responsabilidades, o que tem sempre a sua dose de conforto. Mas, mais do que isso, jogar a pares permite-nos partilhar o tempo. E o tempo, nesta modalidade tão bela como doentia, tão maravilhosa como esquizofrénica, é o mais importante de tudo. O que faz você com o tempo livre de que dispõe entre shots? Eis a primeira pergunta que lhe fará qualquer psicólogo de golfe que algum dia lhe ocorra consultar. Em que é que você pensa? Qual é a sua rotina mental? Como é que você desliga do shot anterior e aborda o seguinte? Pois, quando eu jogo individualmente, desligo-me da pancada anterior – e menos ainda preparo a pancada seguinte. Passo o primeiro terço do tempo a odiar-me por jogar tão pior do que aquilo que gostaria – e, quando enfim tento mudar para outros pensamentos, logo o meu cérebro parte em busca das coisas em que ainda serei ao menos razoável na vida (inclusive como cobiçador oficial de Kate Winslet, Beyoncé e Rita Pereira, queiram-no elas ou não), desconcentrando-me para o shot imediato. Já a pares não acontece nada disso. A pares, a tensão é dividida. Conversa-se mesmo – e conversa-se sobre o que é importante: o shot a seguir.


Porque, se há um abismo num jogo a pares, não é o de ter estragado já bastante o jogo: é o de estragá-lo ainda mais a partir dali. Num jogo individual, acontece-nos isso a toda a hora: fazemos um duplo bogey no 2, metemos uma bola out of bounds no 4 – e, pronto, lá se foi o handicap todo, lá se foi o jogo inteiro, lá se foi a nossa única manhã de lazer em tantos dias, lá se foi uma semana completa de vida. Resultado: arrastamo-nos penosamente pelo campo até ao fim da ronda, à espera da hora de almoço. A pares, não. A pares é uma chatice dar um mau shot, mas é verdadeiramente grave dar outro mau shot logo a seguir. É trágico para nós, mas é trágico também para outrem – e é, portanto, trágico para nós ainda mais uma vez. No fim, fomos capazes de reconcentrar-nos repetidamente. E, quando se vai a ver, pode-se bem estar lá em cima, na classificação, quando na verdade se pensava que o jogo fora mau. Bem vistas as coisas, os resultados de uma classificação de pares são sempre menos exigentes do que os resultados de uma classificação individual. E num jogo de pares joga-se apenas para a classificação, nunca para o score.


Por mim, não vejo nada melhor. Ainda prefiro jogar contra os adversários do que contra o campo. Ainda prefiro defrontar homens do que defrontar Deus. Ou o diabo.


2. Vou ouvindo cada vez mais relatos sobre a existência de aldrabice no golfe, e aqui há umas semanas tive a oportunidade de senti-la na pele. Acabei um torneio com 9 acima do par. O campo era técnico, havia bastante vento – fora uma ronda razoável, no fundo. Noutra formação, porém, um jogador fez uma ronda de 11 acima e entregou um cartão de 6 acima. Sabe-o ele, sei-o eu e sabe um dos seus companheiros de torneio a que, porém, não coube marcar-lhe o cartão. Fiquei zangado, mas isso é o menos. O pior é esta certeza absoluta de que vai acontecer outra vez: se não a mim, a outro qualquer. “Paciência, Joel. Ele só se mente a si próprio”, diz-me o António, a dita testemunha ocular. Problema: desde quando um homem capaz de roubar alguma vez se deixará constranger por mentir a si próprio?


SCORECARD. Golfe Magazine, Agosto de 2010.

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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