Sábado, 7 de Agosto de 2010
publicado por JN em 7/8/10

“Mas tu estás preta!”, grita uma das raparigas entretanto já sentadas à mesa. São onze da noite da última sexta-feira de Julho – e eu estou na pior condição em que se pode estar às onze da noite da última sexta-feira de Julho: jantando sozinho num restaurante mediano do Algarve dos sonhos da classe média.


Um pouco mais abaixo, piscavam os néons do casino, com as suas sempre reiteradas promessas de mulheres bonitas, vida à grande e escrupuloso respeito pela velha máxima de que, no fim, a Casa ganha sempre. Dos lados da marina vinha um som abafado de gente em delírio, feliz por ter conseguido atravessar a ponte, resistir durante 250 quilómetros aos avisos da Prevenção Rodoviária e sobreviver, enfim, a mais um ano de tanta chatice, tanta mentira e tanto imposto.


Pequeno e silencioso, aquele parecera-me o sítio ideal para jantar depressa e recolher. Ao fundo, o Benfica marcava golos, mas tão baixinho que quase era possível eu ficar simplesmente a ler, esperando o entrecôte, sem ressentimento por o Benfica estar a marcar golos.


Até que, de repente, um rebuliço. Rapazes em algazarra, pedindo “uma mesa para muitos, quinze ou vinte, já se vê”. Mercedes e Audis e “BêÉmes” apitando por todos os lados, com gente que vai chegando cheia de fome e alegria. Raparigas entrando quase a correr, aos gritinhos, para caírem nos braços umas das outras.


E, finalmente, a morena. Grandalhona, escultural, quase assustadora. E aquela frase repetida por todos e cada um dos convivas já sentados à mesa, aguardando-a mais do que qualquer outra coisa: “Mas tu estás preta!”, “Ganda bronze!”, “Uma semana e ficaste logo assim?”, “Anda cá ao papá, ó boa!”


O “Anda cá ao papá, ó boa!” acrescentei-o eu agora, que ninguém teve coragem de dizê-lo. Mas sei que todos o pensaram (que diabo, até eu o pensei, embora num momento de fraqueza) – e todo resto da hora e meia que ainda tive de esperar pelo bife, assim como cada um dos cinco minutos que levei a devorar aquilo tudo e a pôr-me a andar dali para fora, foi daquela sorte: um desfile de “bronzes” e de “náites” e de “duhs” e de “iás” e de “é assins” e de “vai lá, vais” – essa parafernália de recursos de que os abençoados dispõem para prolongar durante horas uma conversa a pretexto de um bronzeado excessivo, de um telemóvel meio avariado ou apenas do número de tipos que tombaram à passagem da grandalhona durante os 26 exactos segundos que ela levou a percorrer a distância entre o Opel Corsa estacionado sobre o passeio do outro lado da rua e aquela cadeira mesmo ao meio da mesa que os rapazes mais diligentes lhe haviam reservado, varrendo as restantes raparigas para as pontas.


E eu fiquei a pensar em como é bom dar um salto ao Sul em Agosto, fazer duas reportagens a correr, encaixar 18 buraquinhos de golfe no meio delas e zarpar depressa para Lisboa. Porque, se há um mês em que efectivamente se está bem em Lisboa, é Agosto.


Os quiosques estão fechados. A mercearia da Dona Ana também. E, no entanto, tudo o resto são vantagens: o trânsito é pouco, as betoneiras e os martelos e as rebarbadoras e os caterpillars estão parados – e, sobretudo, os lisboetas estão todos de férias, algures entre uma fila de automóveis, uma praia sem casas de banho e um bar a tocar a Shakira, com o DJ aos berros: “Everybody is in the house!”


E, se vos parece que estou desactualizado, que este tipo de entretém e este tipo de linguagem e este tipo de atmosfera são datadíssimos, coisa dos anos noventa e mais nada, desenganem-se já. Eu também pensava que já não havia “BêÉmes”, “náites” e “bronzes” (sobretudo “bronzes”, essa pinderiquice suburbana que desde o princípio rescendeu a douradinhos de cebolada, consultórios sentimentais da revista Maria e filmes com o Richard Gere) – e, no entanto, ali estavam eles todos, desfilando à minha frente, apesar do século XXI, apesar dos raios UVA, apesar dos assassinos em série.


O Algarve em Agosto é um regresso ao Portugal do passado – e lembrarmo-nos de que esse Portugal ainda existe, mesmo que só por uma noite, ajuda-nos a compreender uma série de coisas.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 7 de Agosto de 2010

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 8 de Agosto de 2010 às 00:05
Escapadinha, rumo ao Sul e ao Algarve, em pleno Verão e no pino da época. Com uma cajadada matam-se vários coelhos. Algum (pouco) descanso, fazer reportagens, jogar golfe, trabalhar para o bronze e até aperceber-se que o Benfica ainda marca golos.
Apesar de tudo também concordo que, nesta altura, um melhor lugar para se estar e até descansar é a capital, apesar dos quiosques e a mercearia da D. Ana estarem fechados. Andamos mais à vontade e os índices de poluição automóvel estão mais aceitáveis. Com mais calma, descobrimos outros encantos ou recantos e até nos ajuda a compreender uma série de novas perspectivas que nos passavam despercebidos nos tempos de maior reboliço. No entanto também podemos ter o azar de esperar algum tempo por um entrecôte que nos possa sair algo rijo para os nossos dentes.
De cristina a 8 de Agosto de 2010 às 00:29
muito bom! lisboa tem mesmo outro encanto.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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