Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010
publicado por JN em 6/8/10



Não, eu não tenho ilusões quanto à possibilidade de o Sporting discutir este ano o título nacional. Ao contrário do que acontece com muitos dos meus consócios, incluindo alguns dos mais notórios, a minha expectativa é que a equipa de Paulo Sérgio faça um campeonato razoável, disputando com dignidade os jogos com os velhos rivais e terminando à frente do Sp. Bragas, quem sabe até na luta com o FC Porto pelo segundo lugar. O primeiro, esse, parece-me entregue: é do Benfica. Desgraçadamente, o ano passado não foi um exemplo isolado: foi o início de uma tendência.


Perguntar-me-ão agora: então por que raio pensas tu, Noel ou lá como te chamas, que isso é melhor do aqueles quatro anos de Paulo Bento, com segundos lugares consecutivos, incluindo idas à Liga dos Campeões? Bom, por duas razões. A primeira é que, de contrário, não me restava outra coisa senão temer que estes fossem efectivamente os últimos dias do Sporting. E a segunda é que, mesmo que esta revolução tenha ficado aquém da ideal, estamos finalmente no caminho de alguma coisa. Com Paulo Bento, estávamos sempre no nosso limite: éramos segundos, mas nunca passaríamos disso.


Há muitos anos que cultivo a convicção de que o Sporting só tem uma escolha: demolir e fazer de novo. De forma que me enche de tédio ouvir agora tantos sportinguistas lamentar que se tenha “destruído todo o trabalho feito até aqui”, vendendo as chamadas “pérolas” e embarcando na mesma política de “contratação de estrangeiros e de veteranos” dos rivais. Sempre tive dúvidas sobre essas pérolas (falo de Moutinho e Veloso, naturalmente): têm de facto talento, mas no Sporting já não dariam mais do que aquilo. Por outro lado, o miserabilismo levou-nos a rigorosamente lado nenhum: as contas do clube estão tão de pantanas como sempre estiveram (se é que não estão pior ainda).


De forma que, se alguma coisa lamento nesta revolução, é que não tenha sido completa. Por mim, tinham partido também Rui Patrício, Abel, Helder Postiga, mesmo Djaló. Mas foi feita alguma coisa, efectivamente – e não é por ter sido feita por José Eduardo Bettencourt e Costinha (embora o mais provável é que tenha sido feita por Jorge Mendes), dois homens de quem já não parecia lógico esperar grande coisa, que vou desdenhar dela.


O Sporting, repito, está agora a caminho de um lugar. E o que se pode pedir, nesta fase, são duas coisas: que, no próximo ano (e, aliás, neste também, sempre que o mercado estiver aberto), a revolução continue; e que essa revolução não pare aos primeiros sinais de fracasso. Porque vai haver sinais de fracasso – e não hão-de tardar.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 6 de Agosto de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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