Sábado, 24 de Julho de 2010
publicado por JN em 24/7/10



São seis da tarde. O sol bate agora de viés, os automóveis enchem Lisboa de apitos – e, no entanto, o meu dia vai a meio. Acordei de madrugada, para preparar um comentário. Escrevi uma crítica. Respondi a quinze e-mails. Passei duas horas em estúdio. Voltei para o escritório. Escrevi um feature. Reuni umas ideias para a crónica de sábado. Entretanto, são seis. Ainda não é hoje que começo o romance. Faltam-me quatro textos até que batam as 24 badaladas – e falta-me, sobretudo, esse telefonema. Sei que se vai prolongar. Talvez não. Serei seco, objectivo. Mas sei que se vai prolongar.


– Estou, Pedro? É só para te dizer que já liguei ao António e está tudo confirmado. Não te preocupes, vale? Grande abr...


– Joel? Olááááá…


– Olá, Pedro. Olha: liguei ao António e está tudo certo, ok? Grande abr…


– Então? Estás bom? Estás a trabalhar ou estás na praia?


– A trabalhar, a trabalhar. E era só para dizer isso, vale?


– Ah, vocês, freelancers, é que a levam bem. Olha, eu estou aqui preso ao escritório, pá…


– Pois. Tem lá paciência. Vá: grande abr…


– Sempre telefonaste ao António?


– Sim, sim. Telefonei e está tudo certo. Não te inquietes? Grande abr…


– E está tudo certo?


– Tudo, Pedro. Tudinho. Avança com a coisa. Vá: grande abr…


– Mas o que é que o António disse?


– Disse que aparece, que leva o material e que já tem um editor fisgado. Melhor era impossível. Vá: depois diz-me como correu. Grande abr…


– Ah, então ele vai?


– Vai, vai. Fica descansado. Grande abr…


– Eh, pá, fico muito mais descansado. É que, se o António não fosse, eu…


– Pois, eu percebo. Mas fica descansado. Tudo certinho. Grande abr…


– … ficava agarrado, estás a ver? Um tipo anda meses a trabalhar num projecto e depois fica pendurado.


– Nada disso. Ele é responsável. Tranquilo. Grande abr…


– Quer dizer, tu percebes a minha preocupação. Ontem ligo para o Jacinto, e diz ele: “Pedro, nada feito. O António não alinha.” Estás a ver a aflição. De maneira que…


– Claro, claro. Mas na boa. Tudo certo. Vá: grande abr…


– … pensei logo: “O Joel é que me resolve isto.” De forma que liguei para ti. Espero que não te tenhas aborrecido muito.


– Não custou nada. Agora, vá: tenho de ir escrever uns text…


– Eh, pá, foste um porreiro. Não tenho como te agradecer.


– Não agradeças. Amanhã é ao contrário. Grande abr…


– Mas, então, ele disse mesmo que ia e que estava tudo certo…?


– Tim-tim por tim-tim. E não falha. Não te preocupes.


– Uf. Grande alívio. É que…


– Claro, claro. Mas está resolvido. Vá: grande abr…


– … se eu não ligo para ti, nunca mais. Ou eras tu, ou eu ficava na merda.


– Pois. Faz-se o que se pode. Mas fica descansado. Grande abr...


– E o gajo leva os leds ou só o som?


– Isso é melhor falares com ele. Tens o número. Liga-lhe, ok?


– Ah, está bem, está bem. Eh, pá, ó Joel, tu não te preocupes que eu ligo, hã? Já perdeste tempo suficiente.


– Nada, nada. Vá: grande abr…


– Ainda por cima tens uma vida tramada. Às vezes preocupo-me.


– Não, pá, estou como o aço. Vá: grande abr…


– Mas, então, ele disse que ia?


– Foi, Pedro. E não falha. Vá: fico a torcer por vós.


– Vá, amigo. Grande abraço. Vou ligar ao gajo para combinar os pormenores.


– Liga, liga. Grande abr…


– Fico muito mais tranquilo. Então, ele disse que ia, não é?”


E seguem-se mais 45 minutos de telefonema – e a conversa só acaba porque, de repente, fico “sem rede”. Ainda acham tontice um homem dizer que detesta (que odeia, que execra, que abomina com todas as forças) falar ao telefone?



 


PS: quanto ao comovente caso “Marta Rebelo e a Crónica de Joel Neto”, falta-me o espaço. Lá terei de deixar a donzela aos berros, desgadelhando-se sozinha.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 24 de Julho de 2010


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2 comentários:
De jorge espinha a 25 de Julho de 2010 às 20:12
camarada joel

Como eu o entendo. Detesto falar ao telefone , e já trabalhei num "call-centre". Não vejo nenhuma razão para um conversa telefónica durar mais que um minuto.
De Manuel da Silva Carvalho a 25 de Julho de 2010 às 22:56
Muitos de nós, levamos vidas extremamente atarefadas, recheadas de actividades, do nascer ao pôr-do-sol ou vice -versa. Enquanto não se esclarecer e definir os projectos e quais as próximas acções necessárias para tocá-los adiante, sentir-nos-emos stressados ou confusos e ansiosos sabendo que temos um monte de coisas para fazer, mas ainda sem sabermos exactamente o quê ou qual será a próxima ou mais importante. A administração e planeamento correcto do tempo que dispomos é uma actividade de difícil execução.
Que fazer? Organizarmo-nos! Vamos ao romance, crónicas e Marta Rebelo.
Esquematizar, prever, ordenar. Tudo com parcimónia, peso e medida. Teorizar é muito fácil...No concretizar é que está o busílis. Agora para quem não gosta de telefonemas e encaixa mais de 45 minutos, não há agenda que resista!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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