Sábado, 10 de Julho de 2010
publicado por JN em 10/7/10

Em matérias de economia, já aqui o assumi, não chego sequer a ser um leigo: sou um ignorante mesmo. Perguntem-me com quem casou Scarlett Johansson que eu sei. Perguntem-me como é que se bate um punch com backspin que eu, mesmo não sabendo fazer, sei como se faz. Perguntem-me a quantos palmos do seguinte deve um pé de couve ser plantado que eu, não o sabendo de cor, o que tenho mais é a quem perguntar. Perguntem-me como é que se conjuga o verbo mais esquisito de que se lembrarem que eu, sabendo-o ou não, hei-de ter aí por casa alguma gramática que o explique.


Economia, não, por favor. As vantagens da desvalorização da moeda em sede de controlo da inflação? Nem perguntando. Em que medida poderá ser a poupança das famílias a conter o avanço da crise? Nem lendo. Que facturas é preciso guardar para deduzir no IRS? Tenho de ir conferir com a Dona Júlia, aquele anjo que anualmente agarra pelos cornos o caos das minhas finanças pessoais e o ordena numa folhinha cor-de-rosa, com ar de declaração fiscal a sério – e, mesmo assim, o mais natural é que me esqueça dos pormenores, acabando por responder-vos como me respondo a mim próprio: “Olhem, guardem tudo, vão metendo num saco de plástico e em Março mandem para a Dona Júlia, ou lá como é que se chama o vosso anjo em particular.”


Para dizer a verdade, o dinheiro não me interessa. Não me seduz. Não me comove. Tem como única utilidade obrigar-me a levantar-me de manhã, resistindo à vocação natural para a preguiça – e, mesmo assim, para esta vida ser mesmo porreira, porreira, porreira, o ideal era ter o suficiente para não nunca mais precisar de pensar nele.


De maneira que, quanto às origens desta crise, o mais que sei é o que sobre elas fui lendo por aí, incluindo as etapas da bolha tecnológica, da especulação imobiliária e das tropelias na banca. As consequências já me são mais acessíveis de perceber, metade por olhar em volta e metade por continuar a fazer parte daquele cada vez mais restrito grupo de portugueses que ainda acha mais importante comprar o jornal de manhã do que poupar um euro para gastar em telemóveis: o desemprego aumentou, a precaridade também – e, se o FMI não acorre rapidamente a Espanha, então é que vai ser o bonito para este enclavezinho rectangular entre Madrid e o oceano plantado.


Daquelas que deviam ser, apesar de tudo, as implicações solares desta crise, como o foram das outras todas, já eu sei de saber sabido. Sei que a arte, a cultura, o entretenimento e a evasão em geral deviam estar absolutamente pujantes – revolucionariamente pujantes –, como sempre estiveram em alturas destas. E sei que não estão.


Sei que a cultura erudita, esteja bem ou mal, teima em manter-se circunscrita às suas torres de marfim, cada vez mais incapaz de dialogar com os anseios de todos os dias. Sei que a literatura, e salvo um ou outro risco assumido por este ou aquele autor (tantas vezes com prejuízo para si próprio), está, por estes dias, reduzida às noveletas chorosas passadas na Carolina do Sul, às cada vez mais estafadas historinhas de paixão ocorridas em cenário “histórico” e, sobretudo, aos desamores entre humanos, vampiros, lobisomens e papa-formigas de duas cabeças.


Sei que a música anda mais angustiada com a procura da próxima grande voz da soul, agora que Amy Winehouse passou de pele-e-osso a osso apenas, do que com qualquer outra coisa. Sei que o cinema é bonecada e pouco mais. Sei que a TV, se a grande revolução da temporada é a transferência de Fátima Lopes da SIC para a TVI, está determinada a ficar ainda mais igual ao que já era. E sei, quanto ao futebol, que nem sequer podemos despedir o Queiroz porque Madaíl decidiu pegar na nossa psique comum e arquivá-la por quatro anos.


Tanto quanto me parece, é a pior crise de sempre – uma crise que nem sequer a criatividade e a emoção têm procurado combater. E, não fosse termo-nos finalmente visto livres de João Moutinho, não havia mesmo uma só boa notícia no meio disto tudo.



CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Julho de 2010


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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 10 de Julho de 2010 às 22:22
O mercado financeiro ao longo do tempo tem proporcionado muita perplexidade entre as pessoas em razão das crises que são provocadas por ele. Sempre que isso acontece esse sector económico é transformado em demónio e lavado à categoria de vilão da economia. Como sabemos, o mercado financeiro é dividido em vários ramos e cada um com suas peculiaridades, importância, regras, riscos e complexidade.
A economia moderna não pode existir sem a presença do mercado financeiro, mas pode perfeitamente passar sem a presença de algumas operações sofisticadas que nada ou quase nada acrescentam à economia real, ao contrário, pode levar a perdas enormes para a sociedade. Empresas e famílias recorrem ao mercado financeiro para poderem viabilizar os seus projectos e desejos de investimento e consumo, o que pode levar ao crescimento da economia, geração de emprego e trabalho e melhora no bem estar da população. A regulação de todo o mercado financeiro é mais que necessária, é imprescindível. Se todo o mercado financeiro estando bem regulado, deixando a livre concorrência, mas impedindo que operações totalmente irresponsáveis ocorram, então esse lado sombrio e assustador desse importante segmento da economia seria quase que totalmente dissipado e o mercado financeiro como um todo seria muito mais importante para a sociedade e as consequências perversas desse mercado para a população deixariam de existir ou existiriam em escala infinitamente inferior do que a que acabamos de presenciar e continuaremos a presenciar se nada for feito.
No que respeita ao IRS, muitos dos contribuintes tem a sua Dona Júlia que recebe a papelada dentro de um saco de plástico, coordena tudo e faz o que muito boa gente deveria fazê-lo ele próprio. A "coisa" feita através da internet é tão fácil como saltar à corda. No entanto o comodismo tem o seu peso.
No que toca a "maçãs podres" é tudo uma questão de conhecimentos silvícolas.
De wallpapers a 13 de Julho de 2010 às 15:17
No que diz respeito ao crédito fácil , isso era passado. Mas falando do que interessa que é a saída do João Moutinho, acho que foi um bom negócio para ambas as partes, mas o Porto irá ficar mais forte com ele.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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