Sábado, 3 de Julho de 2010
publicado por JN em 3/7/10

Até que, por volta dos 80 minutos, a realização sul-africana decidiu fazer uma digressão pelas bancadas. Os ingleses perdiam 4-1. Jorge Larrionda havia-lhes roubado um golo perfeito – e, não contente com isso, o chamado Destino ainda  lhes fizera passar um comboio por cima. As agências de viagens londrinas esperavam apenas o apito final para accionarem o plano de repatriamento dos adeptos. E, porém, duas inglesas riam. Pintadas de branco e vermelho, aparentemente lindas por detrás das suas pinturas – e, o que era o mais estranho de tudo, felizes. A sua selecção estava a ser humilhada em campo pela Alemanha. Bloemfontein, tão indiferente a golos não validados como ao próprio som das vuvuzelas, rendera-se à excelência do futebol inimigo. Mas as câmaras tinham-se-lhes apontado aos sorrisos, elas próprias haviam detectado os seus rostos pintalgados nos ecrãs gigantes do Free State Stadium – e deliravam de alegria, abraçando-se, fazendo V’s para os amigos lá em casa, abraçando-se de novo, rindo.


E eu tenho a impressão de que isso não é futebol. Tenho a impressão de que isso não é futebol, e mais: tenho a impressão de que, sendo isso hoje futebol, o futebol tem hoje incomparavelmente menos graça do que já teve. Tenho a impressão de que o futebol tem hoje incomparavelmente menos graça do que já teve, e mais: tenho mesmo a impressão de que foram as mulheres a estragar o futebol. As mulheres e, principalmente, aqueles que quiseram conquistá-las para ele. Aflita com a urgência de alargar o seu mercado, a dita indústria do futebol virou, afinal, muito mais indústria do que futebol. Resultado: um Campeonato do Mundo que não é bem um Campeonato do Mundo: é mais uma espécie de Mister Universo com jogadores da bola. E, se pensam que estou a falar apenas da eleição do melhor jogador em campo, esse incontornável prémio de fotogenia que Cristiano Ronaldo já tinha ganho três vezes antes mesmo de tocar na bola, desenganem-se. Estou a falar do próprio jogo. Da forma como se celebram os seus sucessos. Da maneira como se lamentam os seus fracassos. Do modo, em suma, como se vivem as suas pausas.


Para muitos de nós, fanáticos pelo pontapé-na-bola, os primeiros sinais de interesse das mulheres no jogo foram um encanto. Fulminados com olhares de rancor sempre que reclamávamos a posse da televisão ou anunciávamos, já a medo, que no domingo à tarde não íamos poder ir ao Zoo porque jogava o Benfica, estávamos habituados a ver a nossa paixão recebida com desdém – e, quando finalmente nos apercebemos de que também elas começavam a olhar para o ecrã, mesmo que de início com uma curiosidade quase sociológica, rapidamente lhes explicámos tudo o que sabíamos sobre aquilo, os pontapés-de-canto e os foras-de-jogo, a defesa em linha e o próprio quatro-três-três. Entretanto, passaram-se dez anos, talvez quinze (eu ia dizer vinte, mas não, vinte não foram de certeza). E, de repente, o futebol é agora só para elas. Não para elas, aliás (não haveria problema nenhum em que fosse para elas): para a forma lúbrica como a maior parte delas vê o jogo. As câmaras mostram-lhes tudo: os músculos, os olhares, os rabos. Os futebolistas correspondem-lhes com ardor: namoram os cameramen, levantam os olhos para o ecrã gigante do estádio de cada vez que falham um golo, tiram a camisola quando vão a sair do campo. E, entretanto, ninguém jogou à bola.


Eu podia dizer que a culpa é de Beckham, a primeira grande pop star do futebol, mas já nem é. “I would fuck the shit out of you” (“Papava-te todo”, numa tradução benevolente), diziam no outro dia centenas de raparigas inglesas no FaceBook de Ronaldo. E o desfecho que temos é o que aí está: salvo um ou outro joguinho mais inspirador, um dos piores campeonatos das últimas décadas, se não mesmo o pior. Entretanto, as duas inglesas continuarão rindo nos momentos em que deveriam estar a chorar. E nós, que durante tantos anos chorámos lágrimas deliciosas com algumas das mais belas derrotas do mundo, não temos outra solução senão rir também.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 3 de Julho de 2010

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5 comentários:
De Marisa a 3 de Julho de 2010 às 20:36
Eu só chorei uma vez, e tendo 38 anos, foi seguramente há mais de 20, ehehhe . Quando o Veloso falhou um penalti na final dos Campeões Europeus, salvo erro, lembro-me do jogo e de ter corrido para o ecrã desolada, ele que fez um jogo fantástico. (E nem ligo grande coisa à bola, só mesmo selecção e pouco mais).
De jorge espinha a 3 de Julho de 2010 às 21:33
Tem razão, tenho saudades do tempo do Apartheid, nós tínhamos o futebol e elas tinham....bem eu não sei bem o que tinham mas não ligavam à bola, e isso era muito bom.
De Manuel da Silva Carvalho a 4 de Julho de 2010 às 11:26
A FIFA proibiu as repetições dos lances mais duvidosos nos estádios do Mundial 2010, durante os jogos. A decisão foi tomada na sequência do incómodo causado entre os jogadores e espectadores pelos erros de arbitragem verificados no Alemanha - Inglaterra e Argentina - México. Mas o organismo máximo do futebol mundial quer ir mais longe e mesmo não permitirá que sejam exibidas, durante os restantes encontros, imagens de mulheres bonitas, com tops provocadores e ar de cadelinhas abandonadas. Esta tomada de posição deveu-se às distracções do Ronaldo no duelo ibérico, que fizeram com que o fenómeno da Madeira passasse completamente ao lado do jogo. Mas, oficialmente, a justificação poderá ser outra. O não querer enganar os espectadores e levá-los a pensar que aquelas são o tipo de pessoas que vêm ao futebol. O adepto típico é gordo, usa bigode e transpira como um porco. O verdadeiro interesse de um jogo está no relvado e não na montra de vaidades das bancadas.
De procurar a 10 de Julho de 2010 às 12:09
A FIFA procura controlar o futebol á força e á maneira deles. Acho mal este tipo de situações, e já deviam ter posto um chip na bola ou uma camera na baliza pra prevenir cenas como no jogo Inglaterra-Alemanha.
Quanto ás beldades do estádio que vão sendo mostradas não vejo qq problema...;)
De Mena a 25 de Julho de 2010 às 16:40
ehehehe aguentem, como alguém disse, ensinei-te a ladrar agora mordes, mulheres........

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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