Sábado, 19 de Junho de 2010
publicado por JN em 19/6/10



“Nós já não conversávamos, Bill.” “Tens de compreender, John. Nós já não conversávamos.” “Pelo amor de Deus, Andrew: só podias estar à espera disto. Há quanto tempo nós já não conversávamos?” São falas tiradas ao acaso de filmes, séries de TV, noveletas e mesmo reclamos publicitários com que me cruzei nos últimos tempos. A cena assume tramitações diversas, mas o desenlace é um clássico: o marido chegando a casa, cansado de trabalhar ou apenas com os copos depois de um jantar da empresa, e a esposa tentando disfarçar o musculoso que enfiou à pressa no guarda-roupa. E, então, começa a zaragata. “Que diabo é isto, um musculoso no meu guarda-roupa?”, balbucia ele. E ela: “Nós já não conversávamos, Bill.” Melhor ainda: “Mas nós já não conversávamos, Bill.” O “mas” diz tudo. “Mas qual é a tua surpresa?” “Mas o que é que tu esperavas?” “Mas no que é que havia de dar isto, se tu não passas desse mongo de pantufas, que nunca ninguém sequer sabe no que está a pensar?”


São indecifráveis, para mim, as razões por que tantos filmes e séries e operetas fazem agora, cinquenta anos depois da chamada libertação da mulher, a apologia (sim, volto ao tema, a verdade é que foi um êxito) da infidelidade feminina. Só esta semana, segundo leio nas sinopses, estreiam em Portugal dois filmes a propósito: num deles, francês mas com a inglesa Kristin Scott Thomas no papel principal, uma dona de casa aborrece-se com a vida perfeita que tem com o marido e vai “redescobrir os prazeres da vida” (sic) com um ex-presidiário; no outro, português e com a também portuguesa Beatriz Batarda à cabeça, uma psiquiatra aborrece-se com a vida perfeita que tem com o marido e vai “redescobrir os prazeres da vida” (se não é sic, é quase) com uma jovem paciente. Aparentemente, já não há hoje uma só mulher que sonhe com a vida perfeita – e, sendo as mulheres as grandes consumidoras de ficção do século XXI, é preciso identificar os seus inimigos. Mas o que importa é isto: quando enfim forem confrontadas com o deslize, ambas hão-de explicar-se da mesma forma. “Mas, Bill, nós já não conversávamos…”


E eu, não querendo cair outra vez no psicologismo barato, não deixo de registar isso. No cinema como na vida real. Porque, aparentemente, não há homem que não ouça, hoje em dia, essa frase: “Nós já não conversamos.” Mesmo os tagarelas, que o somos tantos: nenhum conversa o suficiente. Um tipo chega a casa estafado, vai para a cozinha dividir a confecção do jantar com a mulher, deixa-se enfim cair no sofá, com um tabuleiro no colo, e logo intervém ela: “Não ligues a televisão, amorzinho. Vamos antes conversar.” Tem finalmente um sábado de folga, concede num café em esplanada moderninha, joga a mão ao saco do “Expresso”, e pronto: “Não preferes conversar?” Faz-se à estrada para um fim-de-semana de evasão, com quatro bicicletas no tejadilho, estica o braço para o porta-luvas, à procura do novo dos Megadeath que foi comprar de propósito para estrear na viagem, e lá vem: “E se conversássemos, em vez de ouvir música?” E ele, que está a conversar desde que acordaram, que já discutiu as contas domésticas e a escola dos miúdos, que já debateu a agenda da semana e os bicos de papagaio da mãe dela, que já lhe elogiou o penteado e jurou amor eterno – esse homem simplesmente não percebe. “Conversar, outra vez? Não seria melhor ficarmos calados agora por um momento, aqui os dois juntinhos, enquanto os cachopos dormem no banco de trás?”, pensa. Depois, porém, lembra-se do cinema, da televisão, da publicidade. E conversa. “Sim. Claro. Certo. Ah, pois. Bem dito. É assim mesmo. Olarilas.” E ela, a certa altura: “Olha lá, mas tu estás mesmo a ouvir-me?” E ele: “Hã?”


Tudo isto para dizer que, mais dia, menos dia, o filme muda. Vão por mim: será ele o infiel – e, então, quando ela o surpreender com uma musculosa no porta-bagagens, a resposta tornar-se-á inevitável: “Mas, Joyce, tu estavas sempre a conversar…” E será igualmente absurdo.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 19 de Junho de 2010

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 20 de Junho de 2010 às 22:16
É triste, mas o facto é que muitas vezes conversamos simplesmente porque não sabemos fazer outra coisa para se comunicar. Como a mulher se comunica a todo momento, a maioria das vezes as expressões femininas são cheias de palavras. E o homem, o que faz? Em vez de notar o comportamento como um todo, ele ouve o conteúdo da fala feminina. E então começa a patinar tentando resolvê-lo ou criticá-lo. Um homem talvez não devesse relacionar-se com a fala de uma mulher, não deveria reagir às palavras, responder aos significados, ao discurso, aos argumentos. Este pode ser o pior erro que um homem pode cometer numa conversa. Ainda que ele concorde com a argumentação, que aceite tudo o que ela disser, isso não a deixará satisfeita. O erro não é discordar ou concordar, mas se relacionar com as palavras em vez de relacionar-se com a mulher inteira.
Enquanto alguém fala, temos de acompanhar. Não basta receber, é preciso ir junto. Seguir. O outro de facto leva-nos para vários mundos durante uma conversa. Ouvir, na verdade, é mais activo do que falar pois quem fala pode distrair-se e esvoaçar, mas quem ouve não. Se presente no falante, a distracção ou a confusão gera mais fala, enquanto que para o ouvinte qualquer ruído atrapalha a escuta. Para seguir, não só escutar, precisamos mover o nosso corpo em direcção ao outro. Não prestar tanta atenção nas palavras. Andar até o local de onde o outro está a falar e olhar olhos nos olhos.
De Mena a 25 de Julho de 2010 às 17:11
BINGO, isto não é fácil ehehehe

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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