Quinta-feira, 17 de Junho de 2010
publicado por JN em 17/6/10



… e vocês sabem que eu o tinha. Ainda Queiroz não estava contratado e já eu o deixava escrito aqui, no JN: com ele não iríamos lá nunca. O “lá” era, não apenas um título internacional, mas os próprios pódios a que Scolari nos levara. O que, naturalmente, parece agora mais do que confirmado. Pelo jogo que Portugal realizou com a Costa do Marfim, pelos sinais de desorientação emitidos pelos jogadores e, sobretudo, por esta tontice do seleccionador que foi dizer que havíamos feito um jogo “inteligente”, evitando cair nas provocações de Eriksson.


Mas uma coisa é ver confirmadas as suspeitas, outra dar por perdida a passagem aos oitavos-de-final. Uma pessoa pode passar a vida a reproduzir cepticismos nos jornais que corre sempre o risco de acertar – e a última coisa que eu quero agora é limitar-me ao velho “Eu não vos disse?”. Portugal empatou com a Costa do Marfim e empatou bem. Foi um mau resultado? Foi um resultado medíocre. Mas o facto é que foi, apesar de tudo, melhor para nós do que para o adversário. E que, mesmo que não se saiba agora muito bem em que lugar é preciso ficar para evitar Espanha, Portugal continua em jogo.


Se Portugal ganhar à Coreia e o Brasil à Costa do Marfim, como é suposto que ambos façam, o calendário joga a nosso favor. Portugal poderá perfeitamente empatar com o Brasil, já em gestão de esforço (e em poupança de titulares e em limpeza de cartões amarelos). Isso chegará para a qualificação. De resto, a Costa do Marfim ainda terá de bater a Coreia, então com duas derrotas e urgente de deixar uma marca sua na competição. Não o conseguindo, isso também chegará para a nossa qualificação. Se precisam que vos lembre, aqui vai: em 2004, e depois da primeira derrota com a Grécia, a situação era bem mais desesperada.


O futuro é que é pior. Reformada a “geração de ouro”, a prometida “geração de platina” não chega sequer a ser uma “geração de prata” – e a geração seguinte parece mais sombria ainda. Mais: Carlos Queiroz tem outros dois anos de contrato, cabendo-lhe a qualificação para o Europeu de 2012. Ora, quanto a Queiroz, está tudo dito – e foi ele quem o disse, em Port Elizabeth. Portugal não caiu no engodo da Costa do Marfim. A FIFA deixou Drogba jogar com uma protecção. A Costa do Marfim foi demasiado defensiva. Tudo, menos o essencial: Portugal não jogou nada. Usou dois extremos e não rasgou uma só vez pelas alas. Tentou jogar futebol directo e não colocou uma só vez a bola jogável em zona de remate. Precisava mudar tudo e limitou-se, na prática, a usar as substituições para trocar jogadores.


Isto não chega para bater a Coreia. Ponto final.


ESPECIAL MUNDIAL ("Missão: Arco-Íris"). Jornal de Notícias, 17 de Junho de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui