Sábado, 12 de Junho de 2010
publicado por JN em 12/6/10



Aqui há umas semanas, zanguei-me com um cliente. Chamo-lhe “cliente” porque não sei, no regime segundo o qual hoje em dia trabalho, o que chamar àqueles a quem vendo os meus textos. Na verdade, aquilo com que me zanguei foi com um amigo. Não interessam propriamente as razões: interessa que, quanto à colaboração profissional (eu ia dizer “comercial”, mas talvez já fosse de mais) que entretanto encetámos, quiçá irreflectidamente, estávamos a privilegiar questões antagónicas – e, como nenhum cobertor, no actual estado da pequena economia, chega para cobrir ao mesmo tempo os pés e a cabeça, zangámo-nos. Zanguei-me eu. Muito. Aos berros, tal qual se fazia antigamente. E, como é natural, ele zangou-se também.


Foi sol de pouca dura: finda a maratona, trocámos um abraço, bebemos um copo – e pronto. Mas não houve testemunha que não se manifestasse chocada com o tom da zanga inicial, não houve confessor que não recriminasse um ou o outro (sobretudo a mim) por ser demasiado agressivo nem houve amigo comum que não tentasse pôr água na fervura, na presunção de que dois homens que espingardam assim jamais voltarão a coexistir. E o que me parece é que as pessoas, em geral, como que deixaram de saber zangar-se. Deixaram de saber zangar-se com aquilo que consideram errado – e, pior ainda, deixaram de saber dizê-lo na cara umas das outras. A não ser, naturalmente, que haja uma agenda.


Ainda nos zangamos muito, é verdade. Mas zangamo-nos mal. Com a maior das facilidades nos zangamos contra inimigos abstractos, como “o Governo”, “o capitalismo selvagem” ou mesmo apenas “a crise”. Com a maior das facilidades nos zangamos com aqueles que entendemos como nossos subordinados, no trabalho e na vida em geral (afinal, os nossos “superiores” acabam de pôr-nos a pata em cima, alguém vai ter de pagar a conta). Com aqueles que estão, de alguma forma, em ascendente sobre nós, já não nos zangamos: amuamos, que é a forma mais cobarde de nos zangarmos. Aos nossos iguais simplesmente não dizemos nada: engolimos e tornamos a engolir, convencendo-nos de que do outro lado está, afinal, um pobre diabo, tão pobre que nem sequer merece uma zanga – e, quando enfim nos zangamos, é para dar-lhe um tiro na cabeça, como todos os dias nos mostram os jornais.


A impressão com que eu fico é que tudo isto vem dessa mania das social skills e do team building e dos demais chavões moderninhos que os gurus dos livros de economia nos enfiaram pela garganta abaixo, na intenção de nos automatizarem de vez. Resultado: andamos todos a rebentar por dentro, impossibilitados de rebentar para fora – e, quando explodimos, já não há nada a fazer. No essencial, os que nos rodeiam nunca são apenas homens, com valências e lacunas, com cobardias e actos de coragem: ou são anjinhos ou são tremendos filhos da puta (assim mesmo, sem meio termo). “Não respondas”, aconselham-nos os sábios. Não dês troco. Não ligues. Não percas a cabeça. Tens de ser superior. E, inevitavelmente, viramos todos uns diplomatazinhos de esquina, sem capacidade para dar um grito e a seguir fazer as pazes. Tornamo-nos ainda mais hipócritas do que aquilo a que a nossa contraditória condição já nos obrigava. E transformamo-nos, claro, em bombas-relógio.


Pois eu prefiro um homem que parte a loiça a um xoninhas que sublima tudo e, no final, ainda me passa a mão pelo pêlo. Quem não é capaz de zangar-se também não é capaz de uma gargalhada – e, se nos zangamos com ele, o primeiro argumento racional que utiliza é: “Não sejas assim”. Mas que diabo é isso, “não sejas assim”? Querem que sejamos como, então? Capazes de assistir a um automóvel que se encaminha para uma ravina sem dar um grito a acordar o motorista? Capazes de ver uma relação pessoal deteriorar-se sem dar um murro na mesa para tentar salvá-la? É “assim” que gostavam que nós fôssemos todos, cheios de competências sociais e, porém, completamente desprovidos de frontalidade, de coragem e de zelo? Não contem comigo. Só isso: não contem comigo.



CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 12 de Junho de 2010


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4 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 13 de Junho de 2010 às 23:11
Em muitas ocasiões gostaríamos de ter uma varinha de condão que permitisse anular os disparates que dissemos a alguém, quando estamos zangados, voltar a trás no tempo e impedirmo-nos de dizer o que na altura parecia ser um conjunto de argumentos importantes e acertados. Mas a crua realidade mostra-nos que tal é impossível. O que não tem remédio, remediado está. E depois do mal estar consumado, como gerimos o nó na garganta, o aperto no coração, o orgulho desmesurado do pós-embate? Quando chegamos a este ponto são necessárias duas atitudes para resolver a situação: coragem e honestidade. Temos que ser corajosos para abordar novamente a questão do conflito (que é sempre difícil) e honestidade connosco e com a outra parte. O que é que queremos realmente? Estamos arrependidos do que dissemos? O assunto era de tal maneira grave que vale a pena estar longe de quem gostamos?
Meus amigos, se gostam da pessoa com quem discutiram, qualquer que tenha sido a razão, não se ganha nada em ficar zangados ad eternum. Há que ter coragem, engolir o orgulho (despropositado, por sinal) e lutar por aquilo que querem. Voltar a entenderem-se. Estar zangado, consigo próprio ou com outrem, é uma pura perda de tempo que é tão precioso nos tempos que vamos atravessando!
De FIL a 14 de Junho de 2010 às 11:08
Tambem ando farto de ver uma data de xoninhas que não são capazes de um protesto, uma indignação pública. Mil vezes uma discussão cara-a-cara do que o silêncio ressentido e vingativo. Odeio o discurso de "tem calma pá", "não devias dizer isso", etc...Os meus melhores amigos sabem que sou pessoa de dizer o que penso e é isso que pretendo deles em relação a mim. Depois falamos com calma, explicamo-nos melhor, pedimos desculpa e seguimos em frente, mais fortalecidos e conscientes do que somos e pensamos.

Esta sociedade anda a ser cozida em lume brando e as pessoas parecem demasiado politicas em tudo, chateem-se pá, esperneem, desabafem caramba, vão ver que vos faz bem ao coração e à alma...
De CONA a 20 de Junho de 2010 às 03:41
Deixa que te diga meu grande filho da puta, és um belo de um monte de merda.
De Mena a 25 de Julho de 2010 às 17:23
Concordar, concordar e concordar, acontece muito por uma questão de comodidade, é fácil dá menos trabalho não desgaste......depois cada um faz o que quer.
MJ

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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