Sábado, 22 de Maio de 2010
publicado por JN em 22/5/10



NESTA IDADE, JÁ FAÇO POUCO
daquilo a que verdadeiramente se chama “sair à noite”. Mas ainda saio às vezes à noitinha, para jantar ou ouvir música – e, sobretudo, acordo muitos sábados e muitos domingos de madrugada, em ajudando a meteorologia, para unir-me a outros peregrinos dessa filosofia masoquista que é o jogo do golfe. Ora, como vivo numa zona de diversão nocturna (desculpem a formulação, mas por esta altura já não espero livrar-me do epíteto de bota-de-elástico), acho que posso falar com um mínimo de propriedade. Pois o que me parece é que os mesmos pelintras que me obrigaram a passar a recolher mais cedo ainda lá estão, de resto cada vez em maior número – e, portanto, ainda é cedo para dar por findo o meu eremitério.



Metade do encanto da noite perdeu-se no dia em que os rapazes passaram a beber cerveja de litro e as raparigas a trazer na mão um vasilhame de Água de Luso com uma mistela escura lá dentro. Hoje, sair à noite simplesmente já não tem graça. Nós saíamos à noite porque procurávamos aventura, porque queríamos meter estilo, porque sonhávamos transcender a nossa condição. Os miúdos de hoje saem à noite porque não encontram nada melhor para fazer do que partilhar uns com os outros a sua depressão. Ao contrário de nós, que também éramos uns tesos, habituaram-se demasiado bem à pobreza – e aprenderam, inclusive, a fazer gala dela. Querem embebedar-se depressa e querem embebedar-se barato – e ainda a festa não está a meio e já andam todos, rapazes e raparigas (repito: raparigas), a vomitar, a urinar e mesmo a defecar (repito: a defecar) entre os carros estacionados na rua. Vão um sábado destes às travessas de São Pedro de Alcântara, agora que as noites quentes estão de volta, e verão.


Noutros tempos escrevi aqui, em honra de uma série de jovens interessantes que tive o privilégio de conhecer, verdadeiras odes aos miúdos e às miúdas na casa dos vinte anos. Corrijo. Muitos deles têm tudo menos um mínimo desejo de classe. Estão a afundar-se e não identificam outro prazer senão levar-nos com eles. Filmam-se a fazer sexo para postar na Internet e nem sequer a vertigem do pecado sentem. Sobretudo, não querem cá convenções, não querem cá aparências, não querem cá ambições. Deviam levar três palmadas e ser metidos na ordem. Hão-de comer-nos as papas na cabeça e meter-nos na ordem a nós. E eu, devendo talvez lamentá-lo por nós, lamento-o principalmente por eles.


 


DE RESTO, E NAS MINHAS PEREGRINAÇÕES madrugadoras, acabo quase sempre por não ter outra alternativa senão ir tomar o pequeno-almoço às pastelarias do Príncipe Real – e, então, o espectáculo é mais deprimente ainda. Ao cais da rissol de camarão vão chegando dos bares os navegantes, Dietrichs que não foram nem Marlenes – e, então, montam o seu espectaculozinho. Ali mesmo, tresandando a suor para cima da senhora que os serve com a mão trémula, morta de vergonha perante a sua obscenidade conspícua, namoram-se com palavrões, trocam-se promessas gráficas e enunciam com requintado pormenor cada uma das tropelias que vão fazer uns aos outros no sofá lá de casa, na cama, na bancada da cozinha. E tudo isto aos berros.


Todas as crónicas homofóbicas começam com a seguinte frase: “Eu até tenho amigos gays.” Pois eu não tenho. Já tive (num caso até lhe dediquei um livro), mas entretanto morreram os dois. De qualquer maneira, importa-me pouco que me chamem homofóbico. Os gays dos bares do Príncipe Real, a avaliar por aqueles com que tenho o desprazer de partilhar o balcão manhã cedo, são abjectos. Talvez haja um camionista labrego dentro de cada homem. Mas há um mundo homossexual que é tão camionista  e tão labrego como o nosso – e que, ainda por cima, da mesma forma que os miúdos de São Pedro de Alcântara fazem gala da suas cervejas de litro e das suas garrafas com mistela escura, está apaixonado pela sua própria abjecção.


E eu não quero saber se aquilo contra que aqueles rapazes lutam é um anátema ou não. Não quero saber sequer se o mundo homossexual é mesmo mais perverso do que o mundo heterossexual. Não quero saber, aliás, se se trata de homossexuais, de heterossexuais ou do que diabo seja. O que sei é que ver um tipo a explicar ao outro, à frente de uma senhora idosa, que dali a instantes vai fazer-lhe um felatio (não, felatio não é o termo que ele usa), agarrando daqui, puxando dali e repuxando de acolá, dá-me vontade de dar-lhe um murro. E que, mais dia menos dia, é precisamente isso que vou fazer. Depois não digam que não avisei.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 22 de Maio  de 2010


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5 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 23 de Maio de 2010 às 23:17
Ao pôr-do-sol em Lisboa, a linda luz brilhante desaparece, mas a cidade ganha uma nova vida. As ruas inclinadas e de paralelepípedos do Bairro Alto enchem-se de pessoas que procuram um restaurante ou um bar para essa noite. Lisboa já ganhou a fama de ter uma das melhores noites da Europa. Os bares estão abertos até cedo de manhã, e é comum as pessoas saltarem de bar em bar. Mas nenhuma noite em Lisboa acaba aqui...
Depois de se visitar vários bares até às 4 da manhã, muitos Lisboetas descem até às discotecas, por isso, para se divertir na noite Lisboeta, o melhor é chegar às discotecas entre as 2 e as 4 da manhã. Existe um grande número de sítios que se podem visitar, desde aqueles que tocam música House aos que têm música ao vivo.
A iniciação à cultura da noite cada vez mais precoce, o álcool como figura central da oferta da noite, bem como a falta de espaços nocturnos alternativos são algumas das questões mais frequentemente levantadas na actualidade. Existem variadas formas dos jovens se apropriarem da noite, mas, para os jovens a noite também é uma forma de socialização, de estar com os amigos, normalmente a experiência da noite nunca é solitária, representando por isso um importante papel na formatação das identidades juvenis. Para muitos jovens, a noite não se faz sem amigos, nem sem o consumo de álcool. A noite é um espaço de encontro e de consumo. O álcool aparece como figura central porque os espaços estão virados para o consumo do álcool. É quase sempre a única oferta. Mas... não será possível oferecer outras actividades comerciais que não o álcool?.

Nas homofobias, tudo gira em torno da profundidade que cada um quer para seus relacionamentos. Cada pessoa é um universo inteiro e completo de possibilidades, e vai de cada um perceber como as coisas estão e para onde vão. O mais importante, entretanto, é o total respeito ao próximo. Por mais que as pessoas queiram, ninguém pensa igual a elas e aprender a lidar com a diversidade faz-nos crescer e nos tornar melhores pessoas a cada dia que passa.



De ana a 23 de Maio de 2010 às 23:26
Força! No murro, digo eu! São nojentos! E se não começarem a levar uns bananos que os façam pensar duas vezes no que deixam sair da boca para fora, o deboche vai ser cada vez maior! Façam o que quiserem uns (umas) com os(as) outros(as), mas poupem-nos os pormenores.
De M.P. a 23 de Maio de 2010 às 23:32
Ora ora! Nada é assim tão mau! Com as noites e dias fantásticos que têm estado esse humor devia estar bem no alto!
Experimente por uma noite deixar de ser um observador e passar a fazer parte do grupo deles. Não me refiro ao grupo dos gays, obviamente, mas sim ao grupo dos bichos nocturnos alucinados. Vai ver que pode ser bastante divertido perder o juízo de vez em quando... E nem precisa perder a pose!
De Anónimo a 9 de Junho de 2010 às 17:30
Ena, a ler aleatoriamente tenho sorte.

Dois conselhos:
1- Tenha filhos. Se lhes disser isso tudo em vez de escrever, pode ser que absorvam. Eu exaspero, mas tento.

2- Dê murro. Mediatize. Grupo de apoio no FB , circo todo, um esforço inglório para nada.
E há estudos que dizem que a parentalidade deles pode ser mais benéfica e tudo. Assim, no geral.
Concluindo: tenha filhos. E eduque-os.
De Mena a 25 de Julho de 2010 às 22:13
Loucuras sempre se fizeram, figuras tristes também a diferença é que antigamente tinhamos respeito plos mais velhos e certas coisas não eram ditas nem feitas na frente deles e hoje isso não acontece.
Nota-se uma grande falta de principios, Eduquem-nos.
MJ

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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