Sábado, 15 de Maio de 2010
publicado por JN em 15/5/10

Se me perguntarem de quem tenho eu inveja, o melhor é tirarmos a tarde. Tenho inveja de quem nunca precisou de privar-se do conforto para escrever um livro e de quem, não tendo nunca parado de trabalhar na sua ocupação diária, conseguiu, ainda assim, escrever livros brilhantes. Tenho inveja dos golfistas do Tour e, já agora, dos futebolistas da selecção. Tenho inveja de George Clooney (que diabo, até das namoradas de George Clooney eu tenho inveja) e tenho inveja, embora por razões opostas, de Sam Mendes também. Se há pecado mortal que cometo com gosto e paixão, é o da inveja. E, no entanto, não há homem de que eu tenha tanta inveja como o “distraído”.
O “distraído” é a figura mais privilegiada de uma família, de um grupo de amigos, de uma empresa. O “distraído” chega sempre atrasado – paciência, é distraído. O “distraído” chumba na escola primária – coitado, é distraído. O “distraído” não dá presentes no Natal – deixa lá, é distraído. O “distraído” não pergunta pelas análises com que nos andávamos a consumir – não foi por mal, já sabes que é distraído. O “distraído” é engraçado e é fofinho. O seu defeito, na verdade, é uma virtude. O “distraído” mete nojo e faz inveja – e, se há uma presença de que não gostamos nunca de dispensar-nos, é a do “distraído”. Dá patine, andar com o “distraído”. O “distraído” é um charme. O “distraído” é aquilo que nós seríamos se não fôssemos esta desgraça que somos.
Porque depois, ao longo da vida, o “distraído” fica com os melhores empregos. O “distraído”, bem vistas as coisas, não é aluado: é criativo – é um artista. E o “distraído” fica sempre com as raparigas mais giras também. Naturalmente: só é distraído quem pode – e o “distraído” é o mais bonito de nós todos. Também por isso, aliás, nos dá jeito emparceirar com o “distraído”: sempre pode ser que a gorda sobre para nós. A não ser que, sendo apenas mais entroncadinha do que as outras, a gorda seja também a melhor rapariga de todas, a mais doce, a mais generosa. Nesse caso, é certo que se vai casar com o “distraído” – e, ainda por cima, não tarda já fez uma dieta, já aprendeu a cozinhar, já leu o Proust e já é, contas feitas, a mais interessante de todas, a ver se consegue conservar o “distraído”.
Do outro lado, estamos nós: os “organizadinhos”. A vida do “organizadinho” é, claro, um pequeno inferno. O “organizadinho” acorda de manhã e vai logo responder aos e-mails. O “organizadinho” recebe dois mil telefonemas por dia e liga de novo após cada um dos mil e oitocentos que não se concluíram, por falta de rede. O “organizadinho” tem memorandos para redigir, reuniões para preparar, apresentações para escrever. O “organizadinho” passa na Segurança Social, reúne os papéis para o IRS e dá um salto ao dentista para marcar uma consulta porque, entretanto, não atende de lá ninguém. O “organizadinho” planeia as férias que vai fazer com o “distraído”, marca as aulas de surf a que vai assistir com o “distraído”, faz um desvio à Worten para ver os preços dos LCD em que planeia ver o Mundial com o “distraído” e a mulher do “distraído” e os miúdos do “distraído”. O “distraído” fica às vezes com a marcação do restaurante, mas distrai-se – e depois o “organizadinho” ainda vai jantar com ele à tasca rafeira duas portas abaixo.
O “organizadinho” morde-se nas bochechas porque come a correr e fere as mãos na porta do armário porque se veste a correr também. Entretanto, o “distraído” não atendeu uma chamada, não respondeu a um sms, não devolveu um e-mail. O “distraído” deixou o telemóvel no silêncio, esqueceu-se de carregar o cartão, nem ligou o computador. O “distraído” parte do princípio de que todos os telefonemas do “organizadinho”, parecendo diligentes, são no fundo supérfluos. O “organizadinho”, se vê  que vai atrasar-se com um trabalho, manda um e-mail a pedir mil desculpas porque é capaz de atrasar-se, faz seis telefonemas a confirmar se o cliente recebeu o email, entrega afinal o trabalho a horas – e, depois, ainda fica com o ónus de se ter atrasado. O “distraído” atrasa-se todos os dias e depois espera que o cliente lhe telefone. O “distraído” é mais feliz do que o “organizadinho”. O “distraído” vive, em média, mais vinte anos do que ele.
Houve fases na minha vida (por exemplo: no liceu) em que tentei ser o “distraído”. O máximo que consegui foram algumas fotocópias e uma pilha de nervos. Hoje, contento-me em estar com o “distraído”. Somos ambos casados e já não é a gorda sobrante o que eu espero dele. Sei ele vai chegar atrasado, aliás. Mas, entretanto, terá valido a pena esperar. O “distraído” é engraçado.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 15 de Maio de 201

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4 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 15 de Maio de 2010 às 23:55
Para mim não é bem inveja essa coisa de olhar para o lado e ver outra pessoa ter, ou conquistar algo que também desejamos para nós próprios. Porque esse olhar em si mesmo não deseja mal à pessoa que o conseguiu, simplesmente nos confronta com as nossas próprias realidades, e pode até servir-nos de bom exemplo, gerando novos desafios que nos levem a firmar objectivos, ou em última análise, a compreender as nossas limitações.

Pessoas organizadas não acumulam coisas. Não ocupam espaço com objectos inúteis, roupas que não utilizam há anos, revistas antigas, etc. Apenas as coisas que lhe são úteis ou proporcionam algum prazer, são mantidas. Estas pessoas acreditam na simplicidade. Elas respiram mais facilmente se puderem circular nos espaços sem ter que esbarrar em caixas ou mergulhar em armários abarrotados. Pessoas organizadas sabem que para obterem resultados, precisam saber claramente aonde querem chegar e em que prazo. Elas fazem revisões periódicas no seu planeamento.

PS - Por distracção... nada disse sobre a mesma. É o que se chama... distraído previdente!

De jorge espinha a 16 de Maio de 2010 às 18:51
caro joel

O distraído foi sempre uma sub espécie humana que detestei quase tanto como detesto o Benfica (e é muito).
Não consigo ser tão benevolente , acho que os distraídos estão apenas a se borrifar para todos os outros confiando que alguém no fim varrerá os cacos.
De M.P. a 17 de Maio de 2010 às 00:54
Sim, é verdade que o distraído é a melhor companhia de todas. Tem muita graça, diverte qualquer um, sempre excelente humor. Ele próprio aprendeu a fazer dos seus defeitos e problemas uma piada! E sim, ainda tem a sorte de ficar com a miúda mais interessante, mesmo sendo a mais gordinha ou entroncada de todas! E é muito feliz com ela, que mesmo não sendo o supra-sumo da organização lá se vai esforçando por tapar os buracos deixados pela distracção do companheiro.

Mas neste caso quem não fica lá muito satisfeita é a gordinha, que tantas vezes comete o erro de se transformar na mãe do seu distraído. Depois a divertida distracção já não é assim tão divertida, a não ser aos olhos dos outros, o que ainda diverte menos a gordinha! Enfim, e como a vida não é um conto de fadas e a paciência da gordinha também se esgota... O ponto alto do fim de semana da ex-gordinha do distraído pode tornar-se numa manhã solarenga na Praça das Flores a ler uma crónica numa revista, sozinha.
Obrigada :)

M.P.
De Mena a 25 de Julho de 2010 às 22:27
Toda a realidade neste post e tanto se aplica ao "Distraído" como ao "criança" inveja não me metem agora raiva..............

MJ

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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