Sábado, 8 de Maio de 2010
publicado por JN em 8/5/10



Em criança, fascinava-me a maneira como os mais velhos relatavam uma tarde bem passada. Não interessava onde havia ocorrido a dita: podia ter sido numa tourada à corda ou numa matança de porco, num piquenique no Monte Brasil ou numa simples tarde em que ao habitual passeio dos tristes se houvesse substituído, em jeito de golpe de última hora, uma almoçarada de bacalhau com natas na companhia dos primeiros circunstantes que se candidatassem. O que interessa é que, posta mais tarde a oportunidade do relato, o verbo “rir” estava sempre lá. Uma tarde bem passada, para a geração anterior à minha, era uma tarde onde toda a gente se havia rido até não poder mais. “Ai o que nós nos rimos”, diziam. Melhor ainda: “Ai, o que a gente se rimos.”


Eu achava um absurdo, mas porque era jovem: passava a vida a rir e, portanto, uma tarde bem passada, para mim, era feita de outra matéria que não do riso. Afinal, os mais velhos eram capazes de rir-se de coisa nenhuma. Ainda o almoço não havia começado, aliás, e já eles se haviam começado a dedicar à tarefa. Uma mulher descascava um pepino para a salada – e logo, numa metáfora sempre infalível, um dos homens desatava aos gritos lá do fundo da cozinha. Depois, a mais velha bebia um copo de vinho inteiro, arroxeava um nadinha das faces – e de imediato caía tudo num delírio, que aquela santa mulher embriagada, sim, era o máximo. Entretanto, partia-se um prato algures – e inevitavelmente se contorcia toda a gente pelos sofás, agarrada à barriga, como se não houvesse nada mais engraçado do que um monte de cacos espalhados pelo chão.


Não foram os filósofos que me fizeram perceber a importância do riso. Não foi Wittgenstein, não foi Kierkegaard, não foi sequer Badaró: foi talvez um concreto dia de 1995, hoje tão distinto na minha memória, em que, bafejado pela primeira vez com um fim-de-semana de folga, raríssimo para um estagiário, conferi os diferentes programas propostos para aquela noite de sexta-feira, eliminei concertos e teatros, recusei jantares e pezinhos de dança – e suspirei: “Por favor, vamos a cinema. E ver uma comédia!” Desde então, rio-me sempre que posso. Rio-me daquilo a que acho graça e rio-me, inclusive, daquilo que, não tendo tanta piada, ao menos não ofenda por completo o bom-gosto. As pessoas que são capazes de rir de tudo, estou convencido, são mais felizes – e há já alguns anos que me prometi a mim próprio fazer um esforço.


Mas há meia dúzia de coisas de que eu não conseguirei nunca rir-me. Não consigo rir-me de um prato que se parte. Não consigo rir-me de um homem que tropeça. Não consigo rir-me de um acidente na auto-estrada. Não consigo rir-me de uma derrota do Benfica em dia de suposta celebração do título (vá, conseguir até consigo, mas disfarço). E, sobretudo, não consigo rir-me de um homem que a si mesmo se obrigou a fazer toda a gente rir, principalmente quando em volta ninguém está para risotas. Falo dos humoristas profissionais em dia de descanso, sim: daqueles pobres diabos que fazem do palco a vida e, quando enfim são chamado à Terra, não conseguem deixar de fazer também da vida um palco, obrigando-se a si próprios a conservar a personagem até que, dentro deles, alguma coisa enfim desligue. E falo, principalmente, do piadético de serviço.


Não há grupo de amigos que não o tenha, provavelmente: o homem das graçolas. O rapaz que até numa maçã podre encontra piada. O jovem adulto que repete mil vezes uma anedota, batendo no ombro de cada um, chamando cada amigo pelo nome, gritando mil vezes aos sete ventos até que, finalmente, alguém esboce uma reacção. O homem desprovido de humor que tenta de todas as maneiras acreditar que tem piada, apesar de alguma coisa nos olhares da assembleia há muito tempo lhe segredar o contrário. O chato, basicamente. Cada vez os encontro mais, e um pouco por todo o lado: um esgar de riso erguido a despregadas num desespero de incompreensão, de desamparo e de solitude. E, embora esta crónica não tenha um gancho de actualidade, um acontecimento que a justifique imediata e claramente, foi para eles que foram os meus pensamentos neste domingo em que vos escrevo.


Escrevo-vos sempre a um domingo – às vezes fico azedo com isso. Mas a crise nunca mais acaba, os servidores públicos parecem cada vez mais desonestos e o Benfica acaba de adiar por mais uma semana ainda a conquista do campeonato. O mundo está, definitivamente, com muito pouca graça. A não ser no que diz respeito ao Benfica, claro.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 8 de Maio de 2010

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 9 de Maio de 2010 às 23:37
É bom reflectir sobre o ditado popular que diz que não damos risadas porque estamos felizes, mas somos felizes porque damos risadas. Isso faz mais sentido ainda quando aprendemos a rir de nós mesmos, o que é um formidável caminho para o autoconhecimento, e uma chance única de promover o equilíbrio mental. É difícil pensar em alguém que não se sinta bem após uma sessão de gargalhadas. Mas será que além do bem estar que o riso provoca, ele realmente faz bem à saúde? Não tenhamos dúvidas o velho ditado de que rir é o melhor remédio tem fundamento principalmente ao nível do sistema cardiovascular, imunológico ou na percepção da dor.
Sabemos também que o senso de humor de uma pessoa está associado a outras virtudes que facilitam as relações sociais, como é o caso da empatia, capacidade de se relacionar com intimidade e confiança interpessoal. Emoções positivas, o sorriso, o estado de felicidade, todos podem ser vistos do ponto de vista evolutivo como um mecanismo que facilita as relações sociais ao promover sentimentos prazenteiros nos outros, por recompensar os esforços dos outros e encorajar a continuidade da relação social. E o sucesso da espécie humana depende de sua capacidade de fazer relações sociais.
No que respeita ao conseguir-se ou não rir da suposta derrota do Benfica em dia de suposta celebração do título (mesmo até conseguir com ou sem disfarces) o último a rir… é quem ri muito melhor.!
De Ana Celeste Mendes a 10 de Maio de 2010 às 11:18
"Não foram os filósofos que me fizeram perceber a importância do riso. Não foi Wittgenstein , não foi Kierkegaard , não foi sequer Badaró foi talvez um concreto dia de 1995, hoje tão distinto na minha memória, em que, bafejado pela primeira vez com um fim-de-semana de folga, raríssimo para um estagiário, conferi os diferentes programas propostos para aquela noite de sexta-feira, eliminei concertos e teatros, recusei jantares e pezinhos de dança – e suspirei: “Por favor, vamos a cinema. E ver uma comédia!”. Mais do que uma ideia, do que um relato, um ensinamento. E precioso. Alturas há em que é o riso que nos salva, múltiplas foram já as épocas em que o riso me salvou. Talvez seja o riso o único artefacto humano para combater a certeza da morte na vida, a única arma que o humano possui para anular a ideia trágica da certeza de que um dia desaparece. Talvez o homem ria porque se sabe mortal E não há maior palco de risinhos, piadas e anedotas do que um funeral. Perante a destruturação que tudo aquilo provoca, o riso é a única arma.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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