Sábado, 1 de Maio de 2010
publicado por JN em 1/5/10

Dos anúncios que actualmente pululam pela rádio portuguesa, tantos deles melhores do que os próprios programas (sobretudo quando se trata da rádio-de-hora-de-ponta, que chegava para secar os neurónios a Einstein), o mais desconcertante é talvez o daquele supermercado de economato que se propõe mudar a situação profissional dos clientes em meia hora de visita. Mais vale dizer já o nome da marca comercial em causa, que é para tirarmos o assunto do caminho: é a Staples Office Centre. E mais vale dizer já também o que penso dele, que é para depois não me acusarem de ambiguidade: acho estúpido e acho elucidativo


A sinopse é simples. Um homem vai à Staples comprar agrafos. Como entretanto não tem com que os usar, decide comprar também um agrafador. Ora, um agrafador com agrafos precisa de papel, pelo que o homem compra ainda uma resma de folhas A4. Entretanto, vem ele a caminho da caixa com aquilo tudo no cestinho quando dá por uma bela secretária em exposição – e, como se não pudesse evitá-lo, compra-a também. Bom, mas é claro que uma secretária sem uma cadeira a condizer não tem piada nenhuma, de maneira que o pobre de Cristo acaba por comprar igualmente uma cadeira. Resultado: quando sai da loja, já comprou estantes, armários, telefones, impressoras, tinteiros e até molduras para pôr as fotos da família. E, inevitavelmente, decide montar uma empresa para dar uso àquela tralha toda.


A razão por que o acho estúpido é fácil de entender: em tempos como estes, aquilo de que menos precisamos, todos nós, é de apelos ao consumo desenfreado – e eu não acredito que um reclame assim, baseado na história de uma pessoa que vai a um supermercado gastar dois euros e vem de lá com o cartão de crédito, a conta-ordenado e a antecipação da herança paterna hipotecados para três gerações, tenha grande acolhimento entre um povo que afinal sofreu mesmo um agravamento de impostos, que afinal vai ter mesmo de pagar a dívida da Grécia e que afinal parece mesmo condenado a aguentar mais três anos e meio de um programa governamental que se esforçou por não referendar. Mas isso pouco importa: é a Staples que paga a coisa e é a Staples que arcará com as consequências que ela possa trazer ao seu quarter.


Já aquilo para que o dito anúncio competentemente nos elucida talvez deva fazer-nos pensar. Porque, de facto, muitas empresas portuguesas são, hoje em dia, fundadas à semelhança do que ele descreve: do pé para a mão, apenas porque sim, porque alguém ficou desempregado e não vê  alternativa, porque alguém não gosta de como o patrão o trata e decidiu suplantá-lo, porque alguém tem um vizinho que também é empresário e já não pode ouvi-lo gabar-se, porque alguém morre de desejo de comprar um BMW mas precisa de deduzi-lo nos impostos, porque alguém foi buscar agrafos ao supermercado e, de repente, deu por si com um escritório todo montadinho. No fim, uma boa parte das empresas que se vão abrindo nem sequer tem actividade, embora haja coleccionado subsídios para o arranque. E outra boa parte ainda tem actividade a rodos, encomenda à fartazana produtos e serviços a todos os tipos de fornecedor e, depois, simplesmente não paga nada a ninguém.


Obcecados com a recuperação da economia, viciámo-nos a certa altura na expressão “PME” e naquilo que ela trazia apenso: a ideia de que esta crise se combateria de baixo para cima, através da revitalização do tecido social e dos seus pequenos focos de tensão económica. Talvez seja verdade: talvez efectivamente precisemos de mais médias, pequenas e microempresas. Mesmo que não precisemos verdadeiramente delas, aliás: eu sou todo pela pequena iniciativa, pelos homens que agarram o destino pelos cornos, por uma crescente autonomização dos cidadãos em relação ao Estado, aliás a pessoa menos séria da equação – agradar-me-ia sempre, pois, o lançamento de novas PME. Mas uma coisa de que precisamos de certeza absoluta é de melhores médias, pequenas e microempresas. O resto é economia virtual, endividamento galopante, mitomania, relapsia, impunidade, tragédia.


Por exemplo: eu gostava de ver, para além dessas estatísticas épicas que nos dão conta da abertura de “x” novas empresas por semana, por dia, por hora, outra estatística que nos mostrasse quantas empresas fecham, quantas iniciam processos de falência, quantas simplesmente não funcionam e mesmo quantas têm os proprietários a monte, em fuga de fornecedores e clientes desesperados. E, como o Estado não mas dá, talvez deva pedi-las aos senhores da Staples, não?


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 1 de Maio de 2010

tags:
1 comentário:
De Manuel da Silva Carvalho a 2 de Maio de 2010 às 00:48
A publicidade é arte na medida em que necessita de criatividade, talento, imaginação e com isso, instaura novos valores estético na sociedade. Através de um bom anúncio, o consumidor não só conhece a marca anunciada como também ri, chora, surpreende-se ou fica instigado.
Um dos principais objectivos da publicidade é persuadir os receptores que aqueles produtos são os melhores e ao mesmo tempo reflectir de uma maneira contabilizada os ideais, os gostos e necessidades do público a quem se dirige. Se entendermos o verbo vender num sentido amplo, generoso, de levar aos outros a mensagem capaz de interessá-los em determinada acção, a finalidade principal da publicidade, então, é vender. A publicidade é fonte de economia para os produtores e de benefícios para os consumidores. A liberdade de imprensa é resultante dela e da sua acção democrática. Sem a receita dos anúncios, nem os jornais, nem as rádios ou televisões poderiam recrear os leitores e ouvintes como o fazem. Ela é também importante factor como esteio do regime democrático. Cria estados de oposição, revoluciona os métodos, difunde aquilo que é mais conveniente, novo ou económico para a comunidade ajudando na resolução de suas apetências e necessidades.
Alguns anúncios, algo criativos, da multinacional Staples já têm sido premiados na rádio e televisão.
A história das PME´s é pau para toda a obra, principalmente nas bocas dos nossos políticos!


Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui