Domingo, 25 de Abril de 2010
publicado por JN em 25/4/10



Não há um só cliché que Cidade Despida (RTP1, sextas-feiras à noite) não visite. Bastou um episódio para percebê-lo: está lá a inspectora bonita que se arma em durona mas no fundo é frágil, está lá o colega truculento que lida com os interrogados como um brutamontes, está lá o chefe com o casamento destruído e uma crescente tendência para a misoginia e está lá mesmo o marido (ou namorado, ou o que seja) pianista que toca peças ao telefone para compensar a inspectora pelo machismo e pela rejeição que a rodeiam.


Da mesma forma, não há um defeito comum à ficção portuguesa que Cidade Despida não reitere. O overacting chega a ser comovente (Catarina Furtado é trágica, mas Pepê Rapazote, um dos vilões do primeiro episódio, não lhe fica atrás), os diálogos surgem completamente desprovidos de oralidade, as cenas de acção são patéticas e a intriga desvenda-se de forma completamente abrupta. Tenho muita curiosidade, aliás, em ver como vão os argumentistas alimentar uma série de episódios depois de terem aviado um serial killer logo no primeiro – ainda por cima numa cidade como Lisboa, em que raramente se ouve sequer uma sirene.


Por outro lado, e sendo uma má série de televisão – no fundo, um produto especialmente modesto no domínio do policial –, Cidade Despida é também um pequeno passo em frente nos domínios da ficção nacional, onde não se tem feito outra coisa senão telenovelas chorosas e séries delicodoces para “entretenimento familiar”. Enquanto se mantiver circunscrita ao mercado nacional, na verdade, é inofensiva. O problema é que Catarina, conhecendo-a nós todos como a conhecemos, já deve estar cheia de sonhos de Hollywood.


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 25 de Abril de 2010

1 comentário:
De Joana B a 7 de Maio de 2010 às 14:44
Catarina Furtado é uma das piores actrizes de que me lembro, comparável à fraca qualidade da maioria dos actores da chamada "Geração Morangos" (salvas raras e louváveis excepções). Não há um único trabalho da Catarina actriz que seja, sequer, rezoável. Como apresentadora, também tenho as minhas dúvidas sobre a necessidade de tamanha gritaria.
Seja como for, é pena que a RTP1 não consiga produzir um formato de sucesso, resultando desse insucesso a necessidade de continuar a existir graças ao dinheiro dos contribuintes.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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