Sábado, 24 de Abril de 2010
publicado por JN em 24/4/10

Há algo no fracasso do i que o torna numa tragédia. Agora é fácil dizer: “Afinal, esses tipos de Leiria, Grupo Lena ou lá o que é, eram mesmo uns patos bravos.” Efectivamente, assim parece. Mas este é um fracasso que começa muito antes desse instante em que, enfim, um grupo económico dá razões a largas dezenas de funcionários (incluindo uma série de excelentes jornalistas) para se sentirem defraudados no que diz respeito ao acordo que firmaram com a empresa. Na verdade, o fracasso começa na própria urgência com que, em Portugal, recebemos as promessas de mundos sonhados, sobretudo se apresentadas em tom messiânico.


Quando surgiram as primeiras notícias sobre o nascimento de um novo jornal, todos quisemos acreditar no seu sucesso. Antes dele, vários projectos haviam nascido e rapidamente sucumbido. Ao longo dos últimos anos, os melhores jornais portugueses haviam perdido leitores. Nascida de uma bolha especulativa com origem nas novas tecnologias e amplo acolhimento no sector imobiliário (e depois na banca, e depois na indústria automóvel, e por aí fora), instalara-se entretanto a maior crise global a que esta geração assistira. E, no entanto, ia nascer um novo jornal. O que, claro, era tão absurdo que só podia ter uma explicação para além do nosso entendimento.


Bem vistas as coisas, tratou-se novamente de uma questão de fé. Do dito Grupo Lena dizia-se então que tinha “ligações ao regime”, o que, em Portugal como no estrangeiro, nunca foi mau cartão de visita. Mas, sobretudo, sabia-se pouco sobre quem eram os seus operacionais, os seus estrategos, os seus dirigentes. E, quando uma série de homens vagamente misteriosos nos prometem subverter a hierarquia instituída, trate-se de que sector da economia se tratar, algo dentro de nós como que se ilumina. No fundo, a vitória do i seria também a derrota dos velhos empresários, dos grandes capitalistas, dos tipos que há tantos anos nos subjugam.


Afinal, o que se conseguiu provar com isto foram duas coisas. A primeira é que, idealmente, os jornais portugueses podiam ser mais bem feitos, como a espaços o i o foi. E a segunda é que, se os jornais portugueses não são mais bem feitos, isso deve-se, antes de mais, às limitações do país, incluindo o seu mercado, os seus consumidores e até os seus profissionais. Na verdade, Portugal tem os jornais que merece. Se é que, bem vistas as coisas, Portugal sequer merece os jornais que tem. Porque, se efectivamente Portugal é o paraíso de corruptos e pedófilos que os profissionais de Justiça juram que é (sem, aliás, conseguirem depois prová-lo), então, em definitivo, os jornais portugueses são melhores do que o país.


Fazer jornais dá trabalho e custa dinheiro. Fazer bons jornais dá ainda mais trabalho e custa ainda mais dinheiro. E fazer os jornais ideais dá um trabalho e custa um dinheiro que ninguém se pode dar ao luxo de despender quando, mesmo não vivendo no pior dos países, vive no pior dos tempos. O que os jornalistas do i conseguiram, em determinados momentos, foi um pequeno milagre. Tinham um desafio enorme pela frente, tinham uma redacção pequena – e, provavelmente, algo lhes dizia há já algum tempo que a sua margem de manobra talvez não fosse tão folgada quanto lhes havia sido prometido. No essencial, o investidor queria resultados em menos de um ano. A previsão inicial era atingir o break-even em cinco.


Crónica corporativista, esta? Talvez também. Para além de ter amigos no i, sou jornalista e sou freelancer – qualquer afunilamento do mercado é, para pessoas como eu, uma preocupação. Mas, principalmente, sou leitor do i e acho que é verdadeiramente uma lástima que Portugal não possa ter um dia um jornal como o i se propunha ser quando, enfim, atingisse a velocidade de cruzeiro. Infelizmente, não pode mesmo. E, embora muitos de nós tenham querido acreditar que podia, a verdade é que os velhos empresários, esses mesmo de quem gostamos tanto de desdenhar, sabiam-no há muito tempo.


Distinguiu-os não terem nunca prometido aquilo que não podiam cumprir. Naturalmente, não gozaram aquele sublime instante em que os homens de fé erguem os olhos para eles e os reconhecem como a encarnação do Messias. Mas continuam a cumprir os compromissos para com os seus funcionários, a servir os seus leitores e a fazer funcionar a economia – e não é por isso que vão impedindo os respectivos jornais de monitorizar o funcionamento da democracia.


Oxalá o i sobreviva ainda muitos anos. No dia em que escrevo, porém, não podemos contar com mais ninguém, para isso, senão com os seus jornalistas.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 24 de Abril de 2010

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14 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 25 de Abril de 2010 às 23:45
Segundo consta o Grupo Lena está a repensar a sua estratégia na área dos media. E então parece que poderá acontecer uma de duas hipótese. Ou irá reforçar a sub-holding Lena Comunicações ou abandonar este activo que detém a maior rede de jornais regionais do País, duas rádios regionais e uma editora. O jornal i tem um volume médio de vendas em banca muito baixo (8000/9000 exemplares/dia). Receitas publicitárias muito reduzidas e os custos da sua feitura algo elevados. Portanto todos os ingredientes para ter imensas dificuldades em manter-se o Jornal que foi lançado a 7 de Maio de 2009. É um produto diferente com alguma qualidade.
Mas por mais reestruturações que se façam, a manter-se a tiragem e receitas de publicidade, dificilmente se manterá e morrerá quase à nascença.
De Margarida a 7 de Maio de 2010 às 13:04
Resumindo: o falhanço de um jornal nunca é por culpa dos Jornalistas. Esses são incólumes. Até os que humilharam e enxovalharam o Deputado R.R., e que ficaram tão indignados por ele ter tido uma reacção brusca (eu teria era partido os gravadores)... Os Srs Jornalistas viraram os "Justiceiros" em Portugal. Só isso explica o estado em que tudo isto está. Deu-se poder a quem nunca devia ter.
De Laurinda Correia a 7 de Maio de 2010 às 13:13
Na antiga quarta classe, foi-me ensinado que o verbo haver só tinha três tempos: houve, há e haverá.
Por favor, Srs jornalistas, parem de dizer (e escrever) "houveram", "haviam", etc.
De xpto a 7 de Maio de 2010 às 16:11
Gostei da crónica. Mas deixei de gostar do «i» qdo denunciou o autor do blog que denunciava as situações na DGCI (http://jumento.blogspot.com/2010/03/proposito-da-noticia-no-i.html). Para mim descredibilizou o jornalista e o jornal.
De EB a 7 de Maio de 2010 às 17:47
Exmo. Senhor,
Vamos esquecer os Senhores Jornalistas de quem podemos até não concordar com a atitude, mas DESCULPAR a atitude de alguém que representa o Povo Português (ou parte dele!!) e está num dos órgãos principais da DEMOCRACIA... Não posso deixar de pensar que estou perante um arruaceiro que pertence ao regime.
De Tiger Woods a 7 de Maio de 2010 às 17:50
Favor informar-se antes de disparar, ó Dona Laurinda:
http://www.conjuga-me.net/verbo-haver
De Margarida a 7 de Maio de 2010 às 18:45
Em que gramática é que estudou??!!! Aqui vai uma ajudinha: http://www.priberam.pt/dlpo/Conjugar.aspx?pal=haver
De Victor Sousa a 7 de Maio de 2010 às 18:53
Não ensinaram ao bloguista que o verbo" haver", quando usado como auxiliar de verbos, substituindo "ter", se conjuga em todas as pessoas. Quando o jornalista escreve "haviam nascido" escreve bem, como o teria feito se tivesse escrito "tinham nascido... Haveis percebido, caro bloguista?
De João Antunes a 7 de Maio de 2010 às 18:54
Cara Laurinda Correia, isso que disse é um verdadeiro disparate. O verbo "haver" é impessoal apenas quando pretende ser sinónimo de "existir". Mas reportando-se a este texto, o verbo "haver" é sinónimo do verbo "ter":
- «Quando ela chegou, eu já tinha ido embora» ou «Quando ela chegou, eu já havia ido embora»;
- (do texto) «Antes dele, vários projectos haviam nascido...» ou, também correcto, «Antes dele, vários projectos tinham nascido...»
Antes de criticar, convinha que se informasse, e nada tenho que ver com, (nem tão-pouco conheço), o jornalista que é autor deste blogue.
De Maria a 7 de Maio de 2010 às 18:54
haviam existe para quando está acompanhado com um sujeito.
deve rever os seus apontamentos!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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