Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
publicado por JN em 16/4/10



1.
Em Alvalade, e enterrado em definitivo qualquer interesse para esta temporada, impera estranhamente a calma. A quatro jornadas do final do campeonato, o Sporting está a um ponto apenas da maior diferença para o primeiro classificado registada este século. Com dois jogos difíceis ainda pela frente (um ao terreno de um adversário directo, a U. Leiria, e outro ao de um aflito, o Leixões), está ainda a um só lugar da sua pior classificação de sempre. E, porém, nenhuma pressa. O treinador, leio na imprensa, há-de estar escolhido até ao final do mês. “Há-de estar”. E nem sequer há um perfil definido: tanto se fala de Le Guen como de Scolari, de Domingos como de Tigana, de Manuel José como de Jorge Costa.


Chega a ser desesperante. Há cinco anos que este clube vem emitindo sinais alarmantes e há cinco anos que os seus responsáveis não ouvem tocar a campainha. Agora, a mesma coisa. Por esta altura, o Sporting não só devia ter um treinador, para desafiar o plantel, como esse treinador já devia andar no terreno à procura de jogadores. Assim como assim, a letra da cantiga já está escrita: “não há dinheiro”, “o investimento tem de ser rigoroso”, etc, etc. Mas, então, quando exactamente é a altura ideal para abordar os bons negócios? Quando os jogadores em final de contrato já estiverem no mercado, à espera da proposta mais alta? Quando os empresários das estrelas emergentes já andarem em périplo pela Europa, com uma caixa de DVD na mão?


Pois voltaremos a ficar com as sobras. Com novos Angulos, novos Pongolles – e, claro, uma série de miúdos imberbes vindos da Academia e do Real Massamá. Para o lugar de treinador há-de, entretanto, chegar “uma grande surpresa”, como anunciou José Eduardo Bettencourt antes da contratação de Carlos Carvalhal. E, naturalmente, em 2010-2011 estaremos na mesma. Ou por outra: estaremos pior, porque então já o V. Guimarães e a U. Leiria e o Marítimo e o Nacional nos farejaram as fragilidades, proibindo-se a si próprios de vender o quarto lugar pelo preço que o venderam este ano. Isto está bonito.


 


2. Entre os nomes que vão desfilando para o cargo de treinador do Sporting, deixo-o já aqui expresso, o meu preferido é o de Scolari. Primeiro, porque se trata do ditador de que precisamos. Depois, porque é um homem habituado à gestão de contingência – e no Sporting de 2010-2011, como no deste ano, vai ser preciso lidar com a imponderabilidade e com o caos.


Mas, claro, em Alvalade parece que há um “projecto”. Não tinham saudades desta palavrinha?


 


3. No balneário, lê-se nas declarações de Carvalhal, grassa entretanto a desmotivação. Os rapazes não queriam ter perdido com o Benfica – e, quando o árbitro poupou a expulsão a Luisão, demonstrando a “dualidade de critérios” com que o Sporting tão implacavelmente se vem debatendo, foram-se um bocado abaixo.


Muito claramente: Luisão devia ter sido expulso no derby da Luz. Muito claramente também: nesse caso, o Sporting podia até nem ter perdido com o Benfica, mas provavelmente não ganharia o jogo na mesma. E muito claramente ainda: não foi por causa dos erros dos árbitros que o Sporting fez a pior época de que há memória (embora possa ter sido, em parte, por causa dos erros dos árbitros e afins que o Benfica superou determinadas provas).


Felizmente para nós, e como muito bem o colocavam os jornais de ontem, os jogadores desejam ardentemente garantir o quarto lugar. Por causa do brio profissional? Sim, sim, claro. E também porque, jogando a terceira pré-eliminatória da Liga Europa, em vez da segunda, têm mais uma semana de férias...


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 16 de Abril de 2010

2 comentários:
De jorge espinha a 17 de Abril de 2010 às 09:14
caro joel

Que posso mais acrescentar? Tem toda a razão. Só nos resta esperar que Bettencourt saia do Sporting , mas por essa altura já poderá ser tarde demais? É confrangedora a falta de urgência com que a direcção lida com tudo.
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caro joel <BR><BR>Que posso mais acrescentar? Tem toda a razão. Só nos resta esperar que Bettencourt saia do Sporting , mas por essa altura já poderá ser tarde demais? É confrangedora a falta de urgência com que a direcção lida com tudo. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Scolari</A> ? Hummm , não sou fã . A única vantagem que vejo , é o Sargentão ser do tipo quero posso e mando, o tal ditador que tanto se espera . <BR>Em relação aos jogadores , se for para contratarem Pongolles e Matias Fernandez , é melhor ficarmos pelos putos do real Massamá
De CAMPEÃO NACIONAL a 19 de Abril de 2010 às 12:37
Sr. Joel deve estar doente tal como os seus amigos do Facebook que criaram o tal "o Glorioso não vai ganhar nada" não é?
E que tal criar outro "A depressão dos Anti-Benfiquistas por o Benfica ser CAMPEÃO NACIONAL". Tinha de certeza muitos aderentes a começar pelo caro Joel.
Saudações

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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