Domingo, 11 de Abril de 2010
publicado por JN em 11/4/10

Ontem de manhã havia vários voos do Porto Santo e da Madeira para os mais variados destinos – e neles, naturalmente, viajavam muitos dos jogadores que falharam o cut neste Madeira Islands Open. O ambiente era de alguma consternação. Para muitos dos profissionais presentes esta semana no arquipélago, o torneio madeirense é uma oportunidade de ouro: por um lado, tem um field limitado, mais acessível do que o normal; por outro, oferece uma isenção de um ano para a primeira divisão do circuito europeu, para além de um prémio monetário razoável.


Pois, à excepção de eventuais verbas negociadas com patrocinadores, nenhum dos 87 jogadores que falharam a qualificação para o fim-de-semana ganhou um tostão. Tudo não passou de prejuízo, no fundo: as viagens e as estadias, os materiais e os caddies, os snack e os próprios souvenirs. O que é especialmente grave nesta categoria de jogador, note-se. Alguns facturam tão pouco que têm de dividir o quarto com adversários. E outros preferem até ficar num apartamento, de forma a poderem ir ao supermercado comprar um frango grelhado para o jantar.


Foi por isso que me encantou aquela imagem, pois. Eram nove horas da manhã e os derrotados começavam a amontoar-se em frente Hotel Pestana, à espera do autocarro para o aeroporto. Até que, conferidos os minutos que ainda tinha de espera e o espelho que se formava na fachada do hotel pela existência de um vidro sobre fundo escuro, um deles voltou a abrir o saco dos tacos – e de imediato os restantes o imitaram, mergulhando no ensaio de sucessivos swings ao espelho, conferindo cada um deles um aspecto diferente do respectivo movimento e preocupando-se todos com a identificação do defeito que os mandara mais cedo para casa.


O golfe, já se sabe, é uma obsessão. Mas é também, ou mesmo sobretudo, trabalho. E o que nos mostram uma série de derrotados a ensaiar swings ao espelho, enquanto esperam pelo autocarro que os levará para longe do cenário do seu fracasso, são duas coisas. A primeira é que qualquer golfista, logo após a derrota, é corroído interiormente pelo desejo de voltar para cima do cavalo o mais depressa possível. A segunda é que a forma como sobe para cima do cavalo é de novo laboriosa, em mais um tributo desta maravilhosa modalidade à vontade indómita, à dedicação e ao mérito. É possível não gostar de um jogo assim?


COMENTÁRIO (especial Madeira Islands Open). O Jogo, 11 de Abril de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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