Sábado, 10 de Abril de 2010
publicado por JN em 10/4/10



O mundo da atracção nunca cessará de maravilhar-me – e, entre as coisas que me maravilham nele, a mais maravilhosa é talvez o fascínio por mamas grandes. Pessoalmente, sou um homem de rabos. O rabo, sim, é pecado puro e simples. Já as mamas (eu talvez devesse dizer “seios”, mas a palavra soa-me mal) são a maternidade na sua mais cabal acepção simbológica – e, embora não seja de excluir a existência de algum mistério em juntar o pecado e a maternidade numa mesma cobiça (sim, eu também vi Donas de Casa Desesperadas, sei bem do que se trata), esta é uma coluna de respeito e, portanto, não estão autorizadas aqui misturas.


O que importa é que, segundo um estudo que leio numa daquelas revistas fúteis que de vez em quando não resistimos a compr… perdão, a ler no consultório do dentista, dois terços dos homens, ao cobiçarem uma mulher, olham-lhe primeiro para o peito e só depois para as nádegas. Daí que se aceite, de alguma forma, a obsessão de tantas e tantas mulheres, gordas e magras, ricas e pobres, de meia idade e agora também jovens (e mesmo extremamente jovens) com a dimensão das suas “parteleiras”, para usar uma expressão cara aos alarves que entretanto assumem como público-alvo. O que é mais difícil de aceitar é a naturalidade, mesmo o desvelo, com que as mulheres que aumentam os peitos desvendam o enigma.


Ainda no outro dia vi Vanessa Oliveira, uma jovem e belíssima manequim portuguesa, portadora de uns extraordinários olhos verde-água e de um vago ar de surfista que só apetece raptá-la, metê-la numa cabana de praia na Austrália e pô-la a surfar só para nós, explicar tim-tim-por-tim-tim, nas páginas do Diário de Notícias, como decidiu aumentar os seios (pronto, vá, os seios), contactou médicos e fornecedores e ponderou métodos e dimensões até ir parar a umas mamas americanas que se implantam mesmo por baixo dos canais mamários e, portanto, lhe permitirão um dia engravidar, assim lhe sobrevenha a vontade.  E a minha estupefacção resume-se numa questão simples: mas, Vanessa, isso não devia ser segredo?


Porque, quer dizer, de que servem umas mamas grandes se, entretanto, toda a gente ficou a saber que tudo não passa de silicone, laser e costura à linha? Acaso, quando é elogiada pela sua bela dentadura, uma mulher se vira e informa: “Muito obrigado, mas é placa”? Porventura um homem a quem alguém elogie uma performance sexual respira fundo e suspira: “Muito grato, muito grato, mas não fui eu, foram os comprimidos”? Pois eu não vejo como os peitos postiços possam ser diferentes. Uns peitos postiços não podem ter outro desígnio senão despertar urgências de profanação ainda maiores. São uma ilusão. Ora, como todos sabemos, no momento em que o ilusionista desvenda o seu truque, a magia perde todo o encanto. E, ademais, ninguém quer profanar um pedaço de borracha.


Naturalmente, o que aqui está em causa é de novo uma questão classista, um arrivismo social, muito mais do que esta nova mania para que todos os mistérios do sexo, do desejo e das emoções em geral sejam manipulados e esclarecidos com a “maior das naturalidades”. O que está em causa é estas senhoras e estas meninas poderem dizer à vizinha do lado, à colega de escola ou à ex-mulher do novo marido que elas, sim, têm dinheiro e desembaraço e mente aberta suficientes para se fazerem ao Firefox, procurarem aqueles doutores todos, inclusive os mais caros, e obrigarem-nos a transformá-las em monumentos à fecundidade, às capas de revista e aos filmes do canal Venus.


Pois só é pena que, como ainda há dias admitiu Carmen Electra, “actriz” norte-americana que no passado teve a infeliz ideia de adubar os seus peitos perfeitinhos, venham muitas delas a chorar o par de melões, na certeza de que, agora, tirar de lá a borracha, a gordura extraída do rabo ou o que quer que tenham posto por baixo dos canais mamários as deixará com dois sacos de plástico vazios ao peito, com graves consequências para a qualidade do bronzeado e, aliás, para o grau de sofreguidão do marido, do namorado e/ou do vizinho da frente agora já tão saudosos de fechar a mão em conchinha e poderem arrebanhar de um só golpe toda a fertilidade delas.


Enfim, restam-lhes os anti-depressivos. O que vale é que esta indústria sempre soube adaptar-se aos imperativos da economia dinâmica. No mais, e como tara, não me pronuncio. O Denny Crane também andou dois episódios à procura de uma mulher com uma perna de pau – e, no fim, não se queixou de nada. Mas eu prefiro não ir por aí. Há alçapões na alma de um homem que é melhor não abrir.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 10 de Abril de 2010

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5 comentários:
De Rogério Pereira a 10 de Abril de 2010 às 19:24
Brilhante texto.
Talvez não passe de mais uma moda, mas parece que o gosto pelas coisas naturais está a voltar(http://rogerio-pereira.blogspot.com/2010/04/curvy-girls.html).
De Manuel da Silva Carvalho a 10 de Abril de 2010 às 23:35
Para onde olho primeiro quando vejo uma mulher? Não não é para os seios, primeiro olho para a cara, os olhos em particular, depois sim olho para os seios, seguido das pernas e por fim do rabo. Nessa altura faço a apreciação global onde também conta o caminhar. Mas isto é a atracção física, a parte seguinte e muito mais interessante é conhecer essa pessoa, que maneira de ser tem, se é simpática, divertida, se os nossos gostos se encaixam, se temos prazer em falar e escutar um ao outro, isso é atracção sentimental.
Como é claro as duas componentes têm que existir, no meu caso têm que estar equilibradas, é claro que muitos homens e mulheres muitas vezes só olham à atracção física, esquecendo a outra parte, no caso dos homens porque querem é dar uma queca, no caso das mulheres porque apesar do que dizem ligam muito ao aspecto físico.
Se só estivesse interessado numa queca era evidente que a atracção física seria a única coisa que me interessava, ou como dizia um colega meu, eu só quero é curtir, o que ela pensa ou faz não me interessa para nada.
Quando se quer um relacionamento mais profundo procura-se conhecer a outra pessoa, e algumas vezes temos surpresas desagradáveis, a maneira de ser não encaixa na nossa, ou certos aspectos do seu carácter desagradam-nos. Já conheci algumas mulheres que se apaixonaram só olhando à parte física e se deram mal com isso. Mas muitas vezes não controlamos o amor, ele é incontrolável, e apaixonamo-nos por quem não devíamos ou podíamos.
Engraçado, eu gosto muito de olhar nos olhos uma mulher, diz muito sobre o que lhe vai na alma, e muitas vezes perco-me neles, alguns são como o céu, outros como o mar, e alguns infelizmente como uma noite escura. Definitivamente os olhos são o que mais me atrai numa mulher. Devo estar maluco em não escolher os seios, as pernas ou o rabo, mas o que se há-de fazer, essas partes vêm mesmo a seguir...
De Nêta a 11 de Abril de 2010 às 22:29
Já lhe passou pela cabeça que a moça tenha divulgado a «notícia» a troco de um desconto (ou mesmo para não pagar um tusto), devidamente negociado com o médico/clinica? Se calhar até ela concorda consigo que há coisas que não se comentam, mas às vezes outros valores, por assim dizer, se levantam...
De Esperança a 13 de Abril de 2010 às 21:30
Parabéns Joel pelo excelente texto – concordo plenamente consigo!
Vejo frequentemente um programa Americano na TV aonde se vêm parvitas de 22 anos que já vão no 3º ou 4º implante mamário...quando os médicos retiram o silicone lá de dentro a pele fica como a pele que se tira da galinha, mas escura com um aspecto horrível – que loucura!
Depois andam por ali só a falar nos boobs ” como quem fala do chupa-chupa, a mostrar as bolas de silicone, etc., etc., Cada vez são mais jovens e não tenho pena nenhuma das consequências que virão a ter! Que ostentação tão ridícula!
Esperança Melo
De Blondewithaphd a 16 de Abril de 2010 às 14:24
Bom... ele também há as que fazem ao invés e reduzam a sua pródiga generosidade natural. E depois, bem, depois há as parvas que se móem no ginásio a ver se aquilo não sucumbe à gravidade...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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