Sábado, 3 de Abril de 2010
publicado por JN em 3/4/10



O que torna a história de Luís e Cristina num epítome do tempo em que vivemos não é a estupidez. Toda a vida esta espécie foi estúpida – e se, tendo sido pobres a vida inteira, os ex-namorados de Barcelos não se entendem quanto aos 15 milhões de euros ganhos no Euromilhões, pois mais não fazem do que honrar essa ancestral estupidez. Tampouco o que torna a história num epítome deste tempo é a ganância. Toda a vida esta espécie foi gananciosa, mais até do que estúpida – e se, podendo ficar de repente rica de 7,5 milhões, a jovem Cristina prefere vexar-se em tribunal na tentativa de ficar rica de 15, pois mais não faz do que ascender umas quantas posições nesse longuíssimo campeonato da ganância que há tantos anos disputamos.


O que torna a história de Luís e Cristina num epítome deste tempo, na verdade, nem sequer é o recurso a tribunal a seguir ao prémio: é a atmosfera em que, antes dele, a aposta se realizou. No dia em que jogaram no Euromilhões, Luís e Cristina tinham vinte e tal anos e eram namorados. Ela já trabalhava, ele estava a acabar o curso. E, no entanto, segundo Cristina, não havia um só projecto em comum – nem sequer uma mísera aposta num jogo social. A acreditar na versão dela, que aliás parece começar a prevalecer em tribunal, Cristina apenas mandou Luís introduzir aquele boletim porque não tinha tempo para fazê-lo ela própria. Quanto ao futuro, isso era cada um por si. Casar? Comprar uma casa? Criar uma família? Construir uma carreira? Crescer? Ah, isso não: só temos vinte e tal anos – é muito cedo para pensar nessas coisas.


Luís e Cristina são uns pobres diabos e não vão deixar de sê-lo nunca, fique quem ficar com o dinheiro. Mas são uns pobres diabos por serem iguaizinhos a tantos outros rapazes e raparigas de vinte e tal anos – mesmo de trinta e de quarenta – para quem o futuro, a vida adulta e a responsabilidade são imposições tão distantes que nem sequer existem ainda. Pessoas assim não deviam poder apostar no Euromilhões. Pessoas assim não deviam sequer poder votar, ter filhos ou mesmo comprar um automóvel. Infelizmente, é a isto que estamos entregues: a uma geração de madraços que hão-de ficar em casa dos paizinhos até aos 35, a jogar PlayStation e a comer jardineira às sextas-feiras. Na verdade, Luís e Cristina mereciam-se – e oxalá acabem todos, eles e aqueles que os educaram, sem um tostão sequer, depois de explorados até ao tutano pelos advogados, pelos gestores de conta e pelos fundos de investimento.


 


Todas as semanas os ouço: “Lá para trás, se faz favor”, “No fundo da sala, menina”, “O mais longe do ecrã possível, pelas alminhas do purgatório.” Sessentões iniciados à sétima arte nos tempos de Marilyn: “Última fila, minha senhora!” Miúdos de 20 anos que ainda mal construíam frases no ano d’O Rei Leão: “Última fila, última fila, última fila”. Aparentemente, é assim que os portugueses gostam de ver cinema: com o ecrã lá bem ao fundo, como se fosse uma televisão.


Para mim, confesso, é óptimo: fico sempre entre a segunda e a quarta filas, consoante a sala – e, com a malta toda lá atrás, sempre me livro dos comentários de quem gosta de assinalar um momento de tensão com uma piada tonta ou de desmontar uma anedota com uma explicação óbvia, de forma a que os ignorantes em volta também percebam o mistério. Mas só recentemente, ao lembrar-me de quando era adolescente e ia de autocarro para a escola, percebi o que está em causa.


E o que está em causa é, de alguma forma, a recuperação da infância: a recuperação daquela viagem que fazíamos estrada fora, sentados na última fila da camioneta, a mandar piropos lá para a frente, a fumar às escondidas e apalpar os rabos das raparigas levianas que, naquele seu jeito de fiz-que-fui-mas-não-fui-e-acabei-fondo, se sentavam na segunda e na terceira filas a contar do fim. No fundo, é isso, para muitos portugueses, uma ida ao cinema: uma oportunidade para mostrar o quão engraçados, cool e despachados ainda são (afirmação que, aliás, reforçam no fim do filme, saindo uns segundinhos antes, como se houvessem ido ao futebol e tivessem deixado o carro estacionado em segunda fila).


O que está bem na mesma, claro: o cinema é uma das grandes referências da cultura pop – naturalmente, também serve de plataforma à socialização, por muito primários e serôdios que nos pareçam alguns dos mecanismos desta. Mas alguém se pergunta ainda porque é que tanta gente insiste em defender que ver os filmes na sala ou no DVD é “exactamente a mesma coisa”?






“Na verdade, Luís e Cristina mereciam-se – e oxalá acabem todos, eles e aqueles que os educaram, sem um tostão sequer, depois de explorados até ao tutano pelos advogados, pelos gestores de conta e pelos fundos de investimento.”


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 3 de Abril de 2010

tags:
1 comentário:
De Manuel da Silva Carvalho a 4 de Abril de 2010 às 11:18
E...temos, pela segunda vez consecutiva, uma crónica bipartida e de tal maneira que temos, no final de cada parte, uma pescadinha com rabo na boca, no blogue ou seja “Na verdade, Luís e Cristina mereciam-se – e oxalá acabem todos, eles e aqueles que os educaram, sem um tostão sequer, depois de explorados até ao tutano pelos advogados, pelos gestores de conta e pelos fundos de investimento.” Aspas, aspas. Cristina Simões e Luís Ribeiro amaram-se até ao sábado em que ganharam o Euromilhões. Nesse dia, em vez de a grande sorte europeia criar dois excêntricos, levou a que o casal de namorados se zangasse por causa da fortuna. Seguiu-se o cataclismo. Desde Fevereiro de 2007 que o agora ex-casal se encontra em tribunal e decide-se a repartição da fortuna que provocou o fim de um amor, o congelamento da conta bancária, um casamento frustrado, e duas famílias sedentas de sangue. Se não fosse o Euromilhões talvez já estivessem casados. À parte os prognósticos de professor Karamba , parece que entrou o Diabo no corpo de. Foi Lúcifer. Para nós, os portugueses, o inferno nunca foram os outros; o inferno sempre foi a fortuna dos outros e, frequentemente, a nossa. Nunca soubemos lidar com dinheiro, nunca aprendemos a tê-lo em excesso do suficiente para subsistir. Se, por acaso, temos mais do que precisamos, a vida transforma-se num totoloto existencial e pós-moderno em que vale praticamente tudo: mostrem a mala cheia a um português e eis um mafarrico para desafiar todo o bom senso. A verdade é que o Euromilhões nunca devia ter chegado a Portugal, e muito menos a Barcelos. Quando, daqui por muitos anos, sentado no descapotável à porta de um palácio pré-construído nos arredores de Barcelos, Luís se perguntar o que será feito de Cristina, e esta, sentada no descapotável à porta do salão de beleza que abriu , se se perguntar o que será feito do Luís, talvez compreendam a inutilidade gananciosa da disputa. Por uma fortuna que os desviou do amor, mas que não pode desviá-los da morte que está sempre certa: essa acontece a ricos e a pobres. Houve uma altura em que ir ao cinema era absorvente. Foi um período de tempo em que se tinha a idade certa, havia salas boas, o surround estava acabado de lançar, os filmes deixaram de ter intervalos e poucas pessoas tinham telemóvel. Depois as coisas começaram a piorar e hoje em dia, sinceramente, já se é difícil decidir entre ir ao cinema ou fechar as cortinas em casa e ver um blu-ray na sua televisão. Hoje em dia ir a uma sala de cinema talvez já não seja uma experiência cinéfila, mas um exercício de abstracção, nas primeiras ou últimas filas. Para nos concentrarmos num filme e nos sentirmos imersos na nossa fantasia somos obrigados a ignorar casais em amena cavaqueira, jovens a mascar as suas pipocas e sorver as suas pepsis, pessoas com vidas sociais intensíssimas atendendo chamadas telefónicas, luzinhas e painéis LCD brilhando no escuro a toda a hora e… intervalos. Mas, caramba, sempre foi assim, com ou sem telemóveis, com ou sem pipocas. Nós, com a idade é que vamos perdendo a paciência.

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
pesquisar neste blog
 
arquivos
livros de ficção

"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
Porto Editora,
2012
Saber mais


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas",
CONTOS,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE,
Editorial Presença,
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO,
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa
CRÓNICAS,
Porto Editora,
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português",
OBRA COLECTIVA,
Círculo de Leitores,
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)",
CRÓNICAS,
Esfera dos Livros,
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor",
BIOGRAFIA,
Publicações Dom Quixote,
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor",
CRÓNICAS,
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui