Quarta-feira, 1 de Abril de 2009
publicado por JN em 1/4/09

No outro dia, bati no fundo. Estava no buraco 16 do campo de golfe da Ilha Terceira – e estava aflito. Desafiado para um match play gross com um handicap 13 (portanto quatro pancadas mais frágil do que eu, segundo os cálculos da EGA), trazia ainda um buraco de vantagem. Mas tinha feito quatro acima nos últimos seis buracos, quase estragara de vez uma vantagem que chegara a ser confortável – e, como se isso não bastasse, na club house esperava-nos a Ana, namorada dele e colega de trabalho minha, afiando a língua para destruir a reputação do derrotado.

E, então, o diabo decidiu transformar em arte a obra que vinha operando através de mim. Como de costume, meti a bola nas árvores. Como de costume, fiquei sem backswing. Como de costume, a bola aninhara-se num lie impossível. Como de costume, não havia linha para a escapatória. E, no entanto, o shot não foi como de costume. Foi pior. Muito pior. Medroso, eu tivera o cuidado de deixar o trolley a mais de quinze metros de distância da confusão. Mesmo assim, a bola bateu na última árvore que precisava de transpor e encaminhou-se para o trolley, ameaçando penalizar-me em mais duas pancadas – e, não contente com isso, ainda entrou caprichosamente pelos estreitos orifícios através dos quais se armazenam os tacos no saco.

Nunca mais acertei uma pancada, claro. Perdi 2 down. E, naturalmente, ouvi a Ana durante uma semana.

Há uma três ou quatro meses que ando assim. Bato na direcção de uma árvore – e, de todos os sítios onde ela podia bater, escolhe exactamente aquele que a remete para o mato. Jogo para a ilharga de um bunker, julgando-me seguro – e, como se o bunker tivesse algum poder de atracção sobre ela, a bola sofre um kick na direcção dele, rola até ao lábio mais próximo, aguenta-se uma segundo, como que a despedir-se, e mergulha. Atiro sobe um lago, utilizando desde logo um ferro a mais para pôr-me a salvo de aflições, e lá se levanta uma ventania de proporções bíblicas, fazendo a bola parar a meio e, qual Coiote apanhado nas armadilhas que ele próprio armara ao Bip-Bip, olhar para trás, acenar nervosamente e despenhar-se nas águas.

Às vezes olho para cima, semicerro os olhos e pergunto, em surdina: “Eli, Eli, Lama sabachthani?” Meu Deus, Meu Deus, porque me desamparaste?  Mas é apenas impulso irreprimível – em poucos instantes volto a baixar a cabeça. Não é Deus o culpado – é o diabo, insisto. E, à cautela, sempre evito que um pássaro me defeque lá de cima no rosto. Aliás, já voltei a usar boné também.

Das primeiras vezes que dei conta desta angústia aos meus amigos, lamentando-me por cada um dos meus erros se desmultiplicar sempre em pelo menos duas pancadas de prejuízo, as respostas foram as esperadas: “Pois não batas na direcção das árvores”, “Mas, então, porque é que jogaste para a ilharga do bunker?”, “Da próxima usa dois ferros a mais…” Toda a razão. Mas o problema é que, se não entrar no bunker, a bola entra no lago. Se não entrar no lago, vai out of bounds. Se não for out of bounds, esconde-se num rough que repente parece ter crescido meio metro desde o dia anterior. E para além disso, se eu jogo sempre na direcção das árvores, não é por não querer jogar para o meio. Quem me dera jogar para o meio. Mas quem me dera também lembrar-me sequer de onde o meio fica.

“Tive um colega que também andou assim imensos meses. Acabou opor desistir”, passaram entretanto a responder-me os meus amigos. E por ali vão eles, recordando as histórias: o colega percebeu que dava uns toques, apaixonou-se pela coisa, passou a fazer do jogo a principal evasão da sua semana, melhorou drasticamente o handicap, começou a ter dificuldades em segurá-lo, não tardou a queixar-se dos bounces e dos kickes e dos azares em geral – e, a certa altura, arrumou os ferros na garagem e foi jogar poker.

Pois uma coisa quero eu deixar clara: daqui ninguém me tira. O golfe anda a testar os meus limites – e para isso, aparentemente, tanto se alcandora dos Céus como dos Infernos. Mas mais depressa se me falha o coração do que deixo isto. Demore-se o AVC que tenho prometido e hei-de morrer batendo. E, quando deixar de bater, ainda assim irei empurrando.


CRÓNICA DE GOLFE ("Tee Time"). Jornal do Golfe, Abril de 2009

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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