Sábado, 27 de Março de 2010
publicado por JN em 27/3/10

Têm toda a razão, as vítimas dos actos de abuso sexual perpetrados por clérigos católicos ao longo das últimas décadas: uma carta de Bento XVI, mesmo pejada de actos de contrição e de termos criteriosamente escolhidos para oferecer-lhes ressonância (“vergonha”, “traição”, “desonra”), não é suficiente para apagar décadas de persistentes violações, muito menos para tranquilizar-nos quanto à inexistência de um número exponencialmente maior de casos semelhantes ao longo dos séculos. Mas é preciso reconhecer que nenhum outro papa se preocupou tão claramente em erradicar essa abjecta tentação de transformar a promessa de conforto espiritual num cavalo de Tróia para o vício, às vezes com a complacência da própria estrutura eclesiástica. Nem sequer João Paulo II, o bem-amado, ao longo de cujo mandato surgiram denúncias semelhantes dos quatro cantos do planeta.


Quando Joseph Ratzinger foi eleito, em 2005, vimo-lo como um perigoso mensageiro da não-espiritualidade, com mais do que prováveis prejuízos para a redenção da espécie. Hoje, cinco anos passados, é difícil olhá-lo como outra coisa que não um milagre. Em João Paulo II, cuja ânsia de arrastar multidões se sobrepunha a quase tudo o mais, a divulgação da mensagem era o único bem – e os abusos sexuais, os desvios de colectas ou mesmo os patrocínios (ainda que passivos) a ditadores sanguinários protagonizados por seus representantes eram como que danos colaterais no caminho em direcção a esse desígnio supremo. Bento XVI, pelo contrário, sabe o que é missão, sabe o que é política e sabe o que é justiça. Há algo de inevitavelmente cerebral no seu pontificado, mesmo quando se trata de modernizar os mecanismos de comunicação do Vaticano (como a adesão às redes sociais, a eleição dos melhores discos da história da música pop ou mesmo apenas o uso de paramentos mais fashion). Mas o facto é: Ratzinger, sendo um intelectual ortodoxo, tem uma dimensão humana que Karol Wojtyla nunca mostrou.


Se, entretanto, sacrificou parte do papel que Deus representava no mundo contemporâneo, isso já é outra conversa. Mas, caramba: nós precisaremos mesmo de tanto Deus quanto tínhamos há dez anos?


 


A celebração de mais um Dia Mundial da Poesia serviu de mote a novas lamentações por parte dos editores portugueses: exceptuando meia dúzia de clássicos e dois ou três consagrados, a poesia simplesmente não se vende, o que é ainda mais difícil de encaixar quando se verifica que Portugal não só ostenta o epíteto de “país de poetas”, como o justifica amplamente. O lamento enferma de um equívoco original: a ignorância de que os poetas e os leitores de poesia são uma e a mesma entidade. E o primeiro problema que se põe é tão prosaico como o de perceber que, enquanto o Homem for apenas Homem e o tempo este furioso contínuo, não há como um indivíduo fazer duas coisas ao mesmo tempo.


Todos os dias me cruzo com poetas. Encontro-os no supermercado, na day time TV, na Internet, nos próprios livros. Lêem-me coisas que escreveram, cantam-me canções em que andam a magicar, citam-me aforismos que decidiram tornar seu cartão de visita. Alguns são magníficos, fazendo do dia a dia um constante tributo à procura de novos horizonte para a palavra. Outros são pobrezinhos, deslumbrando-se com os seus próprios versos atamancados, fracassando reiteradamente na identificação daquilo que querem exprimir e ignorando, inclusive, que ser incapaz de identificá-lo é poesia também. Mas todos eles são dotados de uma mesma ansiedade: a de lidar com as suas emoções e, de alguma forma, levá-las a transcender (a elas e a si próprios) a chamada espuma dos dias.


Pois é essa a suprema poesia: a urgência de vencer o tempo, de vencer a morte – e se isso se faz lendo Walt Whitman ou ouvindo os cantadores populares, escrevendo rima cruzada ou compondo odes monumentais é, bem vistas as coisas, o menos relevante. Na verdade, escrever poesia, mesmo da má, é tão importante como lê-la. Nem tudo neste mundo é beleza. Quanto ao resto, e se os poetas “a sério” não conseguem vender livros, a explicação é de novo prosaica. A poesia tem, em relação à ficção, uma grave desvantagem mercantil: a sua dimensão lúdica é infinitamente menos transversal. A poesia nunca deixa de ter uma história, mesmo que difícil de decifrar, mas quase nunca dispõe de uma intriga. E essa intriga, digam o que disserem os puristas, de maneira nenhuma é de somenos. O entretenimento nunca confortou menos corações do que a arte. O número também conta – e, aliás, não há corações melhores do que outros.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 27 de Março de 2010

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3 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 29 de Março de 2010 às 00:27
Presumo que pela primeira vez a crónica semanal "Muito Bons Somos Nós" é bipartida em dois temas completamente distintos e apesar de pedofilia e poesia rimar mas não conjugar. Eventualmente poderá ser uma achega ou sugestão para próximas temas que poderiam ser mais curtos e concisos, talvez despertando maior interesse e prender mais o leitor aos temas. A ponderar...

A poucos dias de completar 83 anos de idade e cinco como sumo pontífice, Bento XVI enfrenta a pior mancha da Igreja Católica e pede desculpa às vítimas de abusos sexuais em carta pastoral dirigida aos católicos irlandeses. Os sucessivos escândalos de pedofilia dos últimos tempos geraram uma crise de confiança e de credibilidade da igreja católica junto dos seus fiéis. As acusações de passividade e encobrimento dos crimes atingem bispos e as mais altas hierarquias do episcopado e apelam para medidas mais claras, enérgicas e eficazes contra os criminosos e para justiça às vítimas. Após denúncias sucessivas de abusos sexuais de crianças e jovens na Irlanda, nos Estados Unidos da América, Alemanha, Holanda, Áustria, Suíça e, há dias, no Brasil, os católicos exigem explicações sobre os crimes que envolvem sacerdotes e religiosos. Embora o Vaticano tenha vindo a público acusar “tentativas para minar a confiança dos fiéis na igreja”, o facto é que as denúncias de pedofilia sucedem-se e multiplicam-se por vários países do mundo. Ao mesmo tempo, as hierarquias superiores da igreja são acusadas de, há muito, conhecerem e encobrirem os abusos, num silêncio cúmplice que só serviu para perpetuar o problema.
Há bem pouco tempo vimos a forma como a igreja portuguesa foi tão feroz na sua cruzada contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e contra a homossexualidade, vimos e ouvimos bispos e cardeais a bater no peito como guardiãs da instituição família e até o Papa veio a terreiro falar do assunto. Então e se antes de virem a publico falar da família e pretender dar pretensas lições de moral, eles se debruçassem sobre o que há de errado na sua própria instituição de modo a que este tipo de coisas não aconteça?

E porque a poesia faz parte da vida de muito boa gente (quase como de um alimento se tratasse) deixo aqui este poema que dedico a todos que gostem ou não da poesia:

Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"




De linda a 5 de Janeiro de 2017 às 15:30
TESTEMUNHOS
As orações são obrigatórias para cada ser humano na superfície da terra.
Isaías 62: 6-7 o senhor deu um comando aos homens sobre como rezar mais duramente em todo o tempo. Eu pus o watchman sobre as paredes O Jerusalem que nunca manterão sua paz dia ou noite.
Foi muito difícil para mim acreditar que Deus existe? Meu nome é LINDA BARNETT CARLTON Estéril há 45 anos, sem filhos e eu também estava tendo dificuldades em meu casamento.Estes são os testemunhos da minha vida.Eu estava procurando através da Internet, me deparei com Pastor .Enoch .A Adeboye [disse que você será feito Todo], Este artigo foi publicado por um de seu Pastor [PST.WILLIAMS OKODUDU EM] Eu entrei em contato via REDEEMEDCHRISTIANCHURCH81@GMAIL.COM
Ele me disse que E.A .Adeboye é o fundador / General oversear da Igreja cristã redimida de Deus [RCCG]
Enviei um email ao pastor WILLIAMS OKODUDU E.M
Eu disse-lhe muito de meus problemas, disse que o DEUS é impressionante e disse-me que está indo por 3 [três] dias jejum seco para mim, dentro dos próximos 2 [dois] meses. Eu fui ao hospital ver um doutor, Ele confirmou que estou 3 [três] semanas grávidas e também Deus prendeu meu marido, a Deus seja a glória que ele nasceu de novo cristão. Hoje tenho dois filhos.
Você pode entrar em contato com Pastor WILLIAMS OKODUDU @ REDEEMEDCHRISTIANCHURCH81@GMAIL.COM
ASSESSORIA E ORAÇÕES
Você está quebrado, querido ou confuso
Você está passando por experiências difíceis e você precisa de conselhos e encorajamento?
Você está tendo alguns assuntos espirituais que você precisa de clareza?
Existem algumas questões sexuais e emocionais com as quais você está lutando?
Milagres e cura
Sobrenatural vire através de ganhar alma
Deliverance's, Unção e solução
Interrupção financeira
DEUS É A ESPERANÇA E NOSSO SALVADOR -
-------------------------------------------------PST WILLIAMS OKODUDU EM
Quero agradecê-los especialmente em nome do senhor, do amor e da permissão amável para convidá-los a compartilhar meus maiores testemunhos ea dar honra a Deus onipotente
De Blondewithaphd a 29 de Março de 2010 às 17:41
Ratzinger é alemão, acho que isso diz muito (não é que eu tenha algo contra os alemães até porque sou alemã), mas, mesmo assim, continuo sem lhe identificar uma marca distintiva no pontificado que não passe pela minha suspeita do seu hiper-racionalismo, a sua cuidada diplomacia e a sua reluctância em abandonar a torre de marfim do Vaticano. E continuo a achá-lo o Cardeal Ratzinger ao invés do Papa Bento (of all names!!!) XVI. Apesar de tudo, gostei imenso de ler este texto.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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