Sábado, 28 de Março de 2009
publicado por JN em 28/3/09

Há alguma coisa em Marta Crawford que me atrai – e há algo que, inevitavelmente, me repele também. O que me atrai é o seu profissionalismo como comunicadora, a sua experiência como terapeuta, a sua imensa sabedoria sobre cada um dos pormenores da sexualidade, incluindo o diâmetro exacto da mais pequena região erógena do corpo humano, a cronometragem ideal das diferentes fases dos preliminares perfeitos e todas as pedrinhas que rodeiam esse mapa do tesouro que é o caminho para o chamado ponto G. E, curiosamente, o que me repele nela é a mesmíssima coisa.

Vejo Marta Crawford sozinha no estúdio da TVI24, dialogando pacientemente com senhoras de 65 anos que lhe telefonam para confessar que se masturbam todos os dias e rapazes provocadores que a gozam com histórias em que sodomizam rapariguinhas do liceu, e rendo-me às evidências da sua solidez técnica e do seu à-vontade coloquial. Ouço-a descrever como se deve fazer sexo anal, do clister prévio para desentupir o cólon descendente à lenta introdução da glande, incluindo o despiste da existência de problemas hemorroidais, a estimulação preliminar do esfíncter com um dedo (e depois dois), a cuidadosa unção do orifício com o lubrificante escolhido e a discussão com a parceira (ou o parceiro, que sei eu?) sobre o momento em que finalmente se encontra tudo a postos para a investida, e já nem com citrato de sildenafila ia onde quer que fosse.

A primeira limitação é de ordem prática. Até para o mais simples coito na velhinha pose de missionário Marta Crawford parece ter uma check list. Só decorar aquilo tudo já seria o cabo dos trabalhos – e depois ainda era preciso ir dando baixa dos passos cumpridos, como quem vai fazendo vistos na lista do supermercado. Da primeira vez que fiz sexo depois de um programa de Marta Crawford, parecia que a tinha sobre o meu ombro, sussurrando: “Agora faz assim. Isso. Agora faz assado. Com calma. Muito bem. Agora, vá, o truque que eu te ensinei. Sem pressas. Boa, miúdo! Agora o abracinho, agora o abracinho… Excelente!” Ao fim de cinco minutos estava com os nervos em franja – e, se não desatei ao pontapé à mobília, foi porque me encontrava descalço, que apesar de tudo ainda há regras que cumpro por experiência própria.

E, no entanto, há outra limitação ainda maior: o grafismo. Ou o excesso de informação. Vejo um programa de Marta Crawford e deixa de se me escapar o que quer que seja sobre uma cópula, um cunilingus, um onanismozinho que seja. Ora, talvez o bom sexo possa dispensar-se da transgressão. Cada  vez acredito mais nisso: pode efectivamente haver bom sexo sem pecado. Mas não pode, nunca pôde nem nunca poderá, haver bom sexo sem mistério. Se muitos casais perdem o desejo ao fim de alguns anos, é porque o mistério desapareceu. Se outros tantos o mantêm latejante ao fim de várias décadas, é porque encontraram uma forma de reinventar o mistério. Feitas as contas, tem de haver sempre alguma espontaneidade – até alguma pressa, alguma urgência. E o melhor, apesar de tudo, é que o sexo seja muitas vezes bom e todas as restantes apenas assim-assim. No exacto instante em que for perfeito perderá dois terços do interesse, se não o interesse todo. Da próxima já não poderá ser melhor.

É claro: quatro quintos dos portugueses discordarão aberta e ostensivamente disto. Nos estudos sociológicos e nas conversas de café, nas telenovelas e nas reportagens “do social”, não encontro outra coisa senão atletas sexuais – e nenhum atleta sexual alguma vez poderá ser surpreendido a aceitar que a sua última sessão foi apenas assim-assim (e muito menos que a próxima poderá ser assim-assim também). Pois a eles, mais do que a quaisquer outros, assentam que nem uma luva os programas da doutora Crawford e mais a sua fleuma, as suas desmistificações cavalgantes e a sua maior-das-naturalidades. Se para alguma coisa servem os programas de Marta Crawford, é precisamente para acalmar os nervos àqueles a quem o sexo mete tanto medo que em nenhum instante conseguem fugir a recordar as façanhas da pós-adolescência.

Quanto ao resto, interessa-me muito pouco a possibilidade de discutir sexo com os meus pais, em frente à televisão, como se tudo não passasse da fricção de dois pedaços de carne  recheados de terminações nervosas cujas vibrações são comunicadas ao cérebro através do sistema nervoso central, provocando enfim o orgasmo. Eu ainda acho que um orgasmo é mais do que isso – e a última coisa que me apetece saber é se os meus pais o sabem também.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 28 de Março de 2009

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1 comentário:
De ana celeste mendes a 10 de Agosto de 2009 às 11:17

As explicações científicas para o acaso do amor e do sexo, da atracção, da repulsa, da amizade, e de mais um monte de coisas, parecem contribuir menos para um conhecimento necessário e estruturante e mais para um generalizado sentimento de desencantamento do mundo, potenciador de angústia e da tentativa desesperada de se encontrar um sentido para vida que, diariamente, os cientistas reduzem a questões de hormonas, realidades fisiológicas e fenómenos físico-químicos intrínsecos à matéria. A atracção resume-se a um bando de feromonas que escolhe os parceiros por motivos exemplarmente estudados e passíveis de desconstrução científica; as crises histéricas e birras femininas ao descontrolo das hormonas que, pelo menos uma vez por mês, legitimam o mau feitio; a escolha das parceiras pelo rácio anca/cintura que, dentro de um determinado padrão, asseguram um belo nível procriador; a vida, à fusão óvulo/espermatezóide e a morte ao fim da matéria. Para lá disto, não há nada. Vá lá que a ciência ainda não se predispôs a atribuir uma razão para a poesia e para a literatura. Deus nos livre desse dia. Cristo...

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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