Sábado, 7 de Março de 2009
publicado por JN em 7/3/09


Apreciador da companhia masculina, universo que sobre todos os outros tem a vantagem de não julgar cada um dos meus vícios de comportamento como defeitos de carácter (e, aliás, expressões de machismo), sou confrontado com cada vez mais convites para jogar póquer. Tenho rejeitado. Se alguma coisa a vida me ensinou, foi que, no final, a casa ganha sempre – e, para além disso, de cada vez que me apetece passar meia dúzia de horas no meio de três ou quatro tipos ansiosos por falar alto, beber cerveja e arrotar em público, acabo por preferir um churrasco pela tarde dentro ou um jogo de golfe pela manhã fora, actividades que apesar de tudo me remetem para outro lugar que não o mesmo em que se desenrola a tantas vezes insuportável rotina urbana.


Ouço alguns dos meus amigos falarem com paixão das suas “noites de póquer” e lembro-me invariavelmente das minhas próprias noites a jogar Match Day ou Grand Prix, vividas ao longo de uma adolescência excessivamente comprida, que de resto cheirou de mais a chulé e de menos a Chanel Nº 5. Não há volta a dar-lhe: o póquer, para mim, cheira a chulé – e o diabo seja cego, surdo e mudo se eu não hei-de ainda voltar a convencer os meus amigos recém-convertidos ao jogo das virtudes de um acamaradamento mais telúrico e vigoroso.


Por outro lado, poucas outras modas me parecem providas de tantas possibilidades metafóricas para o tempo que vivemos como o póquer. Recuperado pela televisão, que de conseguiu identificar a existência de um espaço nas audiências para não-espectáculos cujo ponto mais alto é o momento em que um gordo barbudo, de boné e óculos escuros, vira os cantos a duas cartinhas enquanto as esconde dos adversários com a mão direita em concha, o póquer vai adquirindo cada vez mais adeptos entre os da minha geração – e sobretudo entre os das gerações a seguir à minha. De Norte a Sul, do Ocidente ao Oriente, da velhas economias falidas às chamadas “potências emergentes” – por todo o lado as transmissões televisivas do jogo dos full houses e dos straight flushes vai alternando nas conversas, nos programas de sexta-feira à noite e nos fóruns de Internet com relatos apaixonados sobre a disputa do jogo dos full houses e dos straight flushes entre amigos.


E eu, por muito que tente, não consigo deixar de ver aí uma consequência mais ou menos lógica para esta esquizofrenia em que nós tanto nos esforçámos por transformar as sociedades ditas contemporâneas. Afinal, o póquer tem tudo. Insaciável, o homem do século XXI viciou-se na adrenalina, correndo em busca de doses maciças de emoção – e poucos outros jogos dispõem do abismo do póquer, onde uma simples má jogada pode levar à destruição instantânea de um património acumulado durante anos (ou, pior ainda, de um património fictício, adquirido a crédito). Cínico, o homem do século XXI habituou-se a ver a vida como uma brincadeira – e poucos outros jogos dispõem do potencial de bluff à disposição do póquer. Ansioso, o homem do século XXI habituou-se a procurar o dinheiro fácil – e poucos outros jogos proporcionam, neste momento, uma tão clara oportunidade de enriquecer sem fazer nenhum.


Além disso, há a competitividade. Nunca, provavelmente, o homem foi tão competitivo como hoje – e, feitas todas as contas às suas muitas regras, possibilidades e formatos (incluindo o do Texas hold’em, catapultado para o lugar de variante mais bem-sucedida pela existência de “cartas comunitárias”, bem comum à disposição apenas do mais esperto), nenhum outro jogo oferece tão cabalmente a hipótese de esmagar o homem em frente como o póquer, de onde a qualquer instante se pode sair humilhado e na miséria, prontinho para uma vida de crime, agiotagem e nenhum outro horizonte senão o da mão perfeita.


No póquer, como na vida contemporânea, é assim mesmo: há sempre alguém a enriquecer depressa – e por cada homem que enriquece depressa há um trouxa que entrega os pontos. Melhor metáfora para o século XXI, sinceramente, só talvez o sistema bancário, dotado da vantagem suplementar de se poder alegar esquecimento em relação a decisões tomadas e a assinaturas redigidas – e, aliás, escapar impune com isso. No póquer, de facto, ainda não dá para dizer “não me lembro que me comprometi”, “não me lembro que assinei” ou “não me lembro que fiquei a dever”. É essa a sua grande fragilidade – e é isso que o tornará obsoleto quando, enfim, entrarmos noutro século e noutro estágio do desenvolvimento civilizacional. O sistema bancário, esse, há-de continuar incólume o seu caminho.


 


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 7 de Março de 2009


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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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