Quinta-feira, 4 de Março de 2010
publicado por JN em 4/3/10

Rever Os Normais (TV Globo Portugal, vários horários) é confirmar o que já antes se percebia: que nunca se fez outra coisa assim nos domínios do humor em língua portuguesa – e que, de resto, jamais a nossa televisão chegou sequer perto daquele resultado. Os dilemas são os de todos os dias, mas os diálogos são fulminantes. E os actores são magníficos, incluindo uma Fernanda Torres que transformou um corpo banal num novo paradigma de beleza e um Luiz Fernando Guimarães que, sendo um notório gay, interpreta de forma exímia a figura do machão tropical, mimado, preguiçoso e resistente ao casamento.


É difícil escrever uma sitcom, como o provam os muitos fracassos ocorridos na própria TV americana, a maior referência no género. E, porém, quando se trata de comparar Os Normais com tudo o que já se fez em Portugal, o que está em causa não é tanto a estrutura da narrativa quanto o tipo de humor. Porque também nós já produzimos coisas boas, inclusive algumas brilhantes (Herman José e Gato Fedorento à cabeça). Mas fizemo-lo sempre com recurso ao humor nonsense, nunca ao humor clássico. E este, encaremo-lo, é muito mais difícil de trabalhar. Porque não se trata de pegar no quotidiano e subverter as suas lógicas, mas de reeditá-las e, apesar disso, desconstruí-las de forma delirante.

Dizia Wittgenstein que o humor não é um estado de espírito, mas uma visão do mundo. A nossa tenta às vezes ser clássica, mas nesses casos revela-se sempre cliché, bidimensional e fundamentalmente ridícula – e só quando desata a partir cadeiras ganha um mínimo de graça. É uma limitação significativa. Quem nos disse que os portugueses eram pessoas com ironia bem nos enganou.


CRÍTICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 4 de Março de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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"Os Sítios Sem Resposta",
ROMANCE,
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"Banda Sonora Para
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Porto Editora,
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