Sexta-feira, 6 de Março de 2009
publicado por JN em 6/3/09

Sejamos claros: não é Carlos Queiroz que não quer Liedson a jogar na selecção portuguesa – é Liedson que não quer jogar na selecção portuguesa. Ora, nós já abdicámos do primeiro princípio inerente a uma selecção, que era o de que apenas devia jogar nela quem efectivamente “devia” jogar nela. Se abdicamos do segundo, que é o de jogar numa selecção apenas quem “quer verdadeiramente” jogar nela, restará o quê?


Questionado há pouco mais de um ano sobre a eventualidade de actuar por Portugal, Liedson foi claro: “O meu maior sonho é a selecção canarinha.” Entretanto, passaram-se uns meses, Dunga não o convocou e Liedson inflectiu o discurso. Mas tudo nele é ainda encolher de ombros e trejeito facial. “Não vou deixar de ser brasileiro nunca. Amo meu país”, explicou há semanas “Só que, na minha posição, a concorrência no Escrete é muito grande. E, como estão pintando algumas coisas para a selecção daqui, por que não? Da minha parte não há problema algum.”

Por mim, já sabem: nunca Deco ou Pepe deveriam ter jogado na selecção portuguesa. As selecções existem precisamente para fazer aquilo que os clubes já não podem fazer: lembrar à famigerada “globalização” que, apesar de tudo, ainda existem identidades. Destruir esse património apenas porque dois rapazes queriam muito ser internacionais portugueses já foi mau. Enterrá-lo de vez porque um terceiro rapaz até aceita jogar na selecção portuguesa, desde que isso não lhe causa grandes transtornos (e sobretudo porque não pode jogar na selecção brasileira), já não é apenas mau: é ridículo e é deprimente.

Que Portugal não tem pontas-de-lança, já todos o sabemos. Que Liedson daria um jeitão na frente de ataque, também. Mas uma selecção é uma representação de um povo e de um país. Ora, este povo e este país não têm pontas-de-lança – e, se não têm pontas-de-lança, é assim mesmo que devem ser representados: sem pontas-de-lança. Uma selecção não é um clube. Uma selecção é a antítese de um clube. E para nada serve uma selecção se não for exactamente a antítese de um clube.

Carlos Queiroz, já se percebeu, terá uma passagem efémera e fracassada pela selecção nacional. Paciência: no seu caso, será apenas mais uma passagem efémera e fracassada por um cargo. Transformar essa passagem efémera e fracassada numa passagem efémera, fracassada e criminosa será o pior que poderá fazer por si próprio e pela sua memória. A convocação de Liedson para a selecção nacional portuguesa significará a extinção definitiva do que ainda resta da selecção nacional portuguesa – e mesmo que, com Liedson, ela conseguisse voltar a emocionar a maioria dos portugueses. Não vá tão longe o relativismo pós-moderno – nem tão longe vá a acefalia daqueles que, apressada e ignorantemente, decretam a morte do estado-nação.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 6 de Março de 2009


 

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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