Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 21/2/10

Ansioso pelo final do julgamento do chamado “processo Casa Pia”, Carlos Cruz parece cultivar algumas expectativas quanto a um regresso ao pequeno ecrã – e a entrevista concedida há algumas semanas ao jornal 24horas por Frederico Ferreira de Almeida, patrão da Fremantle e seu amigo pessoal, parece ser disso prova. Diz Ferreira de Almeida que o apresentador ainda tem lugar na televisão. Mas o facto é que a questão deve ser colocada precisamente ao contrário: ainda deverá a televisão ter lugar na vida de Carlos Cruz?


A reposta depende em parte da sentença: uma condenação roubar-lhe-á qualquer possibilidade de reaver um dia sequer uma fracção da empatia que já teve com os telespectadores. Mas, mesmo que venha a ser absolvido, Carlos Cruz deve ponderar se uma exposição televisiva regular lhe trará mais vantagens do que prejuízo. Mesmo no melhor dos cenários, o mais provável é que o apresentador viesse a transformar-se numa espécie de atracção circense, alimentando todo o tipo de voyeurismos, incluindo todo o tipo de ajustes de contas subjacentes.

O facto é: os portugueses confiam pouco na sua Justiça. Trate-se ou não de uma suspeita legítima, têm dificuldade em encarar como inocente, hoje em dia, um cidadão absolvido (ou mesmo ilibado). Ora, a televisão, que a si mesmo se transformou num palco de demagogias e justiceirismos primários, amplifica qualquer gesto de desconfiança, sobretudo se dirigida aos ricos e aos famosos. É injusto e é cruel. Mas é assim – e, independentemente das vantagens financeiras que um regresso ao ecrã possa trazer-lhe, Carlos Cruz deve lembrar-se disso no momento em que, um dia, puder festejar a liberdade.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 21 de Fevereiro de 2010

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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