Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 6/2/10

O primeiro jogo de futebol a que eu assisti ao vivo foi um Lusitânia-Angrense, decorria talvez o ano de 1981 e sentiam-se ainda, um pouco por toda a ilha, os ecos do terramoto que nos dizimara no ano anterior. Não tenho na memória todos os pormenores desse acontecimento épico, mas sei que comi amendoins, que me passeei entre a bancada, o peão e a cabeceira Poente do Campo de Jogos de Angra do Heroísmo, onde os automóveis eram estacionados mesmo atrás da baliza para as senhoras poderem espreitar a festa enquanto faziam renda – e que o Lusitânia venceu, depois um guedelhudo do meio campo do Angrense ter tentado expulsar o árbitro (não me peçam para explicar), acabando ele próprio expulso, com dramáticas consequências para a resistência da sua equipa.


De maneira que os meus primeiros heróis futebolísticos (que digo eu, os meus primeiros heróis, ponto) não foram Meszaros, Manuel Fernandes ou Jordão, os ídolos do Sporting nesses idos de 80: foram Álvaro, Dionísio, Teves, Carlos Alberto, Aristides ou João Medeiros, os esteios daquela simultaneamente humilde e gloriosa equipa que me introduziu ao verde e branco, à atmosfera do peão e à poeira que se erguia da terra batida quando a Providência, distraída, nos brindava com um dia de sol. Fiz deles um hábito, claro. Filho do chefe do policiamento, sob a asa do qual podia assistir de graça à bola, tomei duas decisões: ver tantas jogos do Sport Clube Lusitânia quanto pudesse e, quando enfim tivesse idade, envergar eu próprio a sua camisola linda.

À segunda experiência , redundada nuns quantos jogos, em outros tantos frangos monumentais e numa certa dificuldade em lidar com a intestineira durante os pontapés de canto, já a sublimei por aí, em crónicas de jornal e em contos, em rodas de amigos e em conversas de alcova. À primeira também – mas quero voltar a fazê-lo. Porque, durante anos, eu vi. Vi, comendo amendoins, o Lusitânia vencer o E. Amadora por 3-0, no ano (se bem me lembro) em que mais perto estivemos de chegar à primeira divisão. Vi, vestido de verde e branco, o Lusitânia empatar 0-0 com o Boavista, com João Alves de luvas pretas no meio-campo adversário, num jogo após o qual Álvaro e João Medeiros rumariam ao Bessa. E vi, com o emblema que comprara na Casa Stuart ao peito, o Lusitânia esmagar várias vezes o Angrense, naquilo que era então o meu Benfica-Sporting – e que eu próprio viria a disputar mais tarde, embora sempre com frangos e intestineira.

Pois esse clube, símbolo de um povo, vai acabar, depois do fracasso da enésima assembleia geral destinada a engendrar uma solução para o passivo de três milhões de euros que acumulou enquanto andou a brincar ao basquetebol. Esse clube quase centenário, contemporâneo do Belenenses e do Sp. Braga, mais antigo do que o Rio Ave ou a U. Leiria; esse clube onde jogaram Mário Lino, Moisés (que podia ter sido Rui Barros) e o malogrado Marroco; esse clube que foi 21 vezes campeão dos Açores, 38 vezes campeão da Terceira e o primeiro do arquipélago a chegar aos nacionais; esse clube que encantou a minha geração, que encantou outras quatro ou cinco gerações antes da minha e que ainda hoje tinha mais de 500 atletas em acção; esse clube que era o maior clube dos Açores até o poder socialista perceber que o futebol podia render votos e que, sendo na ilha de São Miguel que os votos mais contavam, mais valia investir no Santa Clara – esse clube a que chamávamos “Lusitana”, ou mesmo “Sténia”, consoante a freguesia de que vínhamos ou as aspirações que cultivávamos, vai acabar. Não vai acabar com o futebol, note-se: vai acabar.

E eu, em vez de limitar-me a perguntar onde estávamos todos enquanto isto acontecia, lamento a vergonha. A vergonha dos lusitanistas, dos terceirenses e dos açorianos. A minha própria vergonha, no papel de cidadão de cada uma dessas três identidades. A vergonha de um povo que se acomodou aos subsídios e perdeu o brio nas suas instituições. A vergonha de um poder político para o qual, se nem tudo são votos, nada interessa mais do que eles. A vergonha de uma modalidade que se centrou nas ligas de campeões, nas selecções nacionais feitas de estrangeiros e nas sociedades desportivas, esquecendo quase tudo o que lhe era essencial – e que agora, um pouco por todo o país, um pouco por todo o mundo vai perdendo aqueles que foram os seus primeiros, mais abnegados e mais agregadores agentes. A vergonha, sim. Que ao menos nos pese a vergonha.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 6 de Fevereiro de 2010

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11 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 7 de Fevereiro de 2010 às 00:32
O Sport Clube Lusitânia, uma das mais emblemáticas associações desportivas açorianas, foi fundado em Angra do Heroísmo a 24 de Junho de 1922, sendo a delegação nº 14 do Sporting Clube de Portugal, e embora o seu emblema tenha um Açor em vez de um Leão, utiliza as mesmas cores do que o Sporting, o que em parte explica o facto da Ilha Terceira ser um bastião de sportinguistas implantado no no meio do Oceano Atlântico e ao qual o cronista não podia fugir ou ser alheio.

A partir da época de 1978/79 o Lusitânia passou a militar na Serie E da 3ª Divisão Nacional, e um ano depois ganhou pela primeira vez essa competição, garantindo o acesso à 2ª Divisão, feito que repetiria mais duas vezes até à época de 94/95, altura em que foi criada a Serie Açores da 3ª Divisão Nacional.

No entanto, infelizmente, acontece que o clube está envolvido num processo de insolvência, em que os principais credores são as finanças e a segurança social o que acontece com muitos outros clubes nacionais. A estes problemas é fácil atribuir à crise que tem as costas largas. No entanto a má gestão e impreparação de grande parte dos dirigentes é patente, na generalidade.

O Lusitânia pode acabar, mas acho que jamais morrerá.
De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2010 às 03:49
É o destino dos que sempre quiseram fazer crer que tinham sangue azul,que eram supeiores aos demais, que eram os nobres e os outros a ralé.Tal filho tal pai.

E como ainda és muito " pequenino" e nada sabes (será que não sabes?) sobre o clube da Rua da Sé sediado num solar de viscondes, aconselho-te a aprofundares a sua história, sobretudo, o pretecionismo vergonhoso que sempre gozou por parte dos "aristocratas comerciantes" E OUTROS QUE TAIS.

A vossa grande mágoa é ter sido um clube de S.Miguel o primeiro a participar na alta roda do futebol nacional enquanto os "viscondes" tiveram uma passagem fugáz no escalão secundário e mantendo-se anos e anos a fio
no terceiro e quarto escalão.

Agora sim,o futebol da Terceira está livre das grilhetas que mantiveram o "poderoso" senhor e,certamente, vai progredir, desenvolver-se e a verdade desportiva finalmente de fará sentir na ilha Terceira.






De jorge espinha a 9 de Fevereiro de 2010 às 19:01
Caro Joel

É de facto triste o que se passa com o Lusitânia, com os Açores e com Portugal.
A minha família foi uma das vítimas da descolonização exemplar. Há 35 anos chegámos cá no meio de caixotes e cuspidelas da esquerda revolucionária. No início dos anos 80 podíamos dizer que no essencial essa imensa maré humana estava integrada, embora algumas feridas jamais sarassem. Ouvi muitas vezes fazerem a comparação favorável com a tragédia dos pés negros em França.
Mas a diferença entre os retornados e os refugiados da Argélia Francesa seria mesmo a admirável hospitalidade do povo Português ?
Eu acho que o facto de nós os retornados termos desaparecido do radar deveu-se em grande parte ao facto de ao contrário de França o estado social português era na altura embrionário. Quando não há o subsidiozinho , a esmolinha do estado , as pessoas arregaçam as mangas e fazem-se à vida.
Se se desse hoje , o drama da descolonização seria muito pior , os retornados nunca se integrariam e o drama do coitadinho seria interiorizado por milhares. De alguma maneira o estado paternalista moderno mata o espírito dos povos.
De Joaquim Jorge Carvalho a 9 de Fevereiro de 2010 às 23:50
Eco pessoal de uma bela crónica

O meu União de Coimbra (o Ónião!) naufragou parecidamente, caro Joel Neto, com a nuance consoladora de ainda termos futebol jovem. O Joel explica, com a razão dos nossos corações antigos, a falta de coração da modernidade à razão de juros. Abraço! Joaquim Jorge Carvalho
De Joel Neto a 13 de Fevereiro de 2010 às 19:48
Peço desculpa pela demora na validação dos comentários. Estive em viagem e sem acesso à Internet. Ei-los. Muito obrigado por eles. Um abraço a cada. JN
De SC a 14 de Fevereiro de 2010 às 00:03
Estás desculpado.

Mas...na era em que até os astronautas têm acesso à internet...Qual foi o planeta que visitaste....??????

Um abraço.
De Fernando a 22 de Fevereiro de 2010 às 04:58
Eu como lusitanista e antigo director do Sport Club Lusitania, nos anos 1967-1968,ainda jogavam o Artur Andre o Miguel o Eduardo Faria o Borba e outros que ja nao me lembro, eu fui e director mais novo que passou pelo Lusitania de Angra foi no ano em que mudamos da rua de Sao Joao Para a actual sede na rua da Se, eu fui director da formacao do Lusitania de aonde sairam bons jogadores como o patacadas o Joao Lima, Fernando Valadao, manuel Valadao e outros tambem muito bons, nessa altujra as direccoes eram obrigadas todos os anos a prestar em assembleias gerais as contas aos socios, mas segundo me consta a direccao que por la esteve levou dez anos sem dar contas aos associados, defacto depois do que se passou alguem devia de ser chamado a responsabilidade, porque ha um concelho fiscal e uma assembleia geral que sao os maiores rsponsaveis pelo clube. Agora eu ouvi falar que o gorverno deve dinheiro ao Lusitania, mas que nao o paga por falta de provas, das dividas do Lusitania. Sera que o Santa Clara tem todos os seus decomentos em dia para receber o dinheiro do governo, ou o Santa Clara vive das grandes receitas dos jogos que fazem no estadio de S. miguel vazio em todos os jogos, porque eu nao estou a viver nos acores, mas acompanho as noticias da RTPA, e sei o que por la se passa,Eu ate tenho impressao que ha uma grande discriminacao entre as equipas das outras ilhas e as de S. Miguel, Tambem sinto muito vergonha pelo socedido o meu lusitania em vias de acabar? ( mas tenho fe que nao vai acontecer) Um Abraco e desculpa pelo algum erro mas eu nao sou jornalista e alem disse ja estou fora da Terceira desde de 1969, mas sempre actualizado.Fernando Corvelo Toronto Canada.
De fcorvelo a 23 de Fevereiro de 2010 às 04:37
Caro anonimo, quando fizeram a divisao do desporto nos acores e o futebol foi para S. miguel para o clube que menos representou o futebol nos acores, foi ja com a ideia de o santa clara ser beneficiado pelo governo c omo esta sendo, porque nao foi ha muito tempo que o santa clara nao podia inscrever jogadores porque devia uns bons mlhares de euros ao governo de impostos e de um momento para o outro tudo ficou resolvido, toda agente sabe que ninguem vai ao futebol em s. miguel e a prova e que treinador leva todos os dias a pedir que vaiam ao futebol, porque as bancadas estas vazias e o que se ve por la e alguma garca, e como e que se pode suportar aquela despesa, pois o santa clara fica na terra do governo dos Acores. Porque devia ter sido na Terceira o futebol e o hoque em patins em s. miguel. Como toda agente sabe o Lusitania e clube mais campeao dos acores, e agora esta em vias de acabar, mas isso e o gosto de muitos anti lusitanistas.anonimo
De Mário Santos a 27 de Fevereiro de 2010 às 02:02
Caríssimo anónimo,

O que lhe posso dizer é que temos todos que ignorar a sua postura para não descer ao seu nível. Sempre ouvi dizer que não se deve discutir com um ignorante, pois ele faz-te descer ao seu nível e ganha-te em experiência.

Saudações lusitanistas.
De luis cunha silva a 7 de Março de 2010 às 11:15
Caro Joel Neto parabens pelo teu comentário ao possivel Fim do SC Lusitânia olha as tuas recordações são sem duvida para fazer reavivar memórias que nunca mais se apagam os nomes de atletas que te veio á memória eram sem duvida grandes jogadores mas talves te lembres de dois jogos (Lusitaniaxnacional da madeira-treinava o nacional PAULO autoori que depois mais tarde foi para o benfica-Minicipal de Angra completamente cheio)Lusitâniaxvitória de setubal-treinava o setubal Malcon alison adjunto roger sprai já tinham treinado o Sporting clube de portugal -alguns jogadores do setubal-Mezzaros guarda redes- paulo madeira-formosinho-(lusitânia Teves-serafim-paulo marcelino-carlos alberto DJANGO marcou um golo ao grande mezzaros e de cabeça. poderia falar mais deixo aqui algumas saudades e muita tristeza. Não sou terceirense nem verde sou PORTISTA mas tenho muita amizade por estes senhores pelo clube e pela ILHA. Força lusitanistas o clube viverá para sempre nem que seja nas nossas memórias.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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