Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010
publicado por JN em 5/2/10

José Eduardo Bettencourt tem toda a razão: os sócios do Sporting não mereciam a humilhação de que foram alvo esta semana, levando cinco golos, um banho de futebol e até, no final, uma piscadela de olho condescendente da parte do FC Porto. Mas também não mereciam ter levado do Bayern de Munique duas cabazadas históricas cujos ecos percorreram a Europa. Não mereciam estar há sete anos (oito, com este) sem ganhar o campeonato. Não mereciam que se lhes tivesse dito durante todos esses anos que estavam ao nível dos adversários, quando na verdade não o estiveram nunca. Não mereciam uma série de outras coisas. E habituaram-se.


Saberá o senhor presidente o que é mais triste, no meio disto tudo? É que já nem sequer nos faz tanta diferença quanto isso. Custa ouvi-lo. Custa dizê-lo. Mas a verdade é esta: levar cinco do FC Porto ainda dói um bocadinho, mas já dói incomparavelmente menos do que doeu. E, inevitavelmente, um dia destes vai deixar de doer. Primeiro deixará de doer com o FC Porto, a seguir deixará de doer com o Benfica – e, então, não restará mais nada. No essencial, seremos aquilo que, entretanto, já se tornou claro que vamos ser em breve: um Vitória de Guimarães, um Belenenses, um Penafiel. Uma comédia, no fundo.

O Sporting, não me canso de dizê-lo, deu alguns sinais positivos ao longo dos últimos meses. Depois de ter mantido Paulo Bento, de ter recusado investir no plantel, de não se ter empenhado na contratação de um treinador de topo e de ter entregue o departamento de futebol a um (para dizer o mínimo) zaragateiro, foi à procura de jogadores, livrou-se do zaragateiro, regressou às vitórias e conseguiu acender uma pequena chama nos seus sócios e adeptos. Logo a seguir, porém, voltou a descarrilar: comprou Pongolle pelo dobro do dinheiro que podia ter pago por Ruben Micael, entregou o departamento de futebol às claques, deixou que a negligência voltasse a instalar-se em campo e acabou, enfim, humilhado no Dragão.

É um rude golpe para todos os sportinguistas – e um golpe mais duro ainda para aqueles que, como eu, se deixaram entusiasmar pelos sinais positivos emitidos algures no meio desta trapalhada toda. Aproveito, pois, para fazer um anúncio e deixar um aviso. O anúncio é este: ao contrário de outros colunistas, jornalistas e mesmo adeptos anónimos, eu não estou disponível para continuar a defender um projecto apenas porque a certa altura o defendi, ignorando os erros, a negligência e o autismo que os seus promotores entretanto decidam conceder-se a si próprios. E o aviso é este: o mais provável é que nenhum outro sócio ou adepto o esteja também.

Facto: o Sporting tem quatro meses para garantir a sua própria sobrevivência. Não são quatro meses para encontrar um caminho, para emendar a mão, para polir rugosidades. É a sobrevivência que aqui está em causa. O primeiro passo para a irrelevância absoluta está dado: não há, entre os nossos adversários, um só que nos respeite, quanto mais que nos tema. Daqui até não conseguirmos comprar um jogador, não conseguirmos vender uma época de direitos de televisão, não conseguirmos impingir uma camisola a um imigrante e não conseguirmos vencer um jogo que seja, vai um passo minúsculo. Depois não digam que ninguém avisou.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 5 de Fevereiro de 2010

4 comentários:
De Jota a 7 de Fevereiro de 2010 às 12:45
Caro Joel, achas mesmo que se estivéssemos a viver um momento tão dramático, se estivesse realmente em causa a sobrevivência do clube, o nosso presidente estaria despreocupadamente a banhos nas cálidas águas do Atlântico Sul, entrecortados por água de coco e churrascadas como só os brasileiros sabem fazer? Só alguém completamente irresponsável e/ou a viver numa realidade alternativa o faria! Nunca o nosso presidente!
De jorge espinha a 8 de Fevereiro de 2010 às 13:17
caro joel

Essa crónica foi escrita antes da derrota coma a Académica. Tem razão em absolutamente tudo. Os problemas do Sporting são muito profundos , é preciso uma purga mas não vejo as condições nem a energia para o fazer. Durante a última década e meia foi-se construindo no SCP uma escola de incompetência e estupidez. Não é possível uma evolução na continuidade.
É possível que seja tarde demais.
De Nuno Magalhães a 8 de Fevereiro de 2010 às 18:41
Venho por este meio dar o meu apoio ao seu comentário no Jornal de Noticias e expressar também a minha preocupação com o momento actual e futuro do Sporting Clube de Portugal que muito me tem entristecido, pensando inclusive em deixar de ser sócio do Sporting Clube de Portugal, tenho apenas 19 anos estou a estudar na Universidade do Minho o curso de Linguas Aplicadas, e sou sócio do Sporting Clube de Portugal desde os 6anos de idade.
Moro na região do Minho e por isso tirando o meu pai e o meu irmão poucos sportinguistas conheço nesta zona(Cabeceiras de Basto) e por isso pode imaginar o que é conviver com portistas e benfiquistas todos os dias.
E venho com isto expressar o meu apoio e pedir que alguma coisa seja feita, sejam eleições antecipadas, manifestações qualquer coisa e concordo inteiramente consigo quando diz que o Sporting arrisca-se a ser um "Guimarães".
É preciso agir já, pedir a demissão do Bettencourt é preciso profissionalizar o Sporting, chamar os antigos símbolos do clube(Luis Figo, Manuel Fernandes,Oceano) para mostrar aos jogadores que antes deles o Sporting já existia e muito melhor por sinal, e que têm que dar tudo por quem lhes paga os ordenados(demasiado altos).
Com isto digo que estou disposto a tudo para tirar o Sporting deste amadorismo e estou disponível para o apoiar se resolver tomar alguma atitude sobre este assunto.

Muito Obrigado e Saudações Leoninas
De JN a 13 de Fevereiro de 2010 às 19:48
Peço desculpa pela demora na validação dos comentários. Estive em viagem e sem acesso à Internet. Ei-los. Muito obrigado por eles. Um abraço a cada. JN

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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