Sábado, 23 de Janeiro de 2010
publicado por JN em 23/1/10


O que mais me constrange, nesta história da Roxxxy – vocês sabem: aquela boneca mecânica que “Não cozinha, não aspira, mas ocupa-se de tudo o resto, se é que me faço entender” – é a motivação que, no dizer do próprio, inspirou o seu criador, Douglas Hines, proprietário da empresa norte-americana True Company. Conta ele que, no fatídico dia 11 de Setembro de 2001, um dos seus melhores amigos estava a trabalhar no World Trade Center, vindo a falecer em resultado da queda das torres. “Prometi a mim mesmo que iria criar um programa que guardasse a sua personalidade, e isso acabou por originar a fundação da True Companion e o lançamento da Roxxxy”, explica.

A homenagem é comovente, a técnica de marketing quase brilhante. Douglas Hines não só é amigo do seu amigo, como conhece os botõezinhos emocionais dos compatriotas – e, posto perante a necessidade de rentabilizar o milhão de dólares que investira na criação da dita boneca, partiu logo para a artilharia pesada: a comoção colectiva com o 11 de Setembro. Por outro lado, não lhe gabo as amizades. Diz o próprio, de novo sobre a boneca: “É uma autêntica companhia e tem personalidade própria. Entende, escuta e fala com o utilizador. Se ele gosta de Porsches, ela também gosta. Se ele gosta de futebol, ela também gosta” – e eu só posso duvidar do seu entendimento sobre o que é a personalidade própria (e, portanto, da personalidade daqueles que o rodeiam também).

De resto, nada contra Roxxxy. Casa sem um brinquedinho sexual que seja não é casa nem é nada – e, se alguém escolhe como artefacto uma morenaça grandalhona de 1,73 m, 54 quilos, sutiã copa C, coração mecânico e inteligência artificial (embora me pareça que estamos conversados sobre a inteligência da dita), pois que dê Deus saúde a Roxxsy, aos seus namorados e aos mecânicos que um dia tiverem de encarregar-se das terapias de casal. Tenho, porém, algumas objecções quanto a esta coisa da substituição do homem (ou da mulher) pela máquina. Sou um filho do capitalismo, é bem verdade, mas nem por isso deixo de ter coração.

O primeiro aspecto, como se diz nuns fóruns que eu cá sei, tem a ver com o preço de Roxxxy. A quanto anda uma “massagista” de carne e osso, por esta altura: cem euros? Pois, nesse caso, cinco mil euros equivalerão a cinquenta visitas ao ateliê de lady Véronique, masseuse – e, portanto, vai ser preciso uma utilização assaz intensiva para promover a amortização do investimento, o que pode levar o utilizador a negligenciar as suas restantes actividades relevantes, incluindo noitadas de PlayStation, reuniões dos escuteiros e idas ao Estádio da Luz. Por outro lado, deve ser fácil, para ele, dar presentes de Natal à sua nova esposa: qualquer latinha de óleo Castrol a contenta, com certeza.

No mais, não me incomoda a ideia de alguém ter de levar a mulher à revisão de “x” em “x” quilómetros, que nós também levamos as nossas ao médico. Nem sequer a necessidade de, ocasionalmente, ligá-la à Internet para lhe actualizar o software, que (sabe Deus) também a nós nos apetece, tantas e tantas vezes, fazer um upgrade às nossas. Já me inquieta um pouco mais, confesso, a validade dessa promessa de que Roxxxy é o instrumento ideal “para que pessoas tímidas que não se atrevem a expressar a sua sexualidade possam ter experiências sem correr riscos”. Como se sabe, não há máquina que não avarie – e a possibilidade de esta avariar, retorcendo-se nas suas roldanas e esmigalhando-se nas suas rodas dentadas e explodindo nos seus fusíveis, no exacto instante em que um homem está a expressar-se é perspectiva um tanto arrepiante.

Mas, enfim, o brinquedo não é para mim. No máximo, posso duvidar do conceito que preside à sua invenção, assim como da lógica por detrás de algumas das suas especificações. Quer dizer: mesmo para um homem do século XXI, moderno e tal (como, claro, é o público-alvo de uma boneca sexual, especialmente esta), uma mulher que não cozinha nem aspira já é uma mulher com duas limitações a mais. Agora, imaginemos que, para além de não cozinhar nem aspirar, essa mulher fala. E, entretanto, imaginemos ainda que, para além de não cozinhar, de não aspirar e de se pôr a falar durante a bola, o Telejornal e as reposições do Fama Show, essa mulher tem a cara do Cláudio Ramos depois de levar com uma tábua que se desprendeu do soalho.

Pois eis, minhas esquálidas figuras dúbias, chefes de família vagamente felizes e paternais, os “Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força”, de que falava Álvaro de Campos. Acautelem-se, claro, é com o “Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria”.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 23 de Janeiro de 2010

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 24 de Janeiro de 2010 às 00:26
Ainda em cartaz no Centro Cultural de Cascais a «Sexpressions» ou os orgasmos da bióloga Clara Pinto Correia, já alguns portugueses estão a pensar seriamente em encomendar a Roxxxy, a tal robô sexual com personalidade e que poderá interagir em conformidade com o utilizador, após prévia programação de um software.
Até acontece que a Roxxxy está disponível em vários modelos, à medida das preferências dos utilizadores: Wild Wendy, com um carácter aventureiro e extrovertido, Frigid Farrah, reservada e tímida, Mature Martha, um modelo mais matriarcal e carinhoso e a S&M Susan, a dominatrix que alinha em brincadeiras sado-maso. Há ainda um quinto modelo, que ainda não foi baptizado, e que tem uma personalidade mais “inocente”.
Portanto esta, à semelhança das outras, também não cozinha nem aspira, mas quer dizer é uma boneca de sexo e companhia, não uma empregada de limpeza. Tem um corpo de deusa, com personalização do tamanho de peito, cor de cabelo, raça, tudo o que se pode querer numa boneca insuflável. A principal inovação dá-se na interactividade desta com o seu utilizador. Ouve, toma atenção, fala, sente o toque, dorme e até tem a opção de ressonar...

Concluindo, acho bem que estes brinquedos existam, mas nunca em substituição das pessoas reais. As pessoas estão cada vez mais individualistas e cada vez menos capazes de fazer cedências e assumir compromissos e quanto mais nos alienarmos, mais difícil é voltar a aprender a viver e conviver com seres humanos.
De Patrícia Porto a 24 de Janeiro de 2010 às 15:02
Muito bom e engraçado. Queria ver um vídeo de um feliz proprietário e sua darling em ação. Se souber de algum link me fale. Curiosidade antropológica.
Beijos.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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