Domingo, 17 de Janeiro de 2010
publicado por JN em 17/1/10

“Houve jogadores com swings mais bonitos do que o de Jack Nicklaus”, escreveu Ken Bowden depois da vitória de Nicklaus no The Masters de 1986, aos 46 anos. “Talvez tenha havido quem batesse melhor na bola do que Jack Nicklaus. Houve, de certeza, golfistas com melhor jogo curto do que Jack Nicklaus. É mesmo possível que tenha havido jogadores mais compenetrados e competitivos do que Jack Nicklaus. Mas nenhum indivíduo foi capaz de desenvolver, combinar e sustentar todas as imensas habilidades físicas e todos os incontáveis recursos mentais e psicológicos que o golfe exige ao nível a que Jack Nicklaus o conseguiu, durante o tempo que Jack Nicklaus o conseguiu.”


As palavras talvez se tenham desactualizado um pouco. O surgimento de Tiger Woods desactualizou muito do que se escreveu até então – e, para muitos, é já Woods, e não Nicklaus, o melhor jogador dos mais de 250 anos do golfe moderno. O próprio “Urso Dourado”, aliás, já o admitiu: nunca houve ninguém como Tiger Woods. Mas, tal como Pelé permanece Pelé apesar de Maradona, Jack Nicklaus permanece, apesar de Tiger, Jack Nicklaus: o mais titulado jogador da história da modalidade, com 114 vitórias como profissional e um recorde absoluto de 18 triunfos em torneios do Grand Slam. E, num momento em que Tiger (que tem 14 vitórias em majors) se encontra com a actividade suspensa, determinado a dedicar-se à família na ressaca do mega escândalo sexual que abalou o golfe mundial no final de 2009, já não parece tão certo quanto antes que esse recorde será batido.

Jack Nicklaus completa esta quinta-feira 70 anos, e o mundo do golfe faz uma pausa para homenageá-lo. Sobre ele e o seu maior rival de sempre, Arnold Palmer, escreveu um dia a “Time Magazine” uma blague que permanece até hoje incontornável: “Quando Deus criou Jack Nicklaus e Arnold Palmer, virou-se para Nicklaus e disse: ‘Serás o maior que o jogo alguma vez viu.’ Depois virou-se para Palmer e acrescentou: ‘Mas toda a gente te amará mais a ti.’” A Palmer, que no ano passado completou 80 anos, chama-se há muito tempo simplesmente “O Rei”. A alcunha de Nicklaus é mais modesta: começou por ser “O Urso”, devido à sua silhueta entroncada – e só depois, quando os troféus relativos aos majors começaram a acumular-se na sua estante, foi mudada para “O Urso Dourado”. Mas quem esteve “lá dentro” com ele sabe-o bem: Jack é único. “É a melhor mente que este jogo alguma vez conheceu”, disse um dia o sul-africano Garry Player, outro dos seus maiores rivais em campo (e maiores amigos fora dele, tal como Palmer).

Nascido em Upper Arlington, subúrbio de Columbus, no Ohio, Jack Nicklaus foi introduzido no golfe pelo pai, um farmacêutico que mais tarde viria a dedicar-se em exclusivo à sua carreira. As 12 anos venceu o primeiro de cinco Ohio State Junior Championships consecutivos. Aos 13 jogou pela primeira vez abaixo das 70 pancadas. Aos 14 fez o seu primeiro hole-in-one em competição. Aos 19 venceu o primeiro de dois US Amateurs consecutivos. Ainda chegou a pensar permanecer amador, imitando o seu ídolo Bobby Jones, mas veio a compreender que, para ser reconhecido com o melhor de todos, precisava de defrontar semanalmente os melhores. Aos 21, portanto, tornou-se profissional. E, então, abriu a caixa de Pandora. Logo no primeiro Verão, venceu o US Open, num play-off épico contra Arnold Palmer. Foi o seu primeiro triunfo como profissional – e, de alguma forma, isso colar-se-lhe-ia à pele para sempre. O Grand Slam seria o seu palco preferido.

Não era um grande jogador de putter, embora tenha conseguido muitos putts importantes: era sobretudo um excelente jogador de fairway, com grande capacidade estratégica, um número nunca superado de greens in regulations e, aliás, uma assumida predilecção pelo jogo conservador (desde que isso lhe trouxesse vantagens). “Era um bom jogador de dois putts”, recordaria o próprio, numa entrevista feita em 2005, depois do abandono definitivo dos greens. “Tinha muito medo dos três putts e, por isso, evitava ser agressivo. Mas acho que não me dei mal assim.” Venceu majors ao longo de exactamente um quarto de século, terminando apenas no referido de Masters de 1986 (permanece, aliás, o jogador mais velho a vencer em Augusta, embora Kenny Perry quase o tenha destronado em 2009). E dominou o golfe mundial durante todo esse tempo e mais algum, apenas se deixando suplantar quando a geração de Severiano Ballesteros, Tom Watson, Tom Kite, Payne Stewart, Nick Price e Nick Faldo tomou conta da modalidade.

Na Ryder Cup, jogou seis vezes e foi capitão outras duas. Ao todo conseguiu seis vitórias e um empate, cedendo apenas uma derrota (como capitão). A história do empate, em 1969, fica para os anais do golfe. Fora a mais equilibra Ryder Cup em décadas, e o último match deixava-o frente-a-frente com Tony Jacklin, o multi-campeão britânico. No green do 18, Jack meteu o putt que garantia pelo menos o empate final, permitindo aos EUA reter a taça mesmo sem vencer a competição. Jacklin, que vinha batendo muito mal o putt, tinha então uma pancada de 90 cm para confirmar o empate. Jack olhou-o, nervoso – e decidiu conceder o putt. Mais tarde, explicou-o assim: “Tenho a certeza de que o Tony meteria o shot. Mas, àquela distancia, eu nunca lhe permitiria que o falhasse.” Ainda hoje o momento é recordado como um dos mais nobres gestos da história do jogo.

Definitivamente retirado há cinco anos, depois de um The Masters e de um British Open ao longo de cujos dois primeiros dias (não passou o cut em nenhum deles) foi ovacionado de pé, Jack é hoje, a par de Arnold Palmer, uma das figuras mais importantes do golfe mundial. Tem o seu próprio torneio no PGA Tour (o Memorial Tournament), lidera uma série de projectos filantrópicos e é um dos mais activos course designers do mundo. “Estou a descobrir agora, mais do que em qualquer outra altura, de que o jogo a que dedicamos a nossa vida pode continuar a preencher-nos mesmo sem batermos uma bola que seja”, diz à revista “Golf World” do próximo mês, a propósito do 70º aniversário. “Mas, embora jogue hoje apenas uma vez por mês, ainda é provável que leve os meus amigos a Augusta na Primavera. E, quando subir ao tee do 16, ainda vou ter um objectivo na minha cabeça”, acrescentou. O objectivo: evitar ir à água e falhar na intenção de acabar com um score inferior à sua idade, como lhe aconteceu no ano passado, ao fazer um duplo bogey que o impediu de terminar com um 68.


 


 


JACK NICKLAUS

Nome:
JACK WILLIAM NICKLAUS

Alcunha: THE GOLDEN BEAR (“O URSO DOURADO”)

Nascimento: 21 DE JANEIRO DE 1940 EM COLUMBUS, OHIO

Profissional desde:
1961

Vitórias como profissional:
114 (19 COMO SÉNIOR)

Vitórias no Grand Slam: 18 (THE MASTERS 1963, 1965, 1966, 1972, 1975 E 1986; US OPEN 1962, 1967, 1972 E 1980; BRITISH OPEN 1966, 1970 E 1978; PGA CHAMPIONSHIP 1963, 1971, 1973, 1975 E 1980)

Desempenho na Ryder Cup: 8 PARTICIPAÇÕES, 6 COMO JOGADOR (5 VITÓRIAS E 1 EMPATE) E 2 COMO CAPITÃO (1 VITÓRIA E 1 EMPATE)

Prémios e distinções: 8 VEZES VENCEDOR DA LISTA DE PRÉMIOS MONETÁRIOS DO PGA; 5 VEZES VENCEDOR DO TROFÉU PARA O JOGADOR DO ANO DO PGA TOUR; INCLUÍDO NO WOLD GOLF HALL OF FAME EM 1974; ELEITO MELHOR JOGADOR DO SÉCULO XX PELAS INSTITUIÇÕES CENTURY/MILLENNIUM BY ASIAN GOLF MONTHLY, ASSOCIATED PRESS, BRITISH BROADCASTING COMPANY, GOLF DIGEST, GOLF MAGAZINE, GOLF MONTHLY MAGAZINE, GOLFWEEK, GOLF WEB, GOLFWORLD, INTERNATIONAL ASSOCIATION OF GOLF TOUR OPERATORS, PGA TOUR.COM E TODAY’S GOLFER; FEITO DOUTOR HONORIS CAUSA PELA UNIVERSIDADE DO OHIO E PELA UNIVERSIDADE DE SAINT ANDREWS; VENCEDOR DA MEDALHA PRESIDENCIAL DA LIBERDADE, ATRIBUÍDA PELO PRESIDENTE DOS EYA (2005); OUTROS 87 PRÉMIOS E DISTINÇÕES DE CLASSE MUNDIAL

Outros recordes: JOGADOR COM MAIS PARTICIPAÇÕES EM MAJORS (164), JOGADOR COM MAIS SEGUNDOS LUGARES EM MAJORS (19, JOGADO COM MAIS TOP-TEN EM MAJORS (73)JOGADOR COM MAIS CUTS CONSECUTIVOS FEITOS EM MAJORS (39, EX-AEQUO COM TIGER WOODS)


 


 


MONTE REI: JACK NICKLAUS EM PORTUGAL


Houve um tempo em que a ultrapassagem de todos recordes de Jack Nicklaus por Tiger Woods parecia inevitável. Hoje, não será tanto assim. E, no entanto, o Urso Dourado já se empenhou em levantar altíssimas fasquias noutras áreas onde Woods é, para já, apenas um aprendiz. Uma delas é o course design, onde desde 1970 se vem destacando com autor de alguns dos mais belos e desafiantes campos do mundo. Ao todo, a Nicklaus Design (propriedade de Jack e de quatro dos seus cinco filhos) tem 366 campos em funcionamento, mais outros 120 em fase de projecto. Dois são portugueses. Um deles, o Vila Lago Monsaraz Golf & Nautic Resort, planeado para a área do Alqueva, ainda está longe da inauguração. Outro funciona desde 2007: o campo do Monte Rei Golf & Country Club, no Pocinho, concelho de Vila Real de Santo António, às portas de Vila Nova de Cacela. A abertura ocorreu em Junho de 2007. Os greenfees são altos (entre os € 150 e os € 190) e a promoção é feita sobretudo no estrangeiro, pelo que são ainda escassos os golfistas portugueses que já o experimentaram. E, porém, quando se fala dos campos que poderão receber a Ryder Cup de 2018, caso Portugal venha efectivamente a ganhar a corrida ao papel de anfitrião, é um dos primeiros palcos que nos vêm à memória. Porque se trata, de facto, de um prodígio de campo. Com 18 buracos e par 72, o Monte Rei espraia-se elegante por cerca de 90 hectares de vales e montanhas repletos de lagos perfeitos, bunkers esculpidos e fairways delimitados por vegetação endémica e cuidada. O vento é omnipresente. Os greens são minúsculos e de leitura difícil. Nem um só stance é a direito, obrigando a esquecer quase tudo o que se traz memorizado do driving range. Mas as vistas para a Serra do Caldeirão e para o oceano são fabulosas E o requinte é total: valets parqueiam os automóveis dos jogadores; os buggies, obrigatórios, estão incluídos no greenfee, assim como o stroke saver, os tees, os pitch forks, as garrafas de água e um número ilimitado de bolas de prática; toalhas com pedrinhas de gelo são oferecidas aos jogadores por volta dos buracos 6 e 12; e, no final, cada golfista é presenteado com uma bag tag gravada com o seu nome e a data em que o visitou. Um campo à medida do seu arquitecto, no fundo: perfeito.


(destaques)


O próprio “Urso Dourado” já o admitiu: nunca houve ninguém como Tiger Woods. Mas, tal como Pelé permanece Pelé apesar de Maradona, Jack Nicklaus permanece, apesar de Tiger, Jack Nicklaus: o mais titulado jogador da história do golfe


Escreveu a “Time Magazine”: “Quando Deus criou Jack Nicklaus e Arnold Palmer, virou-se para Nicklaus e disse: ‘Serás o maior que o jogo alguma vez viu.’ Depois virou-se para Palmer e acrescentou: ‘Mas toda a gente te amará mais.’”


FEATURE. J, 17 de JANEIRO de 2010

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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