Sábado, 16 de Janeiro de 2010
publicado por JN em 16/1/10

Convencionou-se que quem nos oferece cuecas são as avós (pelo Natal) e as esposas (ao longo do resto do ano). Nem sempre é assim. Aqui há uns anos, por ocasião de um aniversário redondo, pessoa amiga, tomada sabe-se lá por que epifania, ofereceu-me um par de cuecas de marca. Lembro-me de apalpar o embrulho, semicerrar os olhos, franzir a testa e torcer ostensivamente o nariz, como sempre faz o aniversariante consciente de que está na iminência de abrir um presente indesejado e não encontra outro caminho senão apimentar o desconforto: “Não me digas que são meias, minha malandra…” Pois não eram meias, não: eram cuecas – um sumptuoso par de boxers platinum, perfeitamente chuleados e com um cós bordado a dizer Hugo Boss (em letras grandes) e depois The World Greatest (em letras mais pequeninas).


Guardei-as no fundo da gaveta – e nunca as estreei. Se passar o dia inteiro com as insígnias “O Maior do Mundo”, referindo-se essas palavras a mim próprio, já me parecia estranho, passar o dia inteiro com as insígnias “O Maior do Mundo”, referindo-se essas palavras a outrem (em concreto, ao sr. Boss), parecia-me um perfeito absurdo. Para além do mais, como é que uma pessoa tem coragem de andar 24 horas com um par de cuecas no valor de 50 ou 60 euros (a não ser que efectivamente cultive a esperança de um dia se cruzar com Beyoncé Knowles, isto é)? Como é que uma pessoa pode cobrir a genitália com o orçamento do Zimbabwe, a verba atribuída anualmente por José Sócrates à pasta da Cultura e os cachets das próximas duas sessões de fotografias de Ruth Marlene, tudo somado – e não se sentir culpado com isso?

Naturalmente, se alguma vez, ao longo destes anos todos, me ocorreu ir ao fundo da gaveta e resgatar as Hugo Boss, The World Greatest, foi esta semana. Era domingo, a chuva caía com uma abundância prodigiosa, o vento fazia tremer as fundações, o frio encarquilhava-nos a pele e penetrava-nos pelas juntas e ia ofender-nos os ossos, perfurando-os como um garfo e depois torcendo-se sobre si próprio. E, no entanto, ali andavam eles pelo metro de Lisboa: centenas de rapazes e de raparigas em cuecas, pernas cabeludas e rabos que ainda podiam ter algum préstimo, coxas celulíticas e canelas perfeitinhas – tudo numa feliz boa-vai-ela, como se não fosse Inverno, como se não houvesse gripe, como se a retoma não estivesse ainda a ano e meio de distância. E eu tive inveja: pela liberdade, pela ousadia – e, naturalmente, pelo despojamento com que exibiam as suas cuecas Calvin Klein, as suas tangas La Perla e os seus boxers Hugo Boss iguaizinhos aos que eu um dia proscrevera.

Compromissos inadiáveis impediram-me de comparecer. Mas fiquei sensível à mensagem da urgência de causar “situações de caos e de alegria”, de forma a deixar as pessoas “mais conscientes de que às vezes as regras se alteram e o mundo não é sempre igual”, como disseram os organizadores da dita flash mob – e estou convencido de que, de facto, o melhor a fazer é andar em cuecas no metropolitano, promover guerras de almofadas e organizar campanhas de abraços grátis. E, como me sinto um tanto descoroçoado por o Dia Sem Calças (eu gosto de chamar-lhe “Dia Em Cuecas”, mas é petit nom) só regressar em Janeiro que vem, decidi propor à ImprovLisboa, com autorização inclusive para ela usar as minhas ideias na reuniões do comité mundial da ImprovEverywhere, uma série de “Dias Sem” e “Dias Com” a realizar ao longo de 2010, de forma a irmo-nos ocupando com alguma coisa até ser hora de despir as calças outra vez.

Uma ideia, por exemplo, era fazer-se o Dia Sem Parvoíces De Quem Não Tem Mais Nada Para Fazer Senão Andar a Chamar a Atenção Sobre Absolutamente Nada. Outra era fazer-se o Dia Com Um Trabalhinho Para Ociosos Urbanos Que Não Sabem A Diferença Entre Vestir As Calças Ou Andar Com Elas Na Mão, Entre Comer A Sopa Em Silêncio Ou Sorvê-la Com O Ruído De Um Aspirador, Entre Sentar-se Direito Numa Cadeira Ou Descalçar Os Sapatos E Pôr Os Pés Nojentos Em Cima da Mesa. E outra ainda era fazer-se, no fim, como uma espécie de gala final, o Dia Sem Grilhões De Espécie Alguma, incluindo livre-trânsito para as pessoas escarrarem e darem traques em público, roubarem chocolates no supermercado e ficarem a dever os créditos ao banco, fornicarem pelas praças e atropelarem os peões nas passadeiras.

Afinal, todas estas convenções em que vivemos são o quê, senão o sinal de uma sociedade doente, subjugada por regras e incapaz de perceber que o mundo não tem de ser sempre igual? Sejamos diferentes. Toca a dar traques.


 

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 16 de Janeiro de 2010 às 23:51
A primeira Flash mob em Portugal acabou por contar apenas com três participantes, que acabaram por desmobilizar, e uma dezena de curiosos, que se juntaram frente à Assembleia da República. A maior concentração acabou por ser feita pelos jornalistas. Alguns minutos antes do relógio marcar as 15:30, em meados de Setembro de 2003 (o primeiro mundial realizou-se, poucos meses antes, em Manhattanem ) frente à Assembleia da República já se podia perceber que algo estava para acontecer. Uma massa de jornalistas e uma dezena de curiosos foram ver como seria a primeira Flash mob portuguesa. Assim, as pessoas teriam de ficar de pé (às 15:31) e olhar à volta, com a mão a fazer de pala contra o sol. Às 15:32 teriam que fazer uma expressão de como encontraram a pessoa procurada e no final gritariam, bem alto, yes ». No entanto tudo se transformou num flop.

Nas escadas da Assembleia, apenas se viam alguns polícias. Tudo parecia indicar que era um dia como tantos outros. Mas a escassos metros da Assembleia estava estacionada uma carrinha da polícia, que só abandonou o local cerca das 15:50, não fosse o diabo tece-las por tão esquisita concentração. Todos os Flash mob`s que se seguiram em Portugal tiveram sucesso assegurado.
O mundo não tem mesmo de ser igual mas, por favor, não dêem muitos traques. Alem de cheirar mal, temos de ter em atenção o efeito de estufa!!
De Patrícia Porto a 19 de Janeiro de 2010 às 16:38
Muito engraçado Joel. Usou a cueca depois disso?

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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