Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010
publicado por JN em 8/1/10

Para mim, está mais do que provado: Carlos Carvalhal merece assinar contrato com o Sporting até ao final de 2010-2011. Assim como assim, não vale a pena esperar por aquilo que o seu Sporting possa fazer até ao final da temporada (os Olegários desta vida parece já terem mais ou menos definido quem vai fazer o quê até Maio). E o facto é: quase pela calada, dizendo apenas o que é essencial dizer, Carvalhal fez quase tudo bem até agora. Mexeu na equipa um bocadinho depressa de mais, é certo – e a equipa, afundada no marasmo em que a haviam deixado afundar-se durante quatro longos anos, demorou a responder. Mas pôs a administração da SAD à procura de recursos para fazer o que há tanto tempo era fundamental fazer: contratar jogadores. E, sobretudo, proferiu e institucionalizou a frase mais importante da história recente do clube: aquela em que explicou, num tom tão seguro que quase parecia estranhar o simples facto de ninguém o ter percebido ainda, que o Sporting não pode assentar numa estrutura de “meninos” formados na academia de Alcochete.


Não é preciso dizer o quanto isto significa de corte com o passado recente. Nem, aliás, o quanto isso me enche de esperança, a mim e a outros como eu (e que são muitos mais do que se pensa, apesar de os adoradores de Soares Franco, Paulo Bento e demais miserabilistas tristonhos continuarem a encher os fóruns radiofónicos e os comentários dos jornais online de frases como: “Isto ainda vai correr muito mal…”). Pois é fundamental reconhecê-lo: este discurso, bem como a atitude que o tem coisificado, começou com a chegada de Sá Pinto e Carvalhal a Alvalade. Ora, Sá Pinto não tem, tanto quanto se saiba, um deadline: independentemente dos resultados próximos, há-de ser director desportivo (sim, eu sei que não é “director desportivo” mesmo, mas também nunca ninguém explicou como se diz ao certo) ainda durante algum tempo, podendo mesmo trocar de treinador uma ou outra vez. Já Carvalhal não: tem contrato até Junho apenas – e pode muito bem estar a lançar as bases para outro brilhar.

Não merece. Pelo contrário: merece assinar contrato por pelo menos mais um ano, dispondo da oportunidade de montar uma equipa à sua imagem – e de geri-la depois durante tempo suficiente para que possamos formar uma opinião sobre o seu trabalho e as perspectivas que ele nos abriu. E então, sim, devemos ser implacáveis (implacáveis como nunca fomos com Paulo Bento): se for bom e proporcionar expectativas quanto a um futuro de sucesso, deixá-lo ficar; se for apenas mais ou menos e perder a capacidade de encher-nos de esperança, deixá-lo sair. O Sporting é e tem de continuar a ser um clube grande. Na pior das hipóteses, pode ficar três anos sem ganhar o campeonato (incluindo duas vitórias para o FC Porto e uma para o Benfica), não mais do que isso. E aquilo para que até hoje estávamos a preparar-nos, com Paulo Bento, com o discurso vigente e com a atitude conformista que se institucionalizara, era para passar outros 17 ou 18 anos no deserto, a ganhar uma Taça de Portugal de vez em quando – e, de resto, todos contentinhos porque íamos à Liga dos Campeões fazer figuras tristes.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 8 de Janeiro de 2010

3 comentários:
De Ricardo a 8 de Janeiro de 2010 às 19:52
O problema é que os Olegários desta vida ainda estarão por cá para o ano que vem, para o outro e para o outro depois deste...

Já agora, "Soares Fraco" é gralha ou trocadilho?
De Jota a 9 de Janeiro de 2010 às 16:25
Este é provavelmente o texto com que menos concordo, entre todos aqueles que já escreveste aqui sobre o Sporting. Paulo Bento, no fim da época passada, em entrevista à RTP1, disse que não era possível ao Sporting ter no plantel muitos mais jogadores formados na Academia. E o que aconteceu? Ficou com os 8 que já lá estavam e ainda recebeu mais dois (André Marques e Saleiro). Ou seja, 10 dos 24 jogadores (ok, incluindo aqui Caneira), foram formados no clube. Se Paulo Bento tivesse tido 15 milhões de euros à disposição para contratar reforços, estou certo de que não diria que não. Se aquilo que Paulo Bento fez é miserabilista, o que dizes do que fizeram, por exemplo, Bobby Robson e Carlos Queiroz, com muitos mais meios?

Carvalhal, até agora, não tem feito melhor do que noutros projectos mais ambiciosos que já integrou. De um Sporting activo no mercado, como ele apregoou, recebemos João Pereira e Pongolle. Se o primeiro foi uma contratação lógica e me parece reforço, o segundo não se afirmou em lado nenhum até hoje, pelo que não espero dele melhor do que de Caicedo ou Postiga. Espero estar enganado. Quanto ao que ainda aí vem, espero para ver.

Carvalhal não é miserabilista? Se ficar eufórico com o empate frente ao Heereenveen e muito satisfeito com a exibição frente à U. Leiria não é uma demonstração de miserabilismo, vou ali e já não venho. O que quero dizer é: não me parece que o futuro do Sporting seja hoje mais risonho do que era há três meses. Lamentavelmente.
De jorge espinha a 16 de Janeiro de 2010 às 14:58
Caro Joel

A paisagem parece ter melhorado, embora tenhamos de convir que não era muito difícil . Mas ainda no que se refere à polémica do há dinheiro/não há dinheiro eu gostaria de dizer umas coisas. Eu confesso que até há bem pouco tempo tinha fé (era realmente uma crença sem provas) de que o SCP estava a ser bem gerido, de que não havia dinheiro e de que a Academia chegava para as encomendas. Pois é , eu não percebo nada de futebol, bem sei.
Da minha fé passada sobrou , contudo a ideia de que realmente não temos dinheiro. Nem o Sporting nem o país se podem dar ao luxo com gestões do tipo O-último-a-sair-apaga-a-luz . É um dilema , tanto o benfica como o Porto , acumulam passivos cada vez mais volumosos, e empurram a concorrência para o mesmo caminho. Conhecendo a pátria como os meus 37 anos o permitem , não alimento qualquer esperança de estabelecimento de alguma moralidade concorrencial.
É com muito pessimismo que eu antevejo os próximos tempos.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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