Sábado, 26 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 26/12/09

Diz Agustina que estamos sempre a escrever o mesmo livro, independentemente da trama e do próprio género, do fulgor de cada momento e até das manobras de diversão a que recorremos para despistar o voyeurismo – e a mesma coisa se passa, até certo ponto, com as crónicas de jornal. Colecção de perplexidades e obsessões, cada crónica de jornal é, no essencial, um fragmento da biografia do seu autor. De maneira que, se aqui ando há uma eternidade a abusar do vosso tempo para encher-vos de mim próprio, mal nenhum virá ao mundo se o fizer ainda uma última vez antes que badalem as badaladas.


Passaram-se em 2009 vinte anos sobre a primeira vez que publiquei um texto num jornal – e, agora que se conclui mais uma translação e a regra pede o chamado balanço do ano, só me apetece acender um charuto, recostar-me na poltrona e aborrecer-vos com as gloriosas histórias dos muitos chefes de Estado com quem privei, das inúmeras vezes que estive debaixo de fogo, ouvindo-as assobiar – e, naturalmente, das imensas estagiárias que, ao longo destas duas décadas, não conseguiram resistir aos meus encantos de repórter de guerra acabado de chegar de um cenário de conflito.

Não se preocupem: nunca estive debaixo de fogo, da única vez que tentei penetrar na Casa Branca um senhor de auricular perguntou-me se era o novo rapaz das entregas da Myers Flower Shop, de cujas petúnias aparentemente madame Hillary não podia dispensar-se – e, quanto às raparigas, o melhor que posso argumentar em minha defesa é que não me lembro agora dos nomes todos, pelo que guardo a enumeração para as memórias (com a promessa de que será exaustiva). Além disso, sempre me interessaram muito mais os losers, as pequenas histórias e os minúsculos equívocos do quotidiano – e aos equívocos não vale a pena enumerá-los assim, a correr, sem tempo nem espaço para insinuar aquilo de que são visitadores.

Mas sempre quero deixar registado (e agora vamos entrar numa parte um bocado lamechas, se calhar é melhor pararem por aqui) que nem quando eu me sentava na cozinha fria dos Açores, folheando os jornais da adolescência e engendrando planos para tomar de assalto o Washington Post e a cadeira de Bob Woodward, eu podia imaginar que uma pequena crónica, um ínfimo apontamento, uma breve que seja continuariam, vinte anos depois, impregnados da mesma vertigem original daquelas dez ou doze linhas escritas a esferográfica, versando a minha indignação perante o facto de os clubes de futebol madeirenses serem muito mais generosamente subsidiados do que os congéneres açorianos (o meu mundo era limitado, eu sei), que um dia fui entregar à redacção do Diário Insular.

Passaram-se duas décadas. Entretanto, deixei os Açores, andei na faculdade, conheci o meu bocadinho de mundo. Trabalhei em jornais desportivos, em jornais populares e em jornais de referência. Fui estagiário e fui redactor, fui chefe (o pior chefe da História) e fui freelancer. Escrevi livros, enterrei amigos e escrevi novos livros para dedicar a esses amigos. Fui gordo, fui magro, fui novamente gordo e novamente magro. O que nunca deixou de lá estar foram os jornais.


Conheci-os quando o Luciano começou a levá-los lá para casa, dissecando-me as tragédias do Sporting – e, quando dei por mim a fazer os meus próprios, redigidos na máquina de escrever que pedi emprestada a um tio e não cheguei a devolver-lhe em vida, percebi que me tinha apaixonado. De então para cá, desencantei-me várias vezes. E, no entanto, aí estão eles ainda, proporcionando-me uma vigia sobre o mundo, trazendo-me leitores conhecidos e leitores anónimos, perfumando de tinta e de papel reciclado e de magia o meu café matinal.

Quando os jornalistas me perguntam o que é que eu sou, costumo responder: “Sou um escritor de jornais.” Quando os escritores me olham com aquele ar de quem me reconhece como um deles, não tardo a encontrar uma oportunidade de dizer-lhes: “Sou um jornalista dos livros.” Sempre tive um problema com as hordas, as capelinhas e as camisolas fáceis. Mas o que nunca deixei de ser (e por mais que tenha sido outras coisas em simultâneo) foi isso: um homem dos jornais. E, se a um adolescente que me escreva a pedir conselhos começo sempre por enumerar os defeitos da profissão (“muito trabalho”, “pouco dinheiro”, “cada vez menos do prestígio do passado”), algo dentro de mim tem vontade de erguer-lhe o copo e parafrasear o brinde americano: “A nós e àqueles como nós, que apesar de tudo ainda os há alguns!”

Os jornais vão acabar, como se diz agora? Pois, enquanto não acabarem, não acabaram.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 26 de Dezembro de 2009

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2 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 27 de Dezembro de 2009 às 00:50
Vinte anos! Parabéns, quase um quarto de século a escrever em sítios tão diferentes como no Diário Insular, Açoriano Oriental, Azorean Spirit , Jornal da Praia, Gazeta dos Desportos, Record , 24horas , Focus , Correio da Manhã, Grande Reportagem, Maxmen , FHM , Volta ao Mundo, Evasões,Mundo Golfe, Golf Digest ou Jornal do Golfe, Revista NS , Diário de Notícias, Jornal de Notícias ou O Jogo.

Escrever não é uma tarefa fácil. A arte de bem escrever pode exigir génio, rasgo e inspiração mas exige sobretudo raciocínio lógico, disciplina mental, domínio pleno de algumas regras essenciais e dedicação numa base de prática diária. E tempo. Sim, tempo. Escrever dá trabalho. Muito. E quem disser o contrário, mente. Escrever é fruto de um grande esforço e a habilidade técnica é directamente proporcional à frequência com que se escreve. Escrever bem não é apenas ser correcto gramaticalmente e não dar erros ortográficos. Escrever bem é ser um artista que manuseia as palavras e as ideias com a mesma destreza que um pintor manuseia as cores e as suas infinitas combinações. Escrever bem é transmitir de forma simples ideias consistentes. É elaborar para simplificar. É depurar ou esmiuçar, como está agora na moda. É ilustrar, criar sabores, exalar aromas e transmitir imagens ao associar as palavras. É contornar as regras, como se estas fossem celas imaginárias e, sem as desrespeitar, ir mais longe, alcançar o infinito. É saber descrever o ordinário de um modo extraordinário. É gerar empatia e saber traduzir o dia-a-dia. É ver o mundo de dentro para fora e depois de fora para dentro para melhor explanação e distanciamento. Escrever bem pode ser um dom para poetas e literatos, mas a maioria de nós está apta para escrever um simples artigo, um resumo, uma redacção tosca das próprias ideias, sem mexer com literatura nem com grandes emoções humanas.

O segredo de um bom artigo não é só talento, mas dedicação, persistência e manter-se ligado a algumas regras simples. Cada colunista tem os seus padrões. E uns são magros. Outros gordos. Alguns baixos e outros altos. E...o culpado disto tudo talvez fosse o Luciano, o tal que começou a levar jornais lá para casa e a esmiuçar as tragédias do Sporting...ou a tal máquina de escrever que pediu emprestadada ao tio que Deus já lá tem.
De bealamas40@otmail.com a 30 de Dezembro de 2009 às 14:54
oh!!quando eu era pequena (se me dá espaço também para as minhas memórias)os meus sonhos eram ganhar o Nobel da literatura e ser médica .
Pedi à minha mãe para me comprar as Vinhas da Ira.Ela comprou o livro,leu umas páginas e disse-me:
_A menina tem de ganhar juízo.Este livro não presta.Tem linhas e linhas a falar de como uma bola de cuspo que faz bolhas e bolhas no chão!É um livro sem pés nem cabeça!
Eu sabia muito bem onde ela escondeu o livro, na estante do meu pai..apanhei-o e deliciei-me.Assim aprendi que melhor era ler às escodidas,que as pessoas grandes,coitadas,eram burritas.
Já tinha acabado a faculdade de medicina e ainda dizia:
_As pessoas grandes fazem isto..as pessoas grandes dizem aquilo.
Foi a minha sogra quem me chamou a atenção para esta anomalia de linguagem,quando um dia me perguntou,estava eu a mudar a fralda ao meu filho:
_E tu não és grande?
Pronto, percebi que agora era adulta.Lá tinha que ser!
Sou médica e ainda acredito que médicos são pessoas que trazem a felicidade_tiram as dores e às vezes dão a mão aos doentes cheios de medo.
Beatriz vem do grego bearare..a que traz felicidade.
Escrevi um livro_"O insecto imperfeito" que evidentemente é a história da lição que dei a um homem que não queria ultrapassar a fase emocional larvar.
A Gradiva publicou e ao contrário do que acreditei não foi um sucesso literário.Mas é um livro muito bom e particularmente bem escrito.
Entre os dias em que li As Vinhas da Ira e hoje já passaram muitos acontecimentos.Incriveis!
Mas com aquele começo e este fim , qualquer pessoa" não grande" e dotada de imaginação ,pode perceber o trouble maker que eu sou!
Assim ,pelo escrito do Joel, tenho a intuição de que já muitas muitas vezes nos rimos das mesmas tristezas e alegrias .
Somos, assim, irmãos.
Bea

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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"Os Sítios Sem Resposta",
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"O Terceiro Servo"
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CRÓNICAS,
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"José Mourinho, O Vencedor",
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"Al-Jazeera, Meu Amor",
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