Sábado, 4 de Outubro de 2008
publicado por JN em 4/10/08

À Sandra, que conheci nos bancos da Igreja Baptista de Angra do Heroísmo, ouvi-lhe há uns tempos a mais inesperada e lisonjeira das frases. Note-se que, quando digo que a conheci, não quero propriamente dizer que a conheci. Vi-a nascer, fiz-lhe festas no cabelo, andei com ela ao colo – e, se em algum momento a distingui das outras (poucas) crianças que na altura alegravam a nossa minúscula comunidade, foi só por causa daqueles olhos brilhantes, quase vivos, com que parecia sorrir por dentro ao cantar perante nós todos, com gestos, no fim de mais uma Escola Bíblica Dominical: “O Sabão/ Lava o meu rostinho/ Lava os meus pezinhos/ Lava as minhas mãos// Mas Jesus/ P’ra me deixar limpinho/ Quer lavar meu coração”.


Adiante. Quinze anos depois daqueles cultos sombrios e familiares, há portanto meia dúzia de meses, Sandra mandou-me um email. Era finalista do liceu, tinha mil projectos universitários – mas, entretanto, precisava de entrevistar alguém para um último trabalho da escola. Quase morri de vaidade – e verdadeiramente à beira da morte fiquei (morte de vaidade também, não vou mentir) quando, após uma prolongada troca de emails com perguntas, respostas e cumprimentos à família, ela se despediu: “O Joel era uma das minhas personalidades favoritas.”

Não me entendam mal: não foi o piropo em si que me envaideceu – não há um só de nós que não seja o maior em pelo menos um lugar do mundo, ainda que apenas na sua própria casa. Acontece que, de todos os baptistas dos Açores, eu fora sempre o maior candidato a anti-Cristo – e aquela miúda (que continuara anos a cantar “O Sabão”, e depois se tornara num pilar da juventude protestante terceirense, e finalmente fazia planos para ir estudar em universidades evangélicas americanas, incluindo formação académica e projectos filantrópicos) chamar-me “favorito” conquistou-me para sempre.

Não é portanto o facto de a Sandra ser a nova carteira (a classe prefere a designação “técnica de distribuição postal”, mas ela rir-se-ia disso) da minha na casa dos Açores que me inquieta. Se a alguém eu gostaria de confiar para sempre as minhas cartas, seria à Sandra, que é uma miúda séria e íntima, filha de gente séria e íntima – e cuja boa formação pessoal e escolar, aliás, me parece perfeitamente adequada a um trabalho que, tendo algo de braçal, é também de uma responsabilidade e de um romantismo que poucas outras poderão reclamar.

O que me inquieta é que, absolutamente serena perante a minha óbvia atrapalhação ao vê-la de colete cinzento, mala às costas e envelopes de correio azul nas mãos, Sandra tenha feito um trejeito e explicado: “É por um ano. Não entrei na universidade e no próximo ano volto a tentar.” O que me incomoda, no fundo, é que ela fique apenas um ano. E não porque ela não mereça mais: ela lá decidirá o que é que é mais e o que é que é menos do que a profissão de carteiro – e de certeza que em breve chegará ao que isso for. O problema é que a profissão de carteiro merece mais. Mais do que alguém que, logo à entrada, decide ficar apenas um ano – e, inevitavelmente, mais do que Sandra também.

Vivo no Bairro Alto há menos de dois anos e já tive uns cinco carteiros. Decorei o nome do Amílcar, decorei o nome do João – e depois não decorei mais nome nenhum. Nos Açores, a mesma coisa: garantem-me os vizinhos que os novos carteiros são todos contratados a prazo, que não chegam a aquecer o lugar – e que, inevitavelmente, passam o pouco tempo que ali andam a pôr as cartas nas caixas erradas, a deixar avisos de encomendas em endereços onde há gente em casa e a fazer um esforço por esquecer depressa as instruções sobre a quem entregar uma carta quando o destinatário estiver de férias ou simplesmente tiver a caixa entupida.

Não sei qual é, por estes dias, a política de proximidade em vigor nos CTT. Sei que, no dia em que perguntei ao Amílcar como se chamava, ele olhou para mim surpreendido e suspirou: “Carteiro...” Ora, que Luís Nazaré tenha fomentado a despersonalização da actividade, ele que há tantos anos vinha crescendo como apparatchik do PS e de José Sócrates, não é coisa que não devêssemos todos esperar. Mas o que fará Mata da Costa, o novo presidente da empresa, desde sempre um homem das comunicações: irá ele permitir que o Amílcar continue a não ter nome? Que diabo, irá ele deixar fugir a Sandra sem oferecer-lhe uma oportunidade de, pelo menos por um instante, sentir-se honrada com a mágica actividade que desempenhou antes de cair na escola de jovens delinquentes que provavelmente será também a sua universidade?


CRÓNICA ("Muito Bons Somo Nós"). NS', 4 de Outubro de 2009

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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