Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 18/12/09

Perguntam-me: “Mas achas mesmo que o Sporting está melhor, depois da troca de Paulo Bento por Carlos Carvalhal?” – e com aquele retórico “mesmo” esperam que a pergunta fique automaticamente respondida (de forma negativa, claro). Não fica. O Sporting está efectivamente melhor desde que Paulo Bento se demitiu, tenha ou não optado pela melhor alternativa para a sua substituição. Perdeu com o Leiria em casa? Pois perdeu. Perdeu com o Hertha em Berlim? Pois perdeu. Está a praticar um futebol medíocre, com um plantel medíocre e expectativas de classificação medíocres também? Pois está. Mas agora sabe que está a praticar um futebol medíocre, sabe que tem um plantel medíocre e sabe que o limite das suas aspirações classificativas é medíocre – e isso é muito mais do que eu esperava que uma figura da dimensão de Carlos Carvalhal pudesse fazer em um mês apenas.


Consciência – eis aquilo que ganhámos nas últimas semanas. Consciência, em primeiro lugar, de que valemos pouco. Consciência, em segundo lugar, de que precisamos de investir em meios para valer mais. E consciência, em terceiro lugar (e o que é o mais importante de tudo), de que jogar para o segundo lugar não chega. Paulo Bento, não me canso de dizê-lo, operou pequenos milagres. Mas, para ganhar um campeonato, o Sporting não precisava de pequenos milagres: precisava de um milagre dos grandes – e a posição em que nós temos de colocar-nos agora é numa que nos permita não precisar de milagre nenhum. Pois temos por esta altura à frente da equipa um homem que não só não é milagreiro, como já nos ajudou a perceber que os milagres nem sequer são coisa deste mundo. Quanto a mim, é um salto gigante.

Não há volta a dar-lhe: esta época é para queimar. Na melhor das hipóteses, chegaremos à Liga Europa, feito que já teria o seu mistério. De resto, o essencial, agora, e não sendo preciso bater mais no fundo (no fundo já nós estamos a bater há anos), é iniciar a preparação do plantel para uma época de 2010-2011 pelo menos condigna. Há anos que nos dizem: “É preciso dar um passo atrás para, então sim, darmos dois à frente.” Pois esta temporada é para cobrar o primeiro desses passos – e na seguinte cá estaremos, de dentes arreganhados, vozes tonitroantes e canetas afiadas, para reclamar o passo seguinte. De resto, não se pode pedir a Carvalhal que, em apenas um mês, convença uma série de madraços a quem há cinco anos diziam que o segundo lugar bastava de que é mesmo preciso vencer.

Mas pode pedir-se-lhe que exija mais trabalho, mais treino, mais profissionalismo. E uma das formas de fazê-lo talvez fosse a imposição de um regime laboral que obrigasse os jogadores a passarem pelo menos parte da tarde no emprego. O dia-a-dia de um jogador do Sporting, hoje, é assim: chegada à academia às 10.00, treino das 10.30 às 11:45, motor do bólide a ronronar às 12.00 – e aí vão eles jogar PlayStation. Há três ou quatro que, por necessidade de banhos e massagens, ficam mais meia hora. No limite, há ainda dois ou três que, devido a lesão, almoçam na academia e vão para o ginásio à tarde. Mas é tudo. E eu, sinceramente, acho que isto é refastelo a mais. Independentemente de ser uma tolice aquela ideia de Luís Filipe Vieira de pôr os jogadores a saírem do trabalho às 19.00 (de resto, nunca consumada), no Benfica – como, aliás, no Porto – trabalha-se mais. E, provavelmente, chegou a hora de acabar com a boa vida desta gente.


CRÓNICA DE FUTEBOL ("Futebol: Mesmo"). Jornal de Notícias, 18 de Dezembro de 2009

2 comentários:
De Jota a 18 de Dezembro de 2009 às 19:44
Ganhámos consciência? Relê lá as declarações de treinador e jogadores após o jogo de Berlim. Se há gente satisfeita consigo própria é aquela. Eu já não conto com nenhum (nenhum!) deles.
De Tite a 28 de Dezembro de 2009 às 20:34
Com o período de Natal a passar nem sequer vim ler este artigo.

Que posso dizer? NEM MAIS, NEM MENOS!

Já andava desconfiada que aqueles meninos não tinham preparação física para aguentar os 90 minutos de jogo. Agora percebo porque eles davam sempe 45 minutos de avanço ao adversário.
Mas eles não têm culpa... quem lhes deu essa regalia é que deveria ser castigado. Que ideia!!!!
Veja-se a diferença que fez a equipa do Benfica quando passou a ser preparada pelo Jesus. Que diferença!!!!
Qualquer equipa de futebol que não suporte correr durante o tempo de jogo é porque está mal preparada.
Meu querido clube a quem tu estás entregue!?!?!?!? Alguém terá interesse em dar o campeonato de mão beijada aos adversários?

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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