Sábado, 12 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 12/12/09

Eu sabia que a palavrinha não tardava – e, efectivamente, escassas linhas mais à frente, lá estava ela: “auto-estima”. A história: uma rapariga de Lisboa tirou um curso de Psicologia, mudou-se para Londres a convite de uma empresa multinacional, aborreceu-se com aquele nevoeiro todo, inscreveu-se num curso nocturno na London School of Striptease (uma espécie de London School of Economics and Political Science, mas em versão Demi Moore) e agora, aos 31 anos, anda a percorrer os ginásios de Portugal dando aulas de “striptease e burlesco” a raparigas sérias, senhoras casadas e noivas em dia de despedida de solteira.


Não vou entrar em muitos pormenores – a história vinha toda contada na última edição desta mesma revista. O importante é isto: desde que tenham “entre os 18 e os 80 anos”, todas as mulheres portuguesas podem agora, ao som de Marvin Gaye, Peggy Lee ou (supõe-se) Joe Cocker, aprender a técnica do bump&gind, baseada numa suave rotação de anca que termina com um remate seco da mesma na direcção de uma das ilhargas (“a fazer lembrar Betty Boop”), ou mesmo aquele outro movimento que não tem nome, mas passa por uma palmada no próprio rabo, após a qual a dançarina vira ostensivamente o olhar para a audiência, com claros benefícios (lá está) para a sua auto-estima.

É todo um mundo novo que se abre à frente das mulheres. Casadas ou solteiras, executivas ou desperate housewifes, em estado normal ou mesmo grávidas (sim, mesmo grávidas, desde que não “muito”), elas não só estão agora autorizadas a fazer figura de urso, como ainda por cima a mostrar o orgulho que têm nisso. Lamenta Isabel Martins: “Em Londres, há muitas mulheres de negócios que à noite fazem os seus espectáculos. Aqui, ainda tenho muitas pessoas que vêm ao workshop às escondidas da família e dos amigos.” Estou com ela: este país está feito uma parvalheira. Entretanto, porém, registo com esperançoso deleite a notícia de que a maior parte das suas alunas não só já cumpre o dressing code da (hum) modalidade, aparecendo nas aulas de saia e de top, como ainda por cima traz logo sapatos altos.

Mas tenho, já agora, algumas objecções. Primeira: para quê estes anos todos de luta pela igualdade de direitos, se tantas e tantas mulheres mais não querem, afinal, do que ser reduzidas aos objectos dançantes a que nós, com tão boa vontade, as reduzíamos no passado? Segunda: para quê toda esta obsessão com a nudez, se tantas e tantas mulheres (como tantos e tantos homens) se encontram já numa idade em que ficam muito mais bonitas vestidas do que despidas? Terceira: embora a auto-estima seja importantíssima e isso tudo, não seria talvez melhor estimarmo-nos um bocadinho menos e não perdemos tempo com parvoíces? Quarta (e esta é mais um pedido pessoal do que uma objecção): importa-se a senhora professora stripper de não insistir na tecla de que até já teve uma aluna de 59 anos, visto ser essa a idade da minha própria mãe?

De resto, não me admira que os ginásios invistam em aulas de strip. Da maneira que as coisas andam, basta alguém dizer que gostava de aprender a jogar à bisca lambida, que logo aparece um professor todo atlético pronto a ensinar a lamber o polegar (e, aliás, alcandorado de provas científicas de que uma boa cartada é fundamental para a auto-estima). E também não me admira que a pioneira no striptease-com-benefícios-para-o-bem-estar-geral seja uma psicóloga. Aliás, por mim, estes psicólogos que polvilham as páginas dos jornais e das revistas, a brincar aos Carlos Amarais Dias, bem podiam enveredar todos por uma carreira no varão. Quando a esta senhora Isabel Martins, e por muito bonitinha que seja, até nem tenho grande curiosidade. Mas já guardei na carteira uma nota de vinte com o nome de Eduardo Sá escrito.

No mais, qualquer fascínio pela arte do strip enferma de dois equívocos. Ao contrário do que diz Isabel Martins, não é verdade que seja “quase impossível sair de um par de calças de ganga de forma sensual”. Uma mulher sexy será sempre uma mulher sexy, mesmo que vestida de esquimó – e uma mulher a fingir que é sexy será sempre uma mulher a fingir que é sexy, mesmo que (ou sobretudo se) vestida com sapatos altos, meias de renda e mais nada. E, ao contrário do que pensam todas as alunas de Isabel Martins, não há um só homem que, podendo entabular conversa com uma mulher de calças de ganga, preferisse vê-la no varão. O varão é o quê, afinal: uma metáfora para o nosso membro viril? E é suposto o quê: sentimo-nos bem na nossa própria pele, quando confrontados com aquele falo monstruoso a que ela, nua e exigente, se agarra agora?


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 12 de Dezembro de 2009

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5 comentários:
De Nuno Andrade Ferreira a 13 de Dezembro de 2009 às 21:36
Foda-se, Joel. Tu escreves tão bem que até irrita.
De Manuel da Silva Carvalho a 13 de Dezembro de 2009 às 23:33
Durante muito tempo, o striptease teve um mau nome, quase sempre ligado à prostituição. Mas ultimamente até virou moda. A arte de girar à volta do poste transformou-se no desporto predilecto de muitas actrizes e celebridades de Hollywood. Oprah Winfrey já dedicou pelo menos dois programas do seu popular talkshow ao desporto sedutor.

Pelo mundo fora há variadas escolas (e até uma universidade na Austrália) a darem cursos de striptease. Pois que isto de tirar a roupa e dançar no varão não nasce por geração espontânea. É uma autentica arte que pode implicar muito treino e grande atitude. Generalizando até pode ser um pretexto de uma forma de conseguir por parte de alguma mulheres porem os homens a cozinhar, a colocar roupa no estendal, ou a participar em qualquer outra lide doméstica, através de estímulos, jogos amorosos, provocações sexuais, que valer beijos, olhares, o riso, o toque e um roçar cheio de sentidos.

A repetição do estímulo pode criar padrões de comportamento, conforme demonstrou Pavlov com a ajuda do seu cãozinho que mal ouvia uma campainha começava a salivar, existisse ou não osso. O tal fenómeno do reflexo condicionado.

Isabel Martins, formada pela School of Striptease” em Londres, dá aulas de "Striptease e Burlesco" em Lisboa há já três anos, sempre com inscrições esgotadas e excelente recepção por parte das alunas. Conforme explica a professora, esta arte adequa-se a mulheres de todas as idades, sem que seja necessária qualquer experiência prévia. É uma forma divertida de fazer exercício físico, desenvolvendo simultaneamente a auto-confiança e apostando no desenvolvimento da expressão corporal. O corpo permite movimentos naturais de extrema beleza que valorizam a mulher na sua essência. A delicadeza de movimentos e os impulsos mais profundos levam a uma redescoberta interior e à integração de uma dimensão sensual tornando qualquer mulher bela e harmoniosa.

Isabel Martins que, actualmente divide o seu tempo entre Lisboa e Londres, desde muito jovem que cultiva várias expressões de dança (essencialmente salsa e merengue) e é uma razoável praticante de ballet. Igualmente pratica a recente modalidade de tecidos verticais ou arte circense de tecido aéreo, performances modernas que desenvolvem acrobacias sobre tecidos. Trapézio fixo é outra modalidade que apaixona Isabel Martins

E... o varão que ela tão bem domina é mais do que uma metáfora para o nosso membro viril. É um autêntico bálsamo perfumado e apimentado para a nossa alma!




De Susana Gaspar Gardete a 14 de Dezembro de 2009 às 11:28
Para já quero dizer-te que concordo sobretudo com o argumento da oportunidade para se dar aulas de tudo inclusive de bisca lambida… todavia, e uma vez que nos ginásios portugueses, hoje apenas possam dar aulas professores licenciados, imagino que isto de leccionar striptease não seja para o bico de uma qualquer odalisca. O que apesar de tudo me deixa mais tranquila, não vá eu querer aos 59 anos, numa crise de auto-estima, provar a mim e ao mundo que seminua ainda conseguirei revirar as artroses no tal varão. Mas sinceramente duvido. Pois se hoje, com metade da idade, já só quero estar de pijaminha de flanela enroscada nas mantas! E o único contorcionismo que costumo conseguiré procurar o comando da televisão debaixo do meu corpo sem me levantar do sofá!
Mas bom, nunca se sabe. Afinal, parece que «esta arte (!) adequa-se a mulheres de todas as idades» e desenganem-se os que supunham que a partir de uma determinada idade, buço e índice massa corporal a mulher apenas se devia aprimorar na arte da renda de bilros!

Enfim, certezascertezastezas parece ter Nuno Andrade Ferreira e eu concordo inteiramente com ele.
De Carla Campos a 7 de Janeiro de 2010 às 21:31
Caro Joel, ao ler o seu comentário tive olhar várias vezes para a sua fotografia , pois não queria acreditar de tais palavras tivessem sido proferidas por um homem da sua idade.
As razões que levam uma mulher a praticar Pool Dance, Stripptease ou mesmo Burlesco são diversas, mas existe um denominador comum: confiança em si, a tal palavra: a auto-estima! Porque gostam de dançar, porque gostam de seduzir, porque gostam de si ou, simplesmente porque podem e querem!
A "figura de urso" deixa-se para quem não consegue distinguir a necessidade de ganhar a vida a despir-se para rebarbados e a pura diversão de surpreender O parceiro numa noite e sentir que somos objecto do SEU desejo!
Só nos reduz "a objectos dançantes" quem ainda não descobriu que o Pool Dance já é uma actividade desportiva a um passo de ser federada e apena consegue imaginar uma cena deplorável, num qualquer barzeco do Cais Sodré.
Deixo-lhe, no entanto, um repto: junte-se a centenas de pessoas (de todas as faixas etárias) que já descobriram no Maxime (em Lisboa) um verdadeiro espectáculo de burlesco.
De Maria a 8 de Janeiro de 2010 às 01:44
Concordo que o striptease é divertido para o casal e penso que seja isso o objectivo. Uma mulher gosta de agradar e sentir-se sensual para o companheiro, pricipalmente se gostar do seu corpo.

Mas concordo que enquanto existir numa sociedade casas de striptease onde sabemos que se pratica a prostituição e reduz a mulher a objectos, o homem nunca respeitará a mulher.

Para uma mulher com amor próprio e mentalmente sã, é degradante despir-se perante uma plateia de homens. Os donos das casas muitas das vezes embebedam-nas para se conseguir despir, depois habituam-se
à degradação e acabam por achar "normal". Numa sociedade evoluida este tipo de espetaculos deviam de ser proibidos, obviamente que os homens não querem...negocios muito lucrativos...


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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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