Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 8/12/09

Talvez Paquete de Oliveira tenha razão e “o espectador da RTP” não aprecie “mesmo nada” o uso de estrangeirismos na televisão. Talvez a sua conclusão seja correcta e o facto de “o espectador da RTP” não apreciar “mesmo nada” o uso de estrangeirismos na televisão signifique que “quer ver respeitada a língua portuguesa”. Mas não é evitando os estrangeirismos que se protege uma língua. “O espectador da RTP”, como Paquete de Oliveira o identificou numa entrevista ao Correio da Manhã, talvez não o saiba. E o seu provedor, como prova a insistência no tema, não o sabe de certeza.


As línguas são objectos dinâmicos, para cujo desenvolvimento o estrangeirismo é essencial. Mesmo o barbarismo, a categoria mais radical de estrangeirismo, é decisivo – e milhares são as palavras, no actual português oficial (se é que o há), que começaram por ser uma coisa ou outra (ou mesmo as duas ao mesmo tempo). Ser capaz de colocar-se em confronto com palavras estrangeiras, absorvê-las e fazê-las vergarem-se às suas próprias regras – eis o verdadeiro sinal da força de uma língua. Andar desesperadamente à procura de um termo para definir uma ideia que não consegue sequer conceber – eis o supremo sinal da sua fragilidade.

São posições como a de Paquete de Oliveira que deixam uma língua refém de um desastroso acordo ortográfico como aquele que pretendem impor-nos. Felizmente, continuará a existir literatura – e, com ela, uma língua em permanente evolução.


CRÓNICA DE TV ("Crónica TV"). Diário de Notícias, 8 de Dezembro de 2009

1 comentário:
De jonasnuts a 29 de Dezembro de 2009 às 01:00
Boa noite. Este post está em destaque na Homepage do SAPO, tab "TV".

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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