Sábado, 5 de Dezembro de 2009
publicado por JN em 5/12/09

Como se já não bastassem os gays, agora temos as brasileiras. Todas os meses, e esteja eu em Lisboa ou nos Açores, no Minho ou no Alentejo, ouço uma mulher portuguesa, a propósito de um filho, de um vizinho ou (sobretudo) de um pretendente involuntário, ter um desabafo do género: “Eu não sou nada xenófoba. Juro. Mas, caramba, ele vai casar com uma brasileira… Com uma brasileira!” Para uma certa categoria de portuguesas, mais valia que os filhos, os vizinhos e os ex-futuros maridos casassem com uma boneca insuflável, uma ovelha ou mesmo uma abóbora, para citar apenas as heroínas românticas de Saramago. Brasileiras é que não. São todas levianas, vêm todas à procura de dinheiro – e, se o casamento der para o torto, de bom grado passarão a dedicar-se à má vida.


Não são apenas as mulheres a desdenhar do que vem do Brasil, diga-se. Para muitos de nós, o brasileiro é o português que relaxou e saiu para sambar. Pensamo-lo nós, os detentores da mais frágil economia europeia, sobre eles, os protagonistas de uma das economias mais fulgurantes do mundo: o brasileiro é o português que fracassou na vida. O país que construiu, e que nós tão bem conhecemos durante aquela semana e meia que passámos em Porto de Galinhas, é uma coisa sem rei nem roque, manhosa e cheia de segundas intenções – e ele próprio, naturalmente, é assim também: vigarista e falinhas mansas, preguiçoso e ladrão de bancos. Se for futebolista, claro, pode jogar na selecção portuguesa. Mas com o mesmo estatuto que, antigamente, tinham as criadas trazidas da província: gente para lavar os paninhos da senhora, corresponder às necessidades do senhor, ajudar na iniciação do menino – e depois ir parir longe, a desavergonhada.

Pois eu, que li o Érico e ouvi o Chico, que me ri com o Jô e dancei com a bateria do Salgueiro, que fiz amigos em Porto Alegre e me apaixonei em São Paulo – eu sei demasiado do Brasil e dos brasileiros para embarcar nessa conversa dos manhosos e das arrivistas. Dizer que todos os brasileiros são aldrabões e todas as brasileiras levianas é o mesmo que dizer que todos os portugueses emigrados no Brasil são padeiros e se chamam Seu Manoel e que todas as portuguesas emigradas em França são porteiras e se chamam Madame Silvá. E, assim de repente, lembro-me de umas quatro ou cinco brasileiras com quem me casaria sem pestanejar (se não fosse já casado, isto é): Gisele Bündchen, Maria Rita, Maitê Proença (sim, Maitê Proença), Camila Pitanga, Juliana Paes. Estas todas e, aliás, uma série de outras que me interessariam sobretudo por razões físicas, portanto não intelectuais.

Casaria eu e casará, com total apoio do pai, um filho meu, se assim o entender. Mesmo sendo açoriano, sempre fui muito bem acolhido aqui, neste vosso país – e nada terei contra um casamento com uma nativa, tentação em que eu próprio já caí. Mas há algo numa brasileira bonita que me encanta. Talvez seja apenas o sotaque, mas o mais provável é que seja o facto de quase todas elas parecerem saídas de uma daquelas telenovelas que me povoaram a adolescência. Más, as novelas brasileiras? Pelo amor de Deus: as novelas brasileiras puseram frente a frente os ricos e os pobres (e depois misturaram-nos); puseram frente a frente o homem e a mulher (e depois explicaram-lhes que não havia uma forma só de misturá-los); puseram frente a frente a obrigação e a diversão (e depois mostraram-nos que era possível elas coexistirem sem se misturarem). As novelas brasileiras foram os nossos anos 60: a nossa revolução sexual, a nossa libertação estética, a nossa democratização do quotidiano.

Não fossem as novelas brasileiras e, provavelmente, a depilação do buço teria demorado ainda mais a implantar-se entre as portuguesas. De resto, há brasileiras que vêm para Portugal trabalhar como prostitutas? Pois ainda bem. Só vieram trazer savoir faire, perfume e dignidade à profissão. Tanto quanto me parece, não são as brasileiras que andam pelos semáforos e pelas rotundas deste país, caçando camionistas em troca de uns cobres para a dose seguinte. Pelo contrário, e depois de tantos anos de neo-realismo, o mercado está agora novamente bem servido de cortesãs, o que não deixa de ser um conforto para muita gente. No mais, e para um jovem português em idade de casar encontrar galdérias fatelas, não é preciso ir ao Brasil: basta ir às personagens de muitas telenovelas portugueses – e, provavelmente, bastará, dentro de alguns anos, ir às raparigas autorizadas pelos pais a assistir diariamente àquelas paradas de maus costumes.


CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós"). NS', 5 de Dezembro de 2009

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4 comentários:
De Manuel da Silva Carvalho a 6 de Dezembro de 2009 às 23:39
Em primeiro lugar não entendo lá muito bem (deficiência minha) a eventual ligação ou correlação de gays e brasileiras...
Num estudo interno, encomendado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal, e divulgado no princípio do ano passado, concluiu-se que as mulheres brasileiras que se prostituem em Portugal são maiores de idade, não possuem antecedentes nesta actividade no Brasil, têm um curso médio ou superior, são brancas, prostituem-se por motivos financeiros, e chegaram ao país por sua própria conta - e não inseridas em redes de tráfico de pessoas, o que aparenta ser, à partida, um contra-senso. A pesquisa foi realizada em casas de prostituição e em locais de situação de prostituição do território português, mediante um questionário pré-definido, anónimo e voluntário. O documento mostra que a maioria dessas mulheres sustenta que a mudança no rumo das suas vidas aconteceu devido à necessidade de fugirem da pobreza no Brasil. Quase todas as mulheres consultadas (98%) não se consideram vítima do tráfico humano. Destas, 80% responderam terem chegado a Portugal por iniciativa própria e 16,8% afirmaram terem sido convidadas ou aliciadas por familiares, amigos ou outros. Das 536 mulheres inquiridas, 17 afirmaram terem sido vítimas de tráfico ou alguma situação similar, e a maioria destas teriam ingressado em Portugal através da vizinha Espanha, com o objectivo de casar com um cidadão português ou para melhorar a sua situação económica. Apesar destas conclusões, é lugar comum o estereótipo de que os brasileiros que se encontram em Portugal estão aqui para sub-empregos ou prostituição. Em vez do SEF se preocupar sempre com o caso das prostitutas, deveria também de ter em atenção as milhares de brasileiras que não são prostitutas, mas estão aqui por vários outros motivos, esforçando-se para ficarem de maneira legal, e não conseguem ter o visto de residência no país. O crescente número de casamentos mistos, envolvendo portugueses, particularmente homens, e brasileiras, bem como alguns movimentos sociais informais que tendem a responsabilizar as mulheres brasileiras pelas mudanças sociais que estão a ocorrer nas famílias portuguesas (aumento do número de divórcios, diversificação dos modelos familiares) contribuem para reforçar e generalizar a imagem das mulheres brasileiras que apenas querem encontrar parceiros portugueses ou, pior, a imagem das mulheres brasileiras como prostitutas. O que a diversidade de pesquisas sobre a migração brasileira em Portugal apresenta é que são muitas as possibilidades e complexidades dos processos identitários desses migrantes. A presença dos brasileiros em Portugal já atinge tamanha densidade e enraizamento que não é mais possível falar de uma Identidade Brasileira, ou de qualquer perspectiva que reifique a intensa diversidade dessa população. A presença em sectores distintos do mercado de trabalho, de estratos sociais diferenciados de migrantes, de agrupamentos de brasileiros seguindo critérios variados (uma identidade ultra-essencializada no Porto, uma comunidade evangélica na Caparica, trabalhadores da construção civil em Lisboa, etc.) indicam a importância, profundidade e complexidade desse fluxo populacional.

As questões que agora e sempre se colocam giram em torno de como e em que condições essa população, com a totalidade de todos os outros diversificados emigrantes, estão a integrar a sociedade portuguesa, o que deverá sempre merecer a melhor atenção por parte dos nossos governantes. Devemos tratar os emigrantes conforme gostamos que os nossos sejam acolhidos em terra estrangeira.
De Eli a 11 de Dezembro de 2009 às 00:28
Gostei da visão refrescante que li aqui.

:)
De Anónimo a 15 de Dezembro de 2009 às 10:12
Obrigada!
Bem haja!
Elen de Moraes
De Renato Clemente a 14 de Junho de 2010 às 00:38
O mais legal, foi o autor dizendo: " quatro ou cinco brasileiras com quem me casaria sem pestanejar : Gisele Bündchen, Maria Rita, Maitê Proença , Camila Pitanga, Juliana Paes ". Voce e a torcida do Flamengo, Corinthians e do São Paulo juntos meu caro. Cara, eu to rindo tanto disso, a petulãncia do cara, dizer algo to tipo "Até me casaria com essas ai". Quem voce pensa que é ? É por essas e outras, que a cada dia que passa eu odeio Portugal e os portugueses mais e mais. Eu vejo, as centenas de cidadãs Brasileiros acordarem cedo pra tomarem 2, 3 conduções para chegarem ao trabalho. Vejo essa imensa massa de cidadãos brasileiros honestos dando o sangue pra transformar o nosso pais no que ele é e no será em breve, uma potencia. Potencia que Portugal jamais será. Não so por suas limitações naturais, mas pela limitação de seu proprio povo. Um povo que tem uma cabeça tão retrógrada e limitada. É engraçado como os Estadunideses, com os quais não temos qualquer ligação histórica, nos enxergam de forma tao diferente, de forma bem mais respeitosa, mas é claro, como comparar americanos com portugueses, não é atoa que uns são a maior potencia do mundo e os outros, como o proprio autor salientou, os mais frágeis da europa.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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